O “Eu”
exacerbado de Trump
Por: André
Casimiro, Mestrando em RI, FCSH-UNL
O fim da Guerra Fria
produziu uma nova ordem, decorrente da vitória de uns e de derrota para outros.
A bipolaridade que
opunha soviéticos e norte-americanos, é superada por uma ordenação configurada
numa disposição unipolar, liderada pelos EUA, que tem uma transição marcada
abruptamente pelo 11 de Setembro de 2001.
Muita da literatura das
Relações Internacionais remete-nos para uma aceitação gradual de uma nova
ordem, desta feita, multipolar.
Urge relembrar que do
ponto de vista das capacidades, recursos e influência persiste o paradigma da
unipolaridade, visto que só os Estados Unidos detêm projecção à escala global
nas dimensões militares e económicas, acrescendo ainda a dimensão cultural como
“guião” orientador de várias sociedades.
Em suma, o “hard power” e “soft power” que sustentaram a “indispensabilidade” dos EUA, como
sublinhava Madeleine Albright, mantêm-se inigualavéis.
Sem prejuízo do retraímento
estratégico dos mandatos Obama (após a “sobrextensão imperial” de Bush), e de
diferentes graus de assertividade e revisionismo russo e chinês, os Estados
Unidos conseguem manter ainda uma dinâmica ordenadora, fazendo com que as suas
acções (ou omissões) se afigurem como determinantes no comportamento dos outros
actores.
Lida a espuma dos dias,
importa considerar um aspecto central há muito afastado da vivência
democrática.
Falamos do culto da
personalidade, que nos remete para as nossas mundividências.
Se considerado inócuo e
até ridicularizado na Coreia do Norte, ou um aborrecimento menor e irrelevante à
mesa dos “adultos” nas Relações Internacionais como na Polónia e na Hungria, já
a Turquia de Erdogan preocupa algo mais, embora civilizacional e
geograficamente distante, desde que se mantenha impedida de entrar nesta União
Europeia.
Quanto à Rússia de
Putin, afigura-se de facto como uma ameaça quase existencial, mais por uma
herança da imagética soviética e pelo perfil autoritário e militarista de Putin,
embora saibamos que ninguém quisesse morrer pela Crimeia, como ninguém quis
morrer por Danzig.
O caso Trump, contudo,
coloca-nos o famigerado culto da personalidade no seio da potência ainda
hegemónica no panorama internacional, numa narrativa que desde Tocqueville se
considera como um arquétipo, uma experiência única na história da Humanidade.
A onda de manifestações
e clamor generalizado face ao estilo, acções e “tweets” de Trump demonstram também o quanto estes Estados Unidos
são indispensavéis e percepcionados como, de facto, a única potência global, com
capacidade de afectar o Planeta, fazendo surgir uma espécie de “cidadania
global” que se julga no direito e dever de opinar sobre a actual administração
Republicana.
Trump assume-se como o
iluminado que melhor interpreta o interesse nacional, o eleito que elevará os
EUA ao estatuto de Império avassalador e inigualável, o ideólogo da reversão do
mundo da globalização e da entrega ao “seu” povo de tesouros furtados por uma
maléfica Washington.
Um verdadeiro Messias.
As ferramentas que
compõem este compromisso messiânico são o proteccionismo, o isolacionismo e o
populismo, alicerçados numa cartilha xenófoba e misógina, que na “realpolitik”
têm um preço elevado.
Depois de Trump poluir o
espaço da discussão pública com inúmeros
e constantes “soundbytes”,
aguardemos pelas acções e desconhecemos as reacções – estas últimas como fase
de processos de acção-reacção que, em cadeia e por acumulado poderão redesenhar
uma nova ordem mais próxima do paradigma vestefaliano, mas perigosamente distante
de alianças “previsíveis”, assim mais propensa a cenários vividos na primeira
metade do século XX.
Em teoria, nada disto é
inovador – a ordem internacional é e sempre será anárquica, um permanente
estado de potencial guerra, apenas constrangido pela incapacidade do soberano em
testar a todo o momento um estado permanente de guerra.
Mas aparentemente, e
lendo atentamente o discurso inaugural de Trump, o verdadeiro “excepcionalismo”
americano morreu nos moldes em que seduziu grande parte do globo.
Nasce assim um “excepcionalismo”
perverso, industriado num culto da personalidade narcíssico, no coração de uma
pátria forjada por uma pluralidade de fundadores que sempre temeram a
acumulação de poderes perniciosos.
Recordando Hobbes, resta
saber se Trump será o lobo de outros homens ou o lobo de si mesmo.
Sem comentários:
Enviar um comentário