quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Um Excepcionalismo perverso



O “Eu” exacerbado de Trump

Por: André Casimiro, Mestrando em RI, FCSH-UNL

O fim da Guerra Fria produziu uma nova ordem, decorrente da vitória de uns e de derrota para outros.
A bipolaridade que opunha soviéticos e norte-americanos, é superada por uma ordenação configurada numa disposição unipolar, liderada pelos EUA, que tem uma transição marcada abruptamente pelo 11 de Setembro de 2001.

Muita da literatura das Relações Internacionais remete-nos para uma aceitação gradual de uma nova ordem, desta feita, multipolar.
Urge relembrar que do ponto de vista das capacidades, recursos e influência persiste o paradigma da unipolaridade, visto que só os Estados Unidos detêm projecção à escala global nas dimensões militares e económicas, acrescendo ainda a dimensão cultural como “guião” orientador de várias sociedades.
Em suma, o “hard power” e “soft power” que sustentaram a “indispensabilidade” dos EUA, como sublinhava Madeleine Albright, mantêm-se inigualavéis.

Sem prejuízo do retraímento estratégico dos mandatos Obama (após a “sobrextensão imperial” de Bush), e de diferentes graus de assertividade e revisionismo russo e chinês, os Estados Unidos conseguem manter ainda uma dinâmica ordenadora, fazendo com que as suas acções (ou omissões) se afigurem como determinantes no comportamento dos outros actores.
Lida a espuma dos dias, importa considerar um aspecto central há muito afastado da vivência democrática.

Falamos do culto da personalidade, que nos remete para as nossas mundividências.
Se considerado inócuo e até ridicularizado na Coreia do Norte, ou um aborrecimento menor e irrelevante à mesa dos “adultos” nas Relações Internacionais como na Polónia e na Hungria, já a Turquia de Erdogan preocupa algo mais, embora civilizacional e geograficamente distante, desde que se mantenha impedida de entrar nesta União Europeia.
Quanto à Rússia de Putin, afigura-se de facto como uma ameaça quase existencial, mais por uma herança da imagética soviética e pelo perfil autoritário e militarista de Putin, embora saibamos que ninguém quisesse morrer pela Crimeia, como ninguém quis morrer por Danzig.

O caso Trump, contudo, coloca-nos o famigerado culto da personalidade no seio da potência ainda hegemónica no panorama internacional, numa narrativa que desde Tocqueville se considera como um arquétipo, uma experiência única na história da Humanidade.

A onda de manifestações e clamor generalizado face ao estilo, acções e “tweets” de Trump demonstram também o quanto estes Estados Unidos são indispensavéis e percepcionados como, de facto, a única potência global, com capacidade de afectar o Planeta, fazendo surgir uma espécie de “cidadania global” que se julga no direito e dever de opinar sobre a actual administração Republicana.

Trump assume-se como o iluminado que melhor interpreta o interesse nacional, o eleito que elevará os EUA ao estatuto de Império avassalador e inigualável, o ideólogo da reversão do mundo da globalização e da entrega ao “seu” povo de tesouros furtados por uma maléfica Washington.
Um verdadeiro Messias.
As ferramentas que compõem este compromisso messiânico são o proteccionismo, o isolacionismo e o populismo, alicerçados numa cartilha xenófoba e misógina, que na “realpolitik” têm um preço elevado.

Depois de Trump poluir o espaço da discussão pública com inúmeros  e constantes “soundbytes”, aguardemos pelas acções e desconhecemos as reacções – estas últimas como fase de processos de acção-reacção que, em cadeia e por acumulado poderão redesenhar uma nova ordem mais próxima do paradigma vestefaliano, mas perigosamente distante de alianças “previsíveis”, assim mais propensa a cenários vividos na primeira metade do século XX.

Em teoria, nada disto é inovador – a ordem internacional é e sempre será anárquica, um permanente estado de potencial guerra, apenas constrangido pela incapacidade do soberano em testar a todo o momento um estado permanente de guerra.
Mas aparentemente, e lendo atentamente o discurso inaugural de Trump, o verdadeiro “excepcionalismo” americano morreu nos moldes em que seduziu grande parte do globo.

Nasce assim um “excepcionalismo” perverso, industriado num culto da personalidade narcíssico, no coração de uma pátria forjada por uma pluralidade de fundadores que sempre temeram a acumulação de poderes perniciosos.
Recordando Hobbes, resta saber se Trump será o lobo de outros homens ou o lobo de si mesmo.

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