quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Mário Soares, Optimismo, O Realismo no tempo de Trump e Links da Semana


O pai da Pátria
Mário Soares (em conjunto com Salazar e Álvaro Cunhal) marca o século 20 português, não sendo possível uma unanimidade em seu redor.
Qualquer destes três nomes suscita ódios e paixões que perdurarão.
Soares foi amado pela Esquerda e odiado pela Direita, consagrado depois por um amplo “centro” político, para terminar como ídolo das novas gerações esquerdistas radicais.
A mitologia do ex-Presidente da República foi construída rapidamente no pós 25 de Abril de 1974 em torno de duas situações: a descolonização e a paternidade da democracia liberal em Portugal.
A primeira, inquinada por um conflito militar mantido para sobrevivência de uma ditadura decrépita, num contexto internacional bipolar e numa convulsão doméstica constante, teve nas acções de Soares o símbolo de algo que nunca dele, em exclusivo, dependeu.
Já no combate à deriva revolucionária extremista e no estabelecimento de uma democracia civilista, o fundador do Partido Socialista congregou todos os que contrariavam o desvario, fosse a direita acantonada no CDS e na Igreja, a esquerda democrática, a Europa comunitária, a administração norte-americana e até os mais variados serviços de inteligência ocidentais.
Soares percebe a entrada na Europa como salvação de um país sem sobrevivência a prazo, embora se exima de reformas estruturais internas, apesar de ter “engavetado” o socialismo.
Sobre Soares escrevem-se hagiografias e protestos, conspirações e rumores, chistes e louvores.
Foi por vezes tudo e o seu contrário.
Mas de forma oposta a Salazar e Cunhal, seres autoritários e com credos inabaláveis, Soares foi sempre um homem essencialmente livre, percebendo de forma inata e imediata, do que somos feitos como povo.
Salazar conseguiu impor a sua visão e indispensabilidade num país temente aos pequenos poderes, à violência difusa, a um Estado empregador e eucaliptal, a instituições reaccionárias adversas ao reformismo ou a revoluções.
Cunhal alimentava uma ideia perene, imutável ao mundo que o rodeava, impermeável a qualquer outra leitura que não a de uma disciplina férrea e onde o individuo não tinha lugar.
Quer Salazar quer Cunhal foram os derrotados do Século 20, pessoal e ideologicamente.
Soares acreditava em si e num Portugal que não poderia retornar a um Império inviável pela História ou manter-se numa construção artificial rumo ao Homem novo soviético.
Colocado no olho do furacão, Soares nunca foi um génio do pensamento profundo, mas sim um mestre de decisões maioritariamente correctas, em contextos dificílimos e extraordinários.

O Optimismo
Foi publicado um livro do qual convém falar nestes dias com cheiro a “fim dos tempos”.
“Progress: Ten Reasons To Look Forward To The Future” de Johan Norberg.
Nele, o autor constata:
Globalmente, vivemos mais, somos mais ricos, existem menos vítimas de conflitos armados, o terrorismo é um detalhe, aprendemos mais, estamos melhor alimentados e com acesso quase generalizado a saneamento básico.
Senão vejamos:
Em 1947, metade da população mundial sofria de malnutrição, na actualidade apenas 13%.
Em 1980, somente 52% do globo tinha acesso a água potável face aos 91% contemporâneos.
Se na Grécia Antiga a expectativa de vida máxima era de 25 anos, no século 19, na Europa Ocidental 40 anos, a esperança média de vida actual reside nos 71 anos.
Em 1981, 54% do mundo desenvolvido vivia em extrema pobreza, em 2016 somente 12%.
Apesar da catadupa de notícias de barbárie que nos rodeiam, nos anos 50, a média de mortes num conflito armado era de 86 mil, hoje é de 3 mil.
No século 17, a Guerra dos 30 anos dizimou 1/3 da população alemã e nas invasões mongóis do século 13, 40 milhões pereceram (1/8 da população mundial).
Na Europa ocidental, morre-se hoje, por actos terroristas menos do que nos anos 70.
Há 200 anos, apenas 1 em 8 pessoas sabia ler e escrever, enquanto que hoje somente 1/7 da população mundial não sabe.
Mesmo na África subsaariana, 2/3 da população recebe educação básica.
Óbvio ululante deste livro é a abordagem quantitativa, daquela que celebrizou que se uma criatura come um frango e outra nada, ambos se banquetearam com metade do galináceo.
Mas estruturalmente resulta que de facto, estamos melhor do que em qualquer outra época.
Convém sempre enquadrar historicamente os contextos que permitiram avanços civilizacionais tidos hoje como baluartes de um viver mínimo.
Há contudo neste livro, um constante optimismo, que passe a irritação que gera em pessimistas militantes, é de facto não comprovado cientificamente.
O querer ver a realidade por uma perspectiva agradável, não influi em nada na mesma.
Como escreve também esta semana um insuspeito e Nobelizado Stiglitz citando um estudo dos economistas Anne Case e Angus Deaton, os norte-americanos de meia idade têm visto a a sua esperança média de vida reduzida, enquanto que a taxa de suicídio e a dependência de drogas e alcoolismo aumentou.
Esta parcela da população forma aquilo que baptizámos como “deploráveis”, exauridos de leituras complexas e intelectualizadas, receosos pela perda dos seus privilégios.
E foram estes que permitiram os milhões de votos de Sanders e a eleição de Trump.
O progresso quando visto genericamente esconde nem tanto o pessimismo, mas antes a leitura franca da realidade.

Um Realista no tempo de Trump
O que faz um pensador Realista num momento em que Donald Trump será o próximo Presidente dos Estados Unidos? Stephen Walt, um Realista Ofensivo na senda de Mearsheimer, escreve um artigo esclarecedor sobre a matéria.
A pergunta de partida do académico reside no facto do que muito que Trump diz (a parte residualmente coerente) sobre política externa ser semelhante a uma construção política Realista, e assim sendo, resulta lícito questionar se não seria lógico “acompanhar” intelectualmente o próximo Presidente dos EUA?
Para Walt, a resposta é fácil e claramente negativa.
Não só porque a politica externa não define uma Presidência, mas sobretudo pelos traços de nepotismo, misoginia e desrespeito por normas democráticas que Trump exibe.
A relação do Presidente eleito com a verdade é outro forte constrangimento apontado por Walt, dado que Trump governará baseando-se em factos que não acompanham a realidade, tal como o fizeram Stalin, Hitler, Mao, Mussolini e Berlusconi.
O artigo realça também as prioridades da próxima administração como equivocadas:
O Estado Islâmico, o Irão, ou a imigração não são ameaças existenciais aos EUA.
Uma verdadeira postura Realista obrigaria a uma estratégia de contenção (a proposta de “Offshore Balancing” arquitectada por Walt e Mearsheimer) face a uma China assertiva e única potência que pode colocar em causa os interesses norte-americanos, dispensando a forma desastrada com que Trump já abordou o assunto.
Walt adverte também para os contornos dos relacionamentos próximos com a extrema-direita europeia, com Putin e com Nethanyau.
Até agora, conclui o académico, Trump não tem uma noção evidente dos interesses norte-americanos ou sequer uma clara compreensão do que é a diplomacia internacional, pois parece tentado a governar de forma desonesta, vingativa, egocêntrica ou impulsiva.
E isso, é em suma, a clara negação de uma verdadeira política Realista.

Links da semana


Os avisos de Stiglitz sobre Trump: https://www.aspistrategist.org.au/the-age-of-trump/
Uma releitura essencial de Rorty na época de Trump:
Os dois últimos artigos de Zygmunt Bauman (sobre Trump):
A erosão do “centro” e a sua substituição pelo “nacionalismo”:
Recomendações para a política externa norte-americana numa nova ordem mundial: http://belfercenter.ksg.harvard.edu/files/ConservativePrescriptivePolicyChecklist.pdf

Teoria das Relações Internacionais:

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