O pai da Pátria
Mário
Soares (em conjunto com Salazar e Álvaro Cunhal) marca o século 20 português,
não sendo possível uma unanimidade em seu redor.
Qualquer
destes três nomes suscita ódios e paixões que perdurarão.
Soares
foi amado pela Esquerda e odiado pela Direita, consagrado depois por um amplo
“centro” político, para terminar como ídolo das novas gerações esquerdistas
radicais.
A
mitologia do ex-Presidente da República foi construída rapidamente no pós 25 de
Abril de 1974 em torno de duas situações: a descolonização e a paternidade da
democracia liberal em Portugal.
A primeira,
inquinada por um conflito militar mantido para sobrevivência de uma ditadura
decrépita, num contexto internacional bipolar e numa convulsão doméstica
constante, teve nas acções de Soares o símbolo de algo que nunca dele, em
exclusivo, dependeu.
Já
no combate à deriva revolucionária extremista e no estabelecimento de uma
democracia civilista, o fundador do Partido Socialista congregou todos os que contrariavam
o desvario, fosse a direita acantonada no CDS e na Igreja, a esquerda
democrática, a Europa comunitária, a administração norte-americana e até os mais
variados serviços de inteligência ocidentais.
Soares
percebe a entrada na Europa como salvação de um país sem sobrevivência a prazo,
embora se exima de reformas estruturais internas, apesar de ter “engavetado” o
socialismo.
Sobre
Soares escrevem-se hagiografias e protestos, conspirações e rumores, chistes e
louvores.
Foi
por vezes tudo e o seu contrário.
Mas de
forma oposta a Salazar e Cunhal, seres autoritários e com credos inabaláveis,
Soares foi sempre um homem essencialmente livre, percebendo de forma inata e
imediata, do que somos feitos como povo.
Salazar
conseguiu impor a sua visão e indispensabilidade num país temente aos pequenos
poderes, à violência difusa, a um Estado empregador e eucaliptal, a instituições
reaccionárias adversas ao reformismo ou a revoluções.
Cunhal
alimentava uma ideia perene, imutável ao mundo que o rodeava, impermeável a
qualquer outra leitura que não a de uma disciplina férrea e onde o individuo
não tinha lugar.
Quer
Salazar quer Cunhal foram os derrotados do Século 20, pessoal e
ideologicamente.
Soares
acreditava em si e num Portugal que não poderia retornar a um Império inviável
pela História ou manter-se numa construção artificial rumo ao Homem novo
soviético.
Colocado
no olho do furacão, Soares nunca foi um génio do pensamento profundo, mas sim
um mestre de decisões maioritariamente correctas, em contextos dificílimos e
extraordinários.
O Optimismo
Foi
publicado um livro do qual convém falar nestes dias com cheiro a “fim dos
tempos”.
“Progress: Ten Reasons To Look Forward To The Future” de
Johan Norberg.
Nele, o
autor constata:
Globalmente,
vivemos mais, somos mais ricos, existem menos vítimas de conflitos armados, o
terrorismo é um detalhe, aprendemos mais, estamos melhor alimentados e com
acesso quase generalizado a saneamento básico.
Senão vejamos:
Em 1947,
metade da população mundial sofria de malnutrição, na actualidade apenas 13%.
Em 1980,
somente 52% do globo tinha acesso a água potável face aos 91% contemporâneos.
Se na Grécia
Antiga a expectativa de vida máxima era de 25 anos, no século 19, na Europa
Ocidental 40 anos, a esperança média de vida actual reside nos 71 anos.
Em 1981, 54% do mundo desenvolvido vivia
em extrema pobreza, em 2016 somente 12%.
Apesar da
catadupa de notícias de barbárie que nos rodeiam, nos anos 50, a média de
mortes num conflito armado era de 86 mil, hoje é de 3 mil.
No século 17, a Guerra dos 30 anos
dizimou 1/3 da população alemã e nas invasões mongóis do século 13, 40 milhões pereceram
(1/8 da população mundial).
Na Europa ocidental, morre-se hoje, por actos
terroristas menos do que nos anos 70.
Há 200 anos,
apenas 1 em 8 pessoas sabia ler e escrever, enquanto que hoje somente 1/7 da
população mundial não sabe.
Mesmo na
África subsaariana, 2/3 da população recebe educação básica.
Óbvio
ululante deste livro é a abordagem quantitativa, daquela que celebrizou que se
uma criatura come um frango e outra nada, ambos se banquetearam com metade do
galináceo.
Mas estruturalmente resulta que
de facto, estamos melhor do que em qualquer outra época.
Convém sempre enquadrar historicamente
os contextos que permitiram avanços civilizacionais tidos hoje como baluartes
de um viver mínimo.
Há contudo neste livro, um
constante optimismo, que passe a irritação que gera em pessimistas militantes,
é de facto não comprovado cientificamente.
O querer ver a realidade por
uma perspectiva agradável, não influi em nada na mesma.
Como escreve
também esta semana um insuspeito e Nobelizado Stiglitz citando um estudo dos
economistas Anne Case e Angus Deaton, os norte-americanos de meia idade têm
visto a a sua esperança média de vida reduzida, enquanto que a taxa de suicídio
e a dependência de drogas e alcoolismo aumentou.
Esta parcela da população forma
aquilo que baptizámos como “deploráveis”, exauridos de leituras complexas e
intelectualizadas, receosos pela perda dos seus privilégios.
E foram estes que permitiram os
milhões de votos de Sanders e a eleição de Trump.
O progresso quando visto
genericamente esconde nem tanto o pessimismo, mas antes a leitura franca da realidade.
Um Realista no tempo de Trump
O que faz um
pensador Realista num momento em que Donald Trump será o próximo Presidente dos
Estados Unidos? Stephen Walt, um Realista Ofensivo na senda de Mearsheimer, escreve um artigo
esclarecedor sobre a matéria.
A pergunta de partida do académico reside no facto do que muito que Trump
diz (a parte residualmente coerente) sobre política externa ser semelhante a
uma construção política Realista, e assim sendo, resulta lícito questionar se
não seria lógico “acompanhar” intelectualmente o próximo Presidente dos EUA?
Para
Walt, a resposta é fácil e claramente negativa.
Não
só porque a politica externa não define uma Presidência, mas sobretudo pelos
traços de nepotismo, misoginia e desrespeito por normas democráticas que Trump
exibe.
A
relação do Presidente eleito com a verdade é outro forte constrangimento
apontado por Walt, dado que Trump governará baseando-se em factos que não
acompanham a realidade, tal como o fizeram Stalin, Hitler, Mao, Mussolini e
Berlusconi.
O
artigo realça também as prioridades da próxima administração como equivocadas:
O
Estado Islâmico, o Irão, ou a imigração não são ameaças existenciais aos EUA.
Uma
verdadeira postura Realista obrigaria a uma estratégia de contenção (a proposta
de “Offshore Balancing” arquitectada
por Walt e Mearsheimer) face a uma China assertiva e única potência que pode
colocar em causa os interesses norte-americanos, dispensando a forma desastrada
com que Trump já abordou o assunto.
Walt
adverte também para os contornos dos relacionamentos próximos com a
extrema-direita europeia, com Putin e com Nethanyau.
Até
agora, conclui o académico, Trump não tem uma noção evidente dos interesses
norte-americanos ou sequer uma clara compreensão do que é a diplomacia
internacional, pois parece tentado a governar de forma desonesta, vingativa,
egocêntrica ou impulsiva.
E
isso, é em suma, a clara negação de uma verdadeira política Realista.
Links da semana
Rússia, Irão e Turquia: https://theconversation.com/why-russia-turkey-and-iran-are-natural-allies-70819
Anatol Lieven, a Esquerda e o Estado-Nação: http://www.prospectmagazine.co.uk/politics/why-the-left-needs-nationalism
Trump e o Fascismo: http://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2017/01/06/what-the-history-of-fascism-can-tell-us-about-donald-trumps-rise/
Os avisos de Stiglitz sobre Trump: https://www.aspistrategist.org.au/the-age-of-trump/
O que é o Trumpismo: http://www.nationalreview.com/article/443667/trumpism-tradition-populism-american-greatness-strong-military
Joseph Nye, Trump e a China: https://www.project-syndicate.org/commentary/trump-china-kindleberger-trap-by-joseph-s--nye-2017-01
Uma releitura essencial de Rorty na época de Trump:
Os dois últimos artigos de Zygmunt Bauman (sobre Trump):
Adriano Moreira e a conjuntura “anárquica”: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/adriano-moreira/interior/a-conjuntura-anarquica-5598173.html
A erosão do “centro” e a sua substituição pelo
“nacionalismo”:
Garton Ash e a desagregação Europeia: http://www.nybooks.com/articles/2017/01/19/is-europe-disintegrating/
Timoteef, a Rússia e o Ocidente: http://russiancouncil.ru/common/upload/Russia-West-Paper32-en.pdf
Recomendações para a política externa norte-americana numa
nova ordem mundial: http://belfercenter.ksg.harvard.edu/files/ConservativePrescriptivePolicyChecklist.pdf
Polémica académica sobre a democracia norte-americana: http://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2017/01/08/its-even-worse-than-the-news-about-north-carolina-american-elections-rank-last-among-all-western-democracies/
A crise na democracia norte-americana: http://nationalinterest.org/blog/paul-pillar/russia-had-plenty-work-the-crisis-american-democracy-18999?page=show
Teoria das Relações Internacionais:
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