o Pasquim Infame
pas•quim - [Depreciativo] Jornal de baixa qualidade, sem importância; in•fa•me - Que não tem boa fama. https://www.priberam.pt/ [consultado em 30-12-2016].
sexta-feira, 1 de março de 2024
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Trump e Kim de braço dado
De
facto, pouco importa se Kim Jong-Un é um psicopata distópico, tal como se tornam
irrelevantes a ignorância e autoritarismo de Trump.
Ambos
estão umbilicalmente atados por uma insignificância a que se chama sobrevivência. Se o
líder da Coreia do Norte joga a sua vida, Trump aventura-se num desafio que lhe
pode custar a reeleição.
Claro
que Kim não hesitaria em imolar as criaturas que o idolatram e Trump dispensaria
o aborrecimento da Casa Branca em cinco minutos, se pudesse.
Mas aqui
uma outra trágica realidade, chamada poder, impõe-se a ambos.
Seja
por via dos interesses e burocracias (caso americano) ou da mera defesa do
couro (norte-coreano) o poder é algo que se articula, com estratégias que visam
a sua conquista, manutenção e ampliação. Trump
está impedido de investir num ataque cirúrgico ao complexo nuclear de Pyongyang,
por vários motivos:
i. Não
interessa ao seu eleitor médio – além de não saber sequer onde fica a Ásia – preocupado
com questões culturais e económicas.
ii. A
administração de Trump – um pequeno círculo de gente racional – sabe que
qualquer acção militar é um potencial desestabilizador regional que atrairá
China, Rússia e Japão com consequências imprevisíveis, afastando decisivamente
os aliados da NATO e com consequências nefastas na economia global.
iii.
A superioridade estratégica militar norte-americana é de tal magnitude que não
pode ser desperdiçada com um mosquito.
93
por cento do armamento nuclear global pertence aos EUA e à Rússia, e Washington
detém aproximadamente 7 000 armas nucleares, a que se junta um vasto
complexo estratégico superior a qualquer conjugação de forças a nível global.
Como
disse recentemente Stephen Walt, o arsenal norte-americano conteve e derrotou a
URSS e livrou-se de todo e qualquer pequeno empecilho internacional.
Há
contudo um dilema para Trump.
Kim
belisca a auto-estima do presidente norte-americano e o lançamento constante e
impertinente de mísseis é de facto algo que o impacienta, embora Trump se
irrite mais facilmente com o seu próprio partido, a imprensa ou o judiciário.
No
fundo, Trump sabe que Kim é um sortudo por ser o chefe de um campo de
concentração que não tem que lidar com os constrangimentos de viver em
democracia, esse pequeno detalhe que tem até ao momento impedido o milionário
de dar cabo do mundo em que vivemos.
Links da Semana
China
Xi estabelece “linhas vermelhas” para Hong Kong: https://www.economist.com/news/china/21724659-will-territorys-new-leader-carrie-lam-fulfil-wishes-chinas-president-xi-jinping-talks
França
Na época do autoritarismo
illiberal, Macron assume-se como o “homem forte” liberal: http://www.politico.eu/article/emmanuel-macron-liberal-strongman-charles-de-gaulle-france-majority-parliament/amp/
Islão
Recensão a dois livros sobre a caminhada Islâmica para o
mundo moderno:
Israel-Palestina
Um perfil de Mahmoud Abbas: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/07/abbass-ascension-arafat/531804/
Reino Unido
Moravcsik e como o Brexit não altera radicalmente a relação
EU-Reino Unido:
Rússia
Oliver Stone sobre Putin: “os russos nunca estiveram tão
bem”: https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2017/jun/13/oliver-stone-vladimir-putin-russian-people-never-been-better-off
A Rússia e o seu legado (e futuro) colonial:
https://www.the-american-interest.com/2017/06/29/russia-last-colonial-empire/
Relatório prospectivo do Russian
Council sobre a política externa russa para 2017-2024: http://russiancouncil.ru/papers/Russian-Foreign-Policy-2017-2024-Report-En.pdf
Terrorismo
Relatório do Washington Institute sobre a capacidade de
“sobrevivência” da al-Qaeda: http://www.washingtoninstitute.org/uploads/Documents/pubs/PolicyFocus153-Zelin.pdf
Relatório do EUISS sobre eventos hipotéticos (ataques do
Estado Islâmico ou da extrema-direita) que podem alterar a situação da
segurança regional, e a resposta aos mesmos:
Como lidar com o regresso dos Jihadistas (caso suíço)
aprendendo com os casos francês e dinamarquês:
Testemunhos no Comité Negócios Estrangeiros da Câmara
Representantes sobre terrorismo na Europa:
Seamus Hughes,
George Washington Univ.: http://docs.house.gov/meetings/FA/FA18/20170627/106184/HHRG-115-FA18-Wstate-HughesS-20170627.pdf
Robin
Simcox, Heritage: http://docs.house.gov/meetings/FA/FA18/20170627/106184/HHRG-115-FA18-Wstate-SimcoxR-20170627.pdf
Kim Cragin,
National Defense Univ: http://docs.house.gov/meetings/FA/FA18/20170627/106184/HHRG-115-FA18-Wstate-CraginR-20170627.pdf
Trump
Defesa e Política Externa
Hal Brands e Eric Elman sobre a
desordem internacional e o papel dos EUA: http://nationalinterest.org/feature/america-the-geopolitics-upheaval-21258
Hal Brands e o debate sobre a
política externa que os EUA necessitam de efectuar: https://raddingtonreport.com/foreign-policy-debate-america-needs/
Dan Drezner e o
Populista “zangado” como líder de política externa: https://static1.squarespace.com/static/579fc2ad725e253a86230610/t/592ef2c803596eec9b4cab17/1496249033946/Drezner_41-2.pdf
Stephen Walt, Está o mundo mais
estável? Os desenvolvimentos globais sob o signo de Sergio Leone (O bom, o mau
e o vilão): https://foreignpolicy.com/2017/06/26/the-world-is-even-less-stable-than-it-looks
David Frum, o declínio do Excepcionalismo Americano: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/07/the-sunset-of-american-exceptionalism/532548/
A imagem dos EUA sofre erosão global desde a eleição de
Trump (relatório do Pew Research):
Como lidar com os custos das guerras: https://csis-prod.s3.amazonaws.com/s3fs-public/publication/170626_Tracked_Cost_War.pdf?gnp97e0J.PukZ6AI_ocTNVQFpwIWgY.O
Perfil de James Mattis: http://www.newyorker.com/magazine/2017/05/29/james-mattis-a-warrior-in-washington
Respostas a Trump
Fareed Zakaria e os actuais problemas do Partido Democrata:
“Trumpismo”
A The Economist elaborou um
especial sobre Trump:
Como os Republicanos interpretam
erradamente Reagan: http://www.politico.com/magazine/story/2017/06/26/how-the-right-gets-reagan-wrong-215306
União Europeia
Paper da EU sobre o estado das Finanças europeias: https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/reflection-paper-eu-finances_en.pdf
TRI/CP
Anatol Lieven traça os perfis dos “Nacionalismos” existentes
e aponta e o nacionalismo que não deve ser temido: http://nationalinterest.org/feature/dont-fear-the-new-nationalism-21307
Danish
Foreign Policy Yearbook 2017 (Hans Mouritzen et al.): http://pure.diis.dk/ws/files/916094/Yearbook_2017_web.pdf
O pensamento marxista em
retrospectiva: http://www.newstatesman.com/politics/economy/2017/06/what-marx-got-right
Um longo artigo do The Guardian sobre os negócios
milionários das publicações científicas: https://www.theguardian.com/science/2017/jun/27/profitable-business-scientific-publishing-bad-for-science
sábado, 24 de junho de 2017
O famoso 6º distrito da Geórgia
O mundo civilizado mantém o credo na boca desde Novembro
passado, mês a partir do qual aumentou o número de aparições e prognósticos que
anunciam o fim dos dias.
Assim, quando se soube esta semana da vitória da senhora Karen
Hendel (Republicana) nas eleições para a Câmara dos Representantes, no 6º
Distrito do Estado da Geórgia, um renovado esgar de horror percorreu
chancelarias e salas de estar da burguesia dormente e do proletariado
inexistente.
Uma votação numa zona de classe média “afluente e educada”
(dizem os jornais) seria o indicado para uma valente reprimenda à sinistra
administração Trumpiana, esperando-se que o povo sincero e sério saísse à rua
votando massivamente.
Como as intenções não afectam a realidade, só a ignorância (ou
o “excesso de voluntarismo” como está na moda) fazia esquecer que este inaudito
6º Distrito pertence aos Republicanos desde 1979, elegeu há um ano o incapaz
Tom Price (actual secretário de Estado da Saúde) e tem 70% de população branca.
Podíamos juntar a estas certezas, o facto de nas cinco
eleições antecipadas para a Câmara dos Representantes realizadas este ano, o
partido incumbente ter sempre conseguido eleger o seu candidato, devendo-se tal
à junção de dois factores permanentes, o “gerrymandering” e a polarização cada
vez mais vincada do sistema político e partidário.
Dissecando a contenda, verificamos que o candidato Democrata,
um púbere Jon Ossoff – que nem sequer vive no distrito – apresentou uma
plataforma “centrista” para derrotar a candidata republicana e os “radicais” internos
de Sanders.
Tendo obtido 48% dos votos, qualquer mente sã deveria
considerar tal “score” como excelente, face ao historial do lugar em disputa e
às verbas milionárias que os Republicanos apostaram, no que foi a disputa mais
dispendiosa de sempre por um lugar para a Câmara.
Dever-se-ia inclusive ter esperança e ver uma luz ao fundo do
túnel, um sinal de assomo da “resistência” à administração.
Ao invés, é somente um embuste ou pelo menos uma locomotiva
TGV camuflada que se esqueceu de apitar no seu caminho.
O Partido Democrata continua sem estratégia e pior, a escassa oposição
que faz a Trump é dilatória, casuística e ad
hominen.
Não fossem estes males suficientes, mantém por solucionar o
pior dos seus dilemas.
A profunda divisão interna da qual existem – e se ampliam
constantemente – feridas abertas, entre os indefectíveis de Sanders e a ala
“liberal” representada pela senhora Clinton e pelo actual “Chairman”, o
inconsequente Tom Perez.
Enquanto assim for, Trump conseguirá manter as rédeas do poder
e só se prestará a alguma queda quando os seus telhados de vidro fizerem com
que o céu lhe desabe em cima de cabeça, e mesmo isso será mais celeremente protagonizado
pelos Republicanos do que por aqueles que acreditam no partido do Burro.
Links da Semana
Alemanha
3/4 dos refugiados na Alemanha continuarão desempregados
daqui a 5 anos: https://www.the-american-interest.com/2017/06/22/integration-policy-flopping-germany/
A inteligência alemã também espiou Washington (e não só): http://www.spiegel.de/international/germany/german-intelligence-also-snooped-on-white-house-a-1153592.html
Arábia Saudita
A ascensão do novo príncipe Saudita: https://www.the-american-interest.com/2017/06/21/the-rise-of-mohammed-bin-salman/
China
4 motivos que explicam a depreciação do Renminbi: https://www.project-syndicate.org/commentary/decline-of-the-renminbi-by-benn-steil-and-emma-smith-2017-06
Índia
Para a Economist, Modi não é o tão propalado
reformista: http://www.economist.com/news/leaders/21723830-he-more-nationalist-firebrand-indias-prime-minister-not-much-reformer
Irão
Documentos do Dept Estado desclassificados sobre a
intervenção dos EUA no Irão em 1953: http://nsarchive.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB598-State-Department-releases-documents-on-US-backed-1953-coup-in-Iran/
Populismo
Dan Drezner resume em 4 pontos a presença em 3 conferências (em
10 dias) sobre Populismo: https://www.washingtonpost.com/news/posteverything/wp/2017/06/20/i-attended-three-conferences-on-populism-in-ten-days-heres-what-i-learned
Michael Ignatieff e a luta que se trava na Universidade
Centro Europeia (CEU): http://internacional.elpais.com/internacional/2017/06/16/actualidad/1497623549_769312.html
Ivan
Krastev diz que a Europa Central está numa escolha entre Macron e Orban: https://www.nytimes.com/2017/06/22/opinion/macron-merkel-orban-european-union.html
Rússia
Robert Service e a biografia de Nicolau II: https://ionline.sapo.pt/artigo/568596/robert-service-nicolau-ii-foi-mais-feliz-quando-deixou-o-poder-do-que-tinha-sido-antes-?seccao=Mais_i
Terrorismo
De 2008 a 2016 a extrema-direita é a
grande responsável de ataques terroristas nos EUA: https://www.revealnews.org/article/home-is-where-the-hate-is/
Trump
Administração
O “briefing” à imprensa da Casa Branca está a desaparecer: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/06/where-have-all-the-cameras-gone/530916/
As omissões de Obama quando soube
da interferência russa em Agosto 2016: https://www.washingtonpost.com/graphics/2017/world/national-security/obama-putin-election-hacking
Defesa e Política Externa
O arquitecto da politica de Obama com Cuba, Ben Rhodes,
sobre o volte-face de Trump: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/06/cuba-trump-obama-opening/530568/
Quem assumirá (estando disposto a isso?) o papel dos EUA,
Richard Haass: https://www.project-syndicate.org/commentary/global-leadership-successor-to-america-by-richard-n--haass-2017-06
Dan Drezner e o interesse na administração Trump em
Tucídides:
Para Fareed Zakaria, Trump mantém
os EUA em conflitos que duram há 16 anos: https://www.washingtonpost.com/opinions/global-opinions/the-united-states-is-stumbling-into-another-decade-of-war/2017/06/22/7cd589f2-5796-11e7-a204-ad706461fa4f_story.html
“Trumpismo”
Como o Freedom Caucus fez refém o Partido Republicano: https://washingtonspectator.org/freedom-caucus-gop-lindstrom/
Turquia
A expansão da construção de mesquitas na Turquia: https://www.nytimes.com/2017/06/14/magazine/reading-erdogans-ambitions-in-turkeys-new-mosques.html
União Europeia
ECFR, 4 cenários na política Europeia face à Rússia: http://www.worldaffairsjournal.org/content/four-doomsday-scenarios-eu-russia-relations
Revisitar a ordem internacional e o
papel da UE: https://www.project-syndicate.org/commentary/reimagining-liberal-international-order-by-javier-solana-2017-06
TRI/CP
Simposium:
“Even Dictators have Friends: Autocratic Cooperation in the International
System”: https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.7910/DVN/HGREW1#
Index Elcano 2017 sobre nível de globalização de 100 países:
http://www.globalpresence.realinstitutoelcano.org/es/data/Presencia_Global_2017.pdf
Working
paper da FIIA, “Political culture and the domestic aspects of American
Leadership”: http://www.css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/FIIA-Political%20Culture%20and%20the%20Domestic%20Aspects%20of%20American%20Leadership.pdf
“UK
Election Analysis 2017, Media, Voters and the Campaign”:
Timothy Snyder e Maria Stephan, como resistir e derrotar o
Autoritarismo:
segunda-feira, 29 de maio de 2017
O (in)sucesso do terrorismo depende de ti
Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL
Em
2008, no auge da crise económica e financeira, o historiador britânico Tony
Judt em “O Século XX Esquecido” afirmava: “O medo está a ressurgir como
ingrediente ativo na vida política das democracias ocidentais. Medo do
terrorismo, decerto; mas também e talvez de forma mais insidiosa, medo da
rapidez incontrolável da mudança (…), medo de que já não sejamos só nós que já
não conseguimos moldar as nossas vidas, mas que também as autoridades tenham
perdido o controlo, para forças fora do seu alcance.”
Em
2017, a perceção não se alterou. Na expressão do uruguaio Eduardo Galeano, o
medo aparece como o “gás paralisante” que simultaneamente conduz e (tem)
condicionado a nossa ação. A estatística e o mundo real comprovam-no.
Estatisticamente,
o último Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre as perceções de ameaça e
segurança na Europa, revela-nos que a principal preocupação em 2015 era ocupada
pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).
Empiricamente,
assim que um ataque terrorista é perpetrado – seja na Nigéria, Turquia, Egipto,
Paris, Londres, Berlim ou Manchester – o mundo apressa-se a elaborar um rol de
discursos de pesar e, com mais ou menos atenção mediática, ouvem-se diversas condenações
acompanhadas por abraços inter-religiosos. Os líderes estatais prontificam-se a
sublinhar uma retórica assertiva contra a ameaça e os Estados edificam as suas
magnânimas operações securitárias como é o caso do Reino Unido, Bélgica e França.
Estes
discursos e ações contra o terrorismo são importantíssimos e necessários, sem
dúvida, mas têm-se relevado uma contínua tentativa falhada de acertar no alvo a
abater. Impulsionadas pelo medo generalizado e aliadas ao desconhecimento sobre
o fenómeno ou à ignorância quanto ao trabalho das forças de segurança, as
reações estatais e os vários discursos têm gerado um manancial de visões
fatalistas na esteira das palavras de Judt. O que está em causa é a alegada
impossibilidade de conter a ameaça do terrorismo.
Estas
posições ultrapessimistas e erróneas nada servem senão para contribuir e
reforçar o perigo da ameaça.
Para
Bruce Hoffman, um dos mais conceituados analistas políticos na área do
terrorismo, a capacidade dos grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS
aprenderem com outros semelhantes (amigos ou inimigos), entre outros aspetos,
imprime ao terrorismo um carácter de "intratabilidade". No entanto,
pese embora a possível veracidade desse aspeto, defender explícita ou
implicitamente que o terrorismo é inevitável, é uma forma de descredibilizar a
ação das forças de segurança, potenciar a frustração de determinados esforços
e, sobretudo, contribuir para alimentar o sentimento de insegurança nas
populações.
Ninguém nega
as mortes devastadoras e a natureza descentralizada e aleatória do
fenómeno. O terrorismo é uma ameaça séria, com resultados muito eficazes, por
demais visíveis, horrendos e temíveis. Mas, é imperioso não cair em fatalismos
pois isso é radicalizar o próprio problema, abrindo caminho para o sucesso
do terrorismo.
Independentemente
da ideologia associada, a chave estratégica das narrativas extremistas como a
jihadista assenta em três objetivos centrais: encontrar, explorar e criar o
caos.
Pretende-se
fomentar sociedades polarizadas, criar antagonismos que potencialmente
alimentem o extremismo violento, a radicalização e o terrorismo. A essência da
sobrevivência de qualquer grupo terrorista baseia-se em conseguir perpetuar a
sua existência através da intensa publicidade, exposição e coação psicológica
sobre um determinado governo ou população a fim de, em última instância,
alcançar determinados objetivos geralmente políticos. Tal como numa guerra de
guerrilha, “they aim for the hearts and minds”, pois o terrorismo é sobretudo
uma estratégia psicológica que se alimenta do pânico generalizado e do medo
irracional.
O depoimento
de vários jihadistas via online, atuais combatentes na Síria e no Iraque,
comprovam esta lógica. O académico norte-americano Amarnath Amarasingam
argumenta que: “[T]hese groups’ goal [is] (...) about weakening the social
fabric of the country, chipping away at civil liberties and exacerbating
tensions that lie just below the surface. (...) Jihadist groups were never
naive enough to think that they could defeat the U.S. militarily on the
battlefield. Rather, the point was to draw Americans into a war of attrition,
let them punch themselves out, make American Muslims aware of their insecure
place in the country, and make American citizens afraid of each other”.
Ora, as
reações exageradas, quer por parte dos Estados, líderes políticos ou académicos
(aliadas ao mediatismo consumista) apenas contribuem paradoxalmente para a
difusão desses propósitos. Ao invés de se fomentar a segurança e uma política
de apaziguamento, damos azo justamente ao contrário, ao efeito perverso. Nós,
indivíduos, sociedades e estados, ao dar continuidade ao espetáculo teatral do
terrorismo quer a nível operacional ou intelectual, estamos a contribuir
inadvertidamente para o seu reforço, alimentando a potencial frustração de
quaisquer esforços contraterroristas em curso como as detenções de indivíduos.
Os mass
media (e aparentemente também as mentes ocas do FBI) divulgam material que
deveria ser classificado e continuam a explorar o drama coletivo; os serviços
de informações aparentemente ignoram avisos prévios de outros semelhantes e
padecem de recursos para manter sob vigilância todos os referenciados (só a
França tem 15000 suspeitos na sua watchlist); o cidadão comum coloca-se em punho
com o telemóvel na mão pronto a gravar tudo o que estiver a seu alcance. Deste
modo, perdem-se as noções de confiança nas autoridades e a de sigilo.
Ainda
assim, “no one gives a damn” sobre as detenções feitas ou quantas
redes já foram desmanteladas. As pessoas não percecionam as medidas
das Forças de Segurança como eficazes porque o que vêm é apenas a morte física.
O impacto visual dos ataques é o maior inimigo do sucesso contraterrorista pelo
medo que provoca. E é justamente no medo causado e percecionado que reside o
maior perigo do terrorismo: quando massificado, é irracional e rapidamente
contagioso. Este medo é o que, por sua vez, alimenta a ideia da suposta
inoperância das forças de segurança e gera opiniões fatalistas.
Em
última instância e com o nosso aval, caímos na “ditadura do medo” como Galeano
designou.
Somos voluntariamente
reféns de um pânico, fazendo eco das ideias fundamentalistas, criando barreiras
e alimentando estereótipos e antagonismos sem sentido.
O
insucesso do terrorismo depende de ti, de nós. De não sermos cativos do
propósito último de qualquer terrorista: a tentativa de alterar o quotidiano
rotineiro, de mudar formas de pensar, agir e sentir.
A
autora adota o Acordo Ortográfico.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
A Ordem e o Sistema Internacional no tempo da “pós-verdade”
Nos
últimos tempos, figuras distintas têm proliferado comentários sobre a natureza
e futuro da Ordem e do Sistema Internacional, não raras vezes confundido ambas.
Antes
de comentarmos este frenesim de certos personagens, sumarizemos os conceitos
falados.
O
Sistema Internacional deriva da conceptualização “vitoriosa” do neo-realismo de
Kenneth Waltz (1979) que possibilitou uma leitura asséptica e meramente
sistémica e estrutural, caracterizando o “espaço” onde os Estados interagem
como anárquico, existindo diferenciação com as unidades (estatais) a terem recursos
distintos, sobrevivendo numa lógica de auto–ajuda, dada a ausência de um
qualquer “112” global.
Já a
Ordem Internacional é o conjunto de normas, valores e instituições que
possibilitam e balizam o relacionamento inter-estatal e que (de novo, numa
visão neo-realista) premeia os cumpridores e pune os infractores, sendo
apanágio dos vencedores das grandes guerras ditar a sua consequente composição,
o que no caso e dada a vitória dos EUA (associada à perda de estatuto britânica
e francesa) ficou marcada pela matiz washingtoniana consubstanciada num padrão
democrático-liberal.
Passemos
agora ao modo como certas luminárias têm perorado sobre estas temáticas.
Na
sua investidura presidencial, Macron não se inibiu e “urbi et orbi” fez saber
que a França “necessita recuperar a confiança” pois a Europa e o Mundo precisam
dela “forte e segura”, para desempenhar o seu papel “imenso, na correcção de excessos
e no velar pela defesa da liberdade”.
Em
Pequim, Xi ao promover a “nova rota da seda” rodeado de lideranças mundiais,
apelou à rejeição do proteccionismo e ao abraçar da globalização, equiparando
as nações a um “bando de gansos que devem confrontar em conjunto tempestades”.
Já António
Guterres, secretário-geral da ONU, referiu que o mundo actual “multipolar” necessita
de uma governação e instituições igualmente multipolares, alertando e comparando
a actual situação mundial à de vésperas da guerra de 14-18.
Tentemos
então introduzir factos relevantes para melhor compreender as narrativas das
personagens.
64,8%
do voto na 1ª volta das presidenciais foi confiado a políticos anti-sistema,
onde se inclui o próprio Macron e os radicais Le Pen e Melanchon.
A
França tem um sistema económico, político e social irreformável, sendo
irrelevante no panorama internacional e quase dependente da importância que
Merkel e Schauble lhe queiram atribuir (por questões internas, históricas e
políticas alemãs) no panorama europeu.
A
China está rodeada por um dispositivo de alianças que os Estados Unidos
paulatinamente construíram na região, além de historicamente ter bastante
“anti-corpos” pela sua visão imperial de dominação. A tão propalada expansão
comercial não passa da necessidade indispensável que Pequim tem de recursos
energéticos, de manutenção de mercados abertos para escoar os seus produtos,
sendo estes dois critérios axiomáticos para permitir alguma pacificação interna.
Adicionalmente, Pequim tem que travar o terrorismo regional que pode encontrar
em algumas geografias internas uma base confortável, além de estar,
surpreendentemente, associado a Trump para resolver a questiúncula
norte-coreana, embora aqui lhe seja favorável a “jogada” do Presidente
norte-americana, dada a imprevisibilidade que pode ser introduzida na região.
Quanto
a Guterres, parece querer fazer prova de vida pessoal e da sua instituição. A
irrelevância que qualquer das potências globais ou regionais atribui à
organização e a incapacidade factual de sequer resolver questões menores
relembra à saciedade o texto de John Mearsheimer sobre a “falsa promessa” das
instituições internacionais que apenas reflectem a distribuição real dos
poderes e onde os Estados lêem nada mais que o seu interesse nacional.
Em
suma, o senhor Macron diz no Eliseu que a Europa e o Mundo querem e precisam de
Paris (não se sabe bem porquê), Xi Jinping faz metáforas poéticas animais com a
globalização renovada que se quer conduzida pelo “Império do Meio” e o nosso
engenheiro em Nova Iorque faz questão que reparem nele e na sua “alegre
casinha”, aludindo a comparações históricas descontextualizadas.
Lamentavelmente,
a leitura, quer do Sistema ou da Ordem Internacional, não resistem a nenhum
“teste de stress” teórico ou empírico.
As
três “imagens” sistémicas e convencionais na disciplina das Relações
Internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo) são descendentes de um
positivismo científico que não nega o essencial do que é o mundo.
As
restantes narrativas da disciplina são díspares, oscilando da aceitação da
“Escola Inglesa” até ao quase estatuto de delinquente do pós-modernismo, embora
se encontrem na sua maioria em margens residuais académicas.
O
mundo, apesar da tentativa de “diabolização” da administração Trump, é pelo
menos há três séculos, uma dominação hegemónica “ocidental”.
Relendo
Maquiavel, Gramsci e Cox consideram que um Estado dominante consegue fazer
ascender e expandir a nível internacional um sistema económico e político, que
tem capacidade de atracção, assimilação e naturalização por consenso e se
necessário inibe ou constrange pela força os eventuais prevaricadores.
Não
são possíveis discernir resistências ao bloco hegemónico “ocidental”, pois
económica, militar, cultural e politicamente a conjugação dos vários poderes
entre Washington e a União Europeia (apesar das suas vicissitudes) e a
interdependência de ambos torna impraticável a obstaculização do modelo
internacional liberal.
Macron
será o que Merkel quiser, Xi necessita de Trump e da União Europeia e Guterres
necessita que o ouçam para continuar a existir.
Antes
de lavar as mãos, Pilatos perguntou “o que é a verdade”.
Na
época da pós-verdade (construída intelectualmente por reacções
anti-positivistas) a “realidade” pode ser encontrada de forma serena na leitura
qualificada e conjunta da História, das estatísticas e das narrativas, mesmo
que esteja na moda a multiplicação das “verdades” hoje atomizadas ou encenadas
para sobrevivência de certos actores políticos.
Links da Semana
China
Relatório da LSE sobre as reformas económicas da China, de
Deng a Xi: https://www.lse.ac.uk/IDEAS/publications/reports/pdf/LSE-IDEAS-From-Deng-to-Xi.pdf
França
Schäuble em entrevista ao Der
Spiegel sobre Macron: http://www.spiegel.de/international/germany/interview-with-wolfgang-schaeuble-we-all-wish-macron-success-a-1147461.html
Islão
Relatório da
Carnegie sobre as múltiplas disputa pela autoridade religiosa: http://carnegieendowment.org/files/CP306_Brown_Religious_Institutions_Final_Web.pdf
Israel-Palestina
Porque ainda não foi feita a Paz entre Israel e Palestina, segundo o Guardian: https://www.theguardian.com/world/2017/may/16/the-real-reason-the-israel-palestine-peace-process-always-fails
Para a Economist, Israel precisa de um Estado Palestiniano
para reforçar a sua democracia: http://www.economist.com/news/leaders/21722162-more-ever-land-peace-also-means-land-democracy-why-israel-needs-palestinian-state
Populismo
Pranab Bardhan professor de
Economia de Berkeley sobre os desafios populistas à ordem liberal: http://bostonreview.net/class-inequality/pranab-bardhan-understanding-populist-challenges-liberal-order
Reino Unido
Manifestos Eleitorais:
Para o Guardian o director do Daily Mail é o homem “mais
perigoso” de Inglaterra: https://www.theguardian.com/media/2017/may/14/is-paul-dacre-most-dangerous-man-in-britain-daily-mail?
Rússia
Relatório da RAND, como a Rússia vê a ordem mundial: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1800/RR1826/RAND_RR1826.pdf
Trump
Administração
Paul Krugman e as propostas económicas de Trump: https://www.nytimes.com/2017/05/15/opinion/trump-tax-cuts-deficit.html
Trump contra o “estado burocrático”: https://harpers.org/archive/2017/06/security-breach/?single=1
Defesa e Política Externa
Stephen Walt analisa a situação no
Afeganistão e as acções de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/05/17/whats-the-point-of-donald-trumps-afghan-surge-taliban-afghanistan/
Como a intervenção na Bósnia foi uma oportunidade perdida
para os EUA: http://www.realclearworld.com/articles/2017/05/12/how_us_meddling_in_the_bosnia_conflict_changed_the_face_of_nato_112341.html
Emma Green na The Atlantic e a prioridade da administração
Trump em defender a liberdade religiosa como forma de derrotar o Islão: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/05/religious-freedom-trump-administration/526320/
Entrevista de Condolleza Rice à Politico (na integra): http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/15/condoleezza-rice-the-full-transcript-215133
Entrevista de Condolleza Rice à Politico (condensada): http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/15/condoleezza-rice-on-trump-words-do-matter-215136
Os vizinhos da China receiam a perda de credibilidade dos
EUA e viram-se para Pequim: https://www.the-american-interest.com/2017/05/16/toward-detente-in-the-south-china-sea/
“Trumpismo”
Não é tirania, é “Trump”,
Niall Ferguson:
O PPRI (Public Religion Research Institute) e
a The Atlantic analisam as causas da vitória de Trump: questões culturais mais
valorizadas que as económicas: https://www.prri.org/research/white-working-class-attitudes-economy-trade-immigration-election-donald-trump/
Artigos sobre a manipulação do eleitorado e a empresa de Robert
Mercer, a Cambridge Analytica:
TRI/CP
Robert Kaplan, os EUA num mundo Euroasiático de heranças
imperiais:
Joseph Nye e uma resposta ao ensaio de Kaplan: http://stories.cnas.org/an-essay-response-to-marco-polos-world
Relatório anual da V-Dem sobre o estado da Democracia: https://www.v-dem.net/media/filer_public/91/14/9114ff4a-357e-4296-911a-6bb57bcc6827/v-dem_annualreport2017.pdf
Klaus
Larres (Institute for Advanced Study in Princeton), Donald Trump and America’s
Grand Strategy: U.S. foreign policy toward Europe, Russia and China: http://transatlanticrelations.org/wp-content/uploads/2017/05/Larres-Donald-Trump-and-America%E2%80%99s-Grand-Strategy-U.S.-foreign-policy-toward-Europe-Russia-and-China-Global-Policy-May-2017.pdf
Hal Brands e Peter Feaver, Was the
Rise of ISIS Inevitable?:
DOI:
10.1080/00396338.2017.1325595
Zbigniew
Brzezinski, How To Address Strategic Insecurity In A Turbulent Age:
DOI: 10.1111/npqu.12079
Hal Brands questiona se o Internacionalismo norte-americano
está “morto”?: https://warontherocks.com/2017/05/is-american-internationalism-dead-reading-the-national-mood-in-the-age-of-trump/
Porque estão os Economistas contra
Piketty: http://bostonreview.net/class-inequality/marshall-steinbaum-why-are-economists-giving-piketty-cold-shoulder
Entrevista a Daniel Ziblatt, sobre a importância dos
partidos Conservadores para a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2017/05/17/why-liberal-democracy-only-dies-when-conservatives-help
sexta-feira, 12 de maio de 2017
O Cadáver Esquisito da UE
Nos
inícios do século passado a trupe dos Surrealistas inaugurou um jogo literário
chamado “Cadáver Esquisito” (“cadavre exquis”, no original, que é mais catita)
sobre o qual existem diversas historiografias.
Sumarizando,
diferentes autores iam completando uma estrutura frásica ou narrativa sem
relação de causalidade.
Um
exemplo com este magnífico “O Vermelho e o Verde” de João Artur Silva e
Mário-Henrique Leiria (in "Antologia do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny (org.), Assírio e Alvim, 1989):
- De que cor é o vermelho?
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.
Isto
tudo a propósito da União Europeia (UE) e como a mesma é percepcionada.
Almas
caridosas que por aí andam, inteligentes e civilizadas acrescente-se, clamam que
a UE está minada e cercada pelo colapso eminente.
No
plano “continental”, somam-se crises austeritárias e uma economia em
retrocesso, declínio demográfico, indecisões institucionais e políticas,
aumento eleitoral dos chamados populismos de Esquerda e Direita e até a
“desgraça” da saída do Reino Unido, que como é sabido era amado por gerações de
europeístas.
No
campo externo, embora próximo, a percepção de supostas ameaças existenciais
como o “revisionismo” russo, o “terrorismo islâmico” ou a crise humanitária com
milhões de refugiados à porta da Europa.
É o
“arco do Caos” que pode ser suplantado com “mais” Europa e mais aprofundamento,
premiando cumpridores e punindo infractores.
O outro
lado da moeda é adequadamente representado pelo recente artigo do académico de
Princeton Andrew Moravcsik, na Foreign Policy, onde se considera a UE como uma
superpotência, estatuto esse que o autor indica permanecer para o futuro a
médio-longo prazo.
Moravcsik
lê a UE como um actor único, face ao seu desempenho global e faz a combinação
do poderio económico, militar, educativo, cientifico e cultural “ocidental”, (agregando
EUA e UE) evidenciando que de forma conjunta ou apenas interpretando a União
como uma entidade única (não soberana) a China demorará no mínimo duas gerações
a rivalizar com estes números.
É em
suma, a perfeita construção utópica Humanista e Iluminista que apenas
consagrará o melhor que há em nós e que só pode ir mais além.
Vislumbramos
aqui curiosamente um código binário que se julga sofredor de dissonância
cognitiva.
No
entanto, quer os primeiros, que chamamos de “liberais pessimistas” quer os
segundos, baptizados como “liberais utópicos” alinham num mesmo diapasão, que é
a manutenção de uma coerência institucional ao abrigo de um padrão demo-liberal
– como reflectido por Francis Fukuyama em “The End of History” – que derrotou fascismo e comunismo e se apresentou como a
conclusão Hegeliana da caminhada humana.
Esta
versão ocidental demo-liberal tem contudo protagonizado uma típica forma de
Hegemonia, onde Estados Unidos e Europa mantêm paradigmas económicos, políticos
e militares.
O
Liberalismo hegemónico e expansionista, com a Globalização e o projecto
europeu, conseguiu elevar à dignidade social e económica centenas de milhões em
pessoas, difundir conhecimento e promover avanços civilizacionais como nunca na
História.
Contudo,
a ausência das componentes Realista e Conservadora permitiu que a
universalização do que se julgam como valores superiores (democracia,
capitalismo, internacionalização) possa ser coercivamente imposto, como é o
caso lamentável do Médio Oriente alargado, fonte primária dos dramas actuais.
A
contestação actual a esta ordenação sistémica assume dois contornos.
Os
“radicalismos” que estão fora da esfera do poder (Espanha, França) abarcam
discursos populistas, nacionalistas e proteccionistas que clamam ser a “voz do
povo puro”.
Já
os “autoritarismos” (Rússia, China, Venezuela) regra geral são representados em
estados-nação por lideranças personalistas, que mantêm a aparência democrática
sob forte aparato securitário e capitalismo estatal.
Qualquer
destas propostas não tem potencialidade de atracção ou sequer exerce na
actualidade ameaça existencial ao que já convencionámos como “ocidente”.
No
entanto, a multidão diverte-se com as peripécias da Coreia do Norte, vilaniza
Putin, preocupa-se com a criminalidade organizada a que chama de terrorismo, imagina
que o Exército Popular Chinês invada os cafés e as óperas europeias, enquanto
que Trump (para tranquilidade do “establishment” diplomático e militar
ocidental) mantém as mesmas políticas internacionais, uma por uma, aqui ou ali
com ligeiros “upgrades”, depois dos momentos onde se julgava que o
multimilionário iria seguir um percurso isolacionista.
Alguns
Realistas e qualquer Conservador (criaturas diferentes dos “reaccionários” que
vislumbram o Armagedão a cada passo do progresso) alertam há centenas de anos
que o expansionismo e universalização de qualquer sistema é contraproducente,
além de advertirem que as identidades e as
culturas não se apagam em construções utópicas.
Claro que ninguém nos ouve, embora algumas notas de rodapé em livros de História lembrem assim que havia gente com juízo.
Links da Semana
Fenómeno da semana: Stephen Walt escreve no NY Times
(!) sobre a diplomacia e a força militar na administração Trump:
Alemanha
Relatório da Transatlantic Academy sobre como melhorar a
relação Trump e Merkel: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Suspicious_Minds_Final.pdf
Irão
Leitura do 2º debate presidencial no Irão: http://iranprimer.usip.org/blog/2017/may/05/race-second-presidential-debate
Israel-Palestina
Aaron David Miller no Wilson Center sobre o novo manifesto
do Hamas:
Seth Frantzman no Jerusalem Post: Israel nunca foi
“Ocidental”
O projecto chinês da nova “Rota da Seda” pode contribuir
para o desenvolvimento económico e estabilidade no Médio Oriente: http://www.jpost.com/Opinion/Chinas-New-Silk-Road-and-the-Middle-East-490157
ONU
Guterres: ONU deve reformar-se e defender valores do Iluminismo:
Populismo
Cas Mudde e o verdadeiro perigo do populismo europeu, a Hungria: http://en.zois-berlin.de/publications/zois-spotlight/the-real-populist-challenge/
Reino Unido
Como as eleições do Brexit foram condicionadas: https://www.theguardian.com/technology/2017/may/07/the-great-british-brexit-robbery-hijacked-democracy
Rússia
Os ciberconflitos e a erosão do “soft power” russo, Joseph
Nye: https://www.project-syndicate.org/commentary/cyber-warfare-weakens-russia-soft-power-by-joseph-s--nye-2017-05
Relatório do Valdai sobre as acções de Moscovo face ao
futuro incerto da Europa: http://valdaiclub.com/files/14294/
Como Putin alimenta as fraquezas russas tornando-as mitos e
forças, Stefan Meister: http://berlinpolicyjournal.com/the-great-russia-myth/
Terrorismo
O Islamismo radical não é uma ameaça existencial ao
Ocidente: https://www.vox.com/the-big-idea/2017/5/3/15528360/islam-jihad-sharia-trump-bannon-isis-radical
Trump
Administração
Porto Rico declara bancarrota: http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21721670-islands-debts-will-now-bring-protracted-legal-battle-puerto-rico-declares
A análise da The Atlantic se a demissão de Comey representa
uma crise constitucional:
Entrevista de Trump ao The Economist: http://www.economist.com/Trumptranscript?cid1=cust/ddnew/n/n/n/20170511n/owned/n/n/nwl/n/n/eu/Daily_Dispatch/email&etear=dailydispatch
Defesa e Política Externa
O “America First” explicado por Rex Tillerson: http://www.realclearworld.com/articles/2017/05/08/tillerson_defines_america_first.html
Relatório da RAND por uma nova estratégia no Iraque e na
Síria: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1500/RR1562/RAND_RR1562.pdf
“Trumpismo”
Sofrerá
Trump de “political hubris”: http://www.newyorker.com/news/daily-comment/is-political-hubris-an-illness
Notas enviadas por Trump a jornalistas ao longo dos anos: http://www.politico.com/magazine/story/2017/04/28/donald-trump-handwritten-notes-reporters-215074
A Politico recorda os vários “casos” em que Trump tem estado
envolvido: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/05/donald-trump-presidential-scandals/522468/
União Europeia
Jurgen Habermaas sobre o futuro da Europa e da cooperação: https://www.socialeurope.eu/2017/03/pulling-cart-mire-renewed-case-european-solidarity/
TRI/CP
A importância das bibliotecas presidenciais e a futura
instituição de Obama: http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/07/presidential-libraries-are-a-scam-could-obama-change-that-215109
Niall Ferguson sobre o declínio da social-democracia: https://www.bostonglobe.com/opinion/2017/05/08/social-democracy-shattered/Wt5qsv0l5qiAEAJdIi94RI/story.html
Como as tecnologias podem derrubar presidências: https://www.theatlantic.com/technology/archive/2017/05/from-xerox-copies-and-tapes-to-emails-and-tweets/526158/
Subscrever:
Comentários (Atom)




