quinta-feira, 6 de julho de 2017

Trump e Kim de braço dado





De facto, pouco importa se Kim Jong-Un é um psicopata distópico, tal como se tornam irrelevantes a ignorância e autoritarismo de Trump.

Ambos estão umbilicalmente atados por uma insignificância a que se chama sobrevivência. Se o líder da Coreia do Norte joga a sua vida, Trump aventura-se num desafio que lhe pode custar a reeleição.
Claro que Kim não hesitaria em imolar as criaturas que o idolatram e Trump dispensaria o aborrecimento da Casa Branca em cinco minutos, se pudesse.

Mas aqui uma outra trágica realidade, chamada poder, impõe-se a ambos.
Seja por via dos interesses e burocracias (caso americano) ou da mera defesa do couro (norte-coreano) o poder é algo que se articula, com estratégias que visam a sua conquista, manutenção e ampliação. Trump está impedido de investir num ataque cirúrgico ao complexo nuclear de Pyongyang, por vários motivos:

i. Não interessa ao seu eleitor médio – além de não saber sequer onde fica a Ásia – preocupado com questões culturais e económicas.
ii. A administração de Trump – um pequeno círculo de gente racional – sabe que qualquer acção militar é um potencial desestabilizador regional que atrairá China, Rússia e Japão com consequências imprevisíveis, afastando decisivamente os aliados da NATO e com consequências nefastas na economia global.
iii. A superioridade estratégica militar norte-americana é de tal magnitude que não pode ser desperdiçada com um mosquito.

93 por cento do armamento nuclear global pertence aos EUA e à Rússia, e Washington detém aproximadamente 7 000 armas nucleares, a que se junta um vasto complexo estratégico superior a qualquer conjugação de forças a nível global.

Como disse recentemente Stephen Walt, o arsenal norte-americano conteve e derrotou a URSS e livrou-se de todo e qualquer pequeno empecilho internacional.

Há contudo um dilema para Trump.
Kim belisca a auto-estima do presidente norte-americano e o lançamento constante e impertinente de mísseis é de facto algo que o impacienta, embora Trump se irrite mais facilmente com o seu próprio partido, a imprensa ou o judiciário.

No fundo, Trump sabe que Kim é um sortudo por ser o chefe de um campo de concentração que não tem que lidar com os constrangimentos de viver em democracia, esse pequeno detalhe que tem até ao momento impedido o milionário de dar cabo do mundo em que vivemos.


Links da Semana

China

França
Na época do autoritarismo illiberal, Macron assume-se como o “homem forte” liberal: http://www.politico.eu/article/emmanuel-macron-liberal-strongman-charles-de-gaulle-france-majority-parliament/amp/

Islão
Recensão a dois livros sobre a caminhada Islâmica para o mundo moderno:

Israel-Palestina

Reino Unido
Moravcsik e como o Brexit não altera radicalmente a relação EU-Reino Unido:

Rússia
Relatório prospectivo do Russian Council sobre a política externa russa para 2017-2024: http://russiancouncil.ru/papers/Russian-Foreign-Policy-2017-2024-Report-En.pdf

Terrorismo
Relatório do Washington Institute sobre a capacidade de “sobrevivência” da al-Qaeda:  http://www.washingtoninstitute.org/uploads/Documents/pubs/PolicyFocus153-Zelin.pdf
Relatório do EUISS sobre eventos hipotéticos (ataques do Estado Islâmico ou da extrema-direita) que podem alterar a situação da segurança regional, e a resposta aos mesmos:
Como lidar com o regresso dos Jihadistas (caso suíço) aprendendo com os casos francês e dinamarquês:
Testemunhos no Comité Negócios Estrangeiros da Câmara Representantes sobre terrorismo na Europa:

Trump

Defesa e Política Externa
Hal Brands e Eric Elman sobre a desordem internacional e o papel dos EUA: http://nationalinterest.org/feature/america-the-geopolitics-upheaval-21258
Hal Brands e o debate sobre a política externa que os EUA necessitam de efectuar: https://raddingtonreport.com/foreign-policy-debate-america-needs/
Stephen Walt, Está o mundo mais estável? Os desenvolvimentos globais sob o signo de Sergio Leone (O bom, o mau e o vilão): https://foreignpolicy.com/2017/06/26/the-world-is-even-less-stable-than-it-looks
A imagem dos EUA sofre erosão global desde a eleição de Trump (relatório do Pew Research):

Respostas a Trump

Fareed Zakaria e os actuais problemas do Partido Democrata:

“Trumpismo”
A The Economist elaborou um especial sobre Trump:

União Europeia

TRI/CP
Anatol Lieven traça os perfis dos “Nacionalismos” existentes e aponta e o nacionalismo que não deve ser temido: http://nationalinterest.org/feature/dont-fear-the-new-nationalism-21307
Danish Foreign Policy Yearbook 2017 (Hans Mouritzen et al.): http://pure.diis.dk/ws/files/916094/Yearbook_2017_web.pdf
Um longo artigo do The Guardian sobre os negócios milionários das publicações científicas: https://www.theguardian.com/science/2017/jun/27/profitable-business-scientific-publishing-bad-for-science

sábado, 24 de junho de 2017

O famoso 6º distrito da Geórgia




O mundo civilizado mantém o credo na boca desde Novembro passado, mês a partir do qual aumentou o número de aparições e prognósticos que anunciam o fim dos dias.
Assim, quando se soube esta semana da vitória da senhora Karen Hendel (Republicana) nas eleições para a Câmara dos Representantes, no 6º Distrito do Estado da Geórgia, um renovado esgar de horror percorreu chancelarias e salas de estar da burguesia dormente e do proletariado inexistente.

Uma votação numa zona de classe média “afluente e educada” (dizem os jornais) seria o indicado para uma valente reprimenda à sinistra administração Trumpiana, esperando-se que o povo sincero e sério saísse à rua votando massivamente.

Como as intenções não afectam a realidade, só a ignorância (ou o “excesso de voluntarismo” como está na moda) fazia esquecer que este inaudito 6º Distrito pertence aos Republicanos desde 1979, elegeu há um ano o incapaz Tom Price (actual secretário de Estado da Saúde) e tem 70% de população branca.

Podíamos juntar a estas certezas, o facto de nas cinco eleições antecipadas para a Câmara dos Representantes realizadas este ano, o partido incumbente ter sempre conseguido eleger o seu candidato, devendo-se tal à junção de dois factores permanentes, o “gerrymandering” e a polarização cada vez mais vincada do sistema político e partidário.

Dissecando a contenda, verificamos que o candidato Democrata, um púbere Jon Ossoff – que nem sequer vive no distrito – apresentou uma plataforma “centrista” para derrotar a candidata republicana e os “radicais” internos de Sanders.
Tendo obtido 48% dos votos, qualquer mente sã deveria considerar tal “score” como excelente, face ao historial do lugar em disputa e às verbas milionárias que os Republicanos apostaram, no que foi a disputa mais dispendiosa de sempre por um lugar para a Câmara.

Dever-se-ia inclusive ter esperança e ver uma luz ao fundo do túnel, um sinal de assomo da “resistência” à administração.
Ao invés, é somente um embuste ou pelo menos uma locomotiva TGV camuflada que se esqueceu de apitar no seu caminho.

O Partido Democrata continua sem estratégia e pior, a escassa oposição que faz a Trump é dilatória, casuística e ad hominen.
Não fossem estes males suficientes, mantém por solucionar o pior dos seus dilemas.
A profunda divisão interna da qual existem – e se ampliam constantemente – feridas abertas, entre os indefectíveis de Sanders e a ala “liberal” representada pela senhora Clinton e pelo actual “Chairman”, o inconsequente Tom Perez.

Enquanto assim for, Trump conseguirá manter as rédeas do poder e só se prestará a alguma queda quando os seus telhados de vidro fizerem com que o céu lhe desabe em cima de cabeça, e mesmo isso será mais celeremente protagonizado pelos Republicanos do que por aqueles que acreditam no partido do Burro.

Links da Semana

Alemanha
3/4 dos refugiados na Alemanha continuarão desempregados daqui a 5 anos: https://www.the-american-interest.com/2017/06/22/integration-policy-flopping-germany/

Arábia Saudita

China

Índia

Irão
Documentos do Dept Estado desclassificados sobre a intervenção dos EUA no Irão em 1953: http://nsarchive.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB598-State-Department-releases-documents-on-US-backed-1953-coup-in-Iran/

Populismo
Dan Drezner resume em 4 pontos a presença em 3 conferências (em 10 dias) sobre Populismo: https://www.washingtonpost.com/news/posteverything/wp/2017/06/20/i-attended-three-conferences-on-populism-in-ten-days-heres-what-i-learned
Michael Ignatieff e a luta que se trava na Universidade Centro Europeia (CEU): http://internacional.elpais.com/internacional/2017/06/16/actualidad/1497623549_769312.html

Rússia

Terrorismo
De 2008 a 2016 a extrema-direita é a grande responsável de ataques terroristas nos EUA: https://www.revealnews.org/article/home-is-where-the-hate-is/

Trump

Administração
O “briefing” à imprensa da Casa Branca está a desaparecer: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/06/where-have-all-the-cameras-gone/530916/
As omissões de Obama quando soube da interferência russa em Agosto 2016: https://www.washingtonpost.com/graphics/2017/world/national-security/obama-putin-election-hacking

Defesa e Política Externa
O arquitecto da politica de Obama com Cuba, Ben Rhodes, sobre o volte-face de Trump: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/06/cuba-trump-obama-opening/530568/
Quem assumirá (estando disposto a isso?) o papel dos EUA, Richard Haass: https://www.project-syndicate.org/commentary/global-leadership-successor-to-america-by-richard-n--haass-2017-06
Dan Drezner e o interesse na administração Trump em Tucídides:

“Trumpismo”
Como o Freedom Caucus fez refém o Partido Republicano: https://washingtonspectator.org/freedom-caucus-gop-lindstrom/

Turquia

União Europeia
ECFR, 4 cenários na política Europeia face à Rússia: http://www.worldaffairsjournal.org/content/four-doomsday-scenarios-eu-russia-relations

TRI/CP
Simposium: “Even Dictators have Friends: Autocratic Cooperation in the International System”: https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.7910/DVN/HGREW1#
Index Elcano 2017 sobre nível de globalização de 100 países: http://www.globalpresence.realinstitutoelcano.org/es/data/Presencia_Global_2017.pdf
“UK Election Analysis 2017, Media, Voters and the Campaign”:
Timothy Snyder e Maria Stephan, como resistir e derrotar o Autoritarismo:



segunda-feira, 29 de maio de 2017

O (in)sucesso do terrorismo depende de ti



Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL



Em 2008, no auge da crise económica e financeira, o historiador britânico Tony Judt em “O Século XX Esquecido” afirmava: “O medo está a ressurgir como ingrediente ativo na vida política das democracias ocidentais. Medo do terrorismo, decerto; mas também e talvez de forma mais insidiosa, medo da rapidez incontrolável da mudança (…), medo de que já não sejamos só nós que já não conseguimos moldar as nossas vidas, mas que também as autoridades tenham perdido o controlo, para forças fora do seu alcance.”

Em 2017, a perceção não se alterou. Na expressão do uruguaio Eduardo Galeano, o medo aparece como o “gás paralisante” que simultaneamente conduz e (tem) condicionado a nossa ação. A estatística e o mundo real comprovam-no.

Estatisticamente, o último Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre as perceções de ameaça e segurança na Europa, revela-nos que a principal preocupação em 2015 era ocupada pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).

Empiricamente, assim que um ataque terrorista é perpetrado – seja na Nigéria, Turquia, Egipto, Paris, Londres, Berlim ou Manchester – o mundo apressa-se a elaborar um rol de discursos de pesar e, com mais ou menos atenção mediática, ouvem-se diversas condenações acompanhadas por abraços inter-religiosos. Os líderes estatais prontificam-se a sublinhar uma retórica assertiva contra a ameaça e os Estados edificam as suas magnânimas operações securitárias como é o caso do Reino Unido, Bélgica e França.

Estes discursos e ações contra o terrorismo são importantíssimos e necessários, sem dúvida, mas têm-se relevado uma contínua tentativa falhada de acertar no alvo a abater. Impulsionadas pelo medo generalizado e aliadas ao desconhecimento sobre o fenómeno ou à ignorância quanto ao trabalho das forças de segurança, as reações estatais e os vários discursos têm gerado um manancial de visões fatalistas na esteira das palavras de Judt. O que está em causa é a alegada impossibilidade de conter a ameaça do terrorismo.

Estas posições ultrapessimistas e erróneas nada servem senão para contribuir e reforçar o perigo da ameaça.

Para Bruce Hoffman, um dos mais conceituados analistas políticos na área do terrorismo, a capacidade dos grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS aprenderem com outros semelhantes (amigos ou inimigos), entre outros aspetos, imprime ao terrorismo um carácter de "intratabilidade". No entanto, pese embora a possível veracidade desse aspeto, defender explícita ou implicitamente que o terrorismo é inevitável, é uma forma de descredibilizar a ação das forças de segurança, potenciar a frustração de determinados esforços e, sobretudo, contribuir para alimentar o sentimento de insegurança nas populações.

Ninguém nega as mortes devastadoras e a natureza descentralizada e  aleatória do fenómeno. O terrorismo é uma ameaça séria, com resultados muito eficazes, por demais visíveis, horrendos e temíveis. Mas, é imperioso não cair em fatalismos pois isso é radicalizar o próprio problema, abrindo caminho para o sucesso do terrorismo.

Independentemente da ideologia associada, a chave estratégica das narrativas extremistas como a jihadista assenta em três objetivos centrais: encontrar, explorar e criar o caos.

Pretende-se fomentar sociedades polarizadas, criar antagonismos que potencialmente alimentem o extremismo violento, a radicalização e o terrorismo. A essência da sobrevivência de qualquer grupo terrorista baseia-se em conseguir perpetuar a sua existência através da intensa publicidade, exposição e coação psicológica sobre um determinado governo ou população a fim de, em última instância, alcançar determinados objetivos geralmente políticos. Tal como numa guerra de guerrilha, “they aim for the hearts and minds”, pois o terrorismo é sobretudo uma estratégia psicológica que se alimenta do pânico generalizado e do medo irracional.

O depoimento de vários jihadistas via online, atuais combatentes na Síria e no Iraque, comprovam esta lógica. O académico norte-americano Amarnath Amarasingam argumenta que: “[T]hese groups’ goal [is] (...) about weakening the social fabric of the country, chipping away at civil liberties and exacerbating tensions that lie just below the surface. (...) Jihadist groups were never naive enough to think that they could defeat the U.S. militarily on the battlefield. Rather, the point was to draw Americans into a war of attrition, let them punch themselves out, make American Muslims aware of their insecure place in the country, and make American citizens afraid of each other”.

Ora, as reações exageradas, quer por parte dos Estados, líderes políticos ou académicos (aliadas ao mediatismo consumista) apenas contribuem paradoxalmente para a difusão desses propósitos. Ao invés de se fomentar a segurança e uma política de apaziguamento, damos azo justamente ao contrário, ao efeito perverso. Nós, indivíduos, sociedades e estados, ao dar continuidade ao espetáculo teatral do terrorismo quer a nível operacional ou intelectual, estamos a contribuir inadvertidamente para o seu reforço, alimentando a potencial frustração de quaisquer esforços contraterroristas em curso como as detenções de indivíduos.

Os mass media (e aparentemente também as mentes ocas do FBI) divulgam material que deveria ser classificado e continuam a explorar o drama coletivo; os serviços de informações aparentemente ignoram avisos prévios de outros semelhantes e padecem de recursos para manter sob vigilância todos os referenciados (só a França tem 15000 suspeitos na sua watchlist); o cidadão comum coloca-se em punho com o telemóvel na mão pronto a gravar tudo o que estiver a seu alcance. Deste modo, perdem-se as noções de confiança nas autoridades e a de sigilo.

Ainda assim, “no one gives a damn” sobre as detenções feitas ou quantas redes já foram desmanteladas. As pessoas não percecionam as medidas das Forças de Segurança como eficazes porque o que vêm é apenas a morte física. O impacto visual dos ataques é o maior inimigo do sucesso contraterrorista pelo medo que provoca. E é justamente no medo causado e percecionado que reside o maior perigo do terrorismo: quando massificado, é irracional e rapidamente contagioso. Este medo é o que, por sua vez, alimenta a ideia da suposta inoperância das forças de segurança e gera opiniões fatalistas.

Em última instância e com o nosso aval, caímos na “ditadura do medo” como Galeano designou.
Somos voluntariamente reféns de um pânico, fazendo eco das ideias fundamentalistas, criando barreiras e alimentando estereótipos e antagonismos sem sentido.
O insucesso do terrorismo depende de ti, de nós. De não sermos cativos do propósito último de qualquer terrorista: a tentativa de alterar o quotidiano rotineiro, de mudar formas de pensar, agir e sentir.

A autora adota o Acordo Ortográfico.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Ordem e o Sistema Internacional no tempo da “pós-verdade”





Nos últimos tempos, figuras distintas têm proliferado comentários sobre a natureza e futuro da Ordem e do Sistema Internacional, não raras vezes confundido ambas.

Antes de comentarmos este frenesim de certos personagens, sumarizemos os conceitos falados.

O Sistema Internacional deriva da conceptualização “vitoriosa” do neo-realismo de Kenneth Waltz (1979) que possibilitou uma leitura asséptica e meramente sistémica e estrutural, caracterizando o “espaço” onde os Estados interagem como anárquico, existindo diferenciação com as unidades (estatais) a terem recursos distintos, sobrevivendo numa lógica de auto–ajuda, dada a ausência de um qualquer “112” global.

Já a Ordem Internacional é o conjunto de normas, valores e instituições que possibilitam e balizam o relacionamento inter-estatal e que (de novo, numa visão neo-realista) premeia os cumpridores e pune os infractores, sendo apanágio dos vencedores das grandes guerras ditar a sua consequente composição, o que no caso e dada a vitória dos EUA (associada à perda de estatuto britânica e francesa) ficou marcada pela matiz washingtoniana consubstanciada num padrão democrático-liberal.

Passemos agora ao modo como certas luminárias têm perorado sobre estas temáticas.

Na sua investidura presidencial, Macron não se inibiu e “urbi et orbi” fez saber que a França “necessita recuperar a confiança” pois a Europa e o Mundo precisam dela “forte e segura”, para desempenhar o seu papel “imenso, na correcção de excessos e no velar pela defesa da liberdade”.

Em Pequim, Xi ao promover a “nova rota da seda” rodeado de lideranças mundiais, apelou à rejeição do proteccionismo e ao abraçar da globalização, equiparando as nações a um “bando de gansos que devem confrontar em conjunto tempestades”.

Já António Guterres, secretário-geral da ONU, referiu que o mundo actual “multipolar” necessita de uma governação e instituições igualmente multipolares, alertando e comparando a actual situação mundial à de vésperas da guerra de 14-18.

Tentemos então introduzir factos relevantes para melhor compreender as narrativas das personagens.

64,8% do voto na 1ª volta das presidenciais foi confiado a políticos anti-sistema, onde se inclui o próprio Macron e os radicais Le Pen e Melanchon.
A França tem um sistema económico, político e social irreformável, sendo irrelevante no panorama internacional e quase dependente da importância que Merkel e Schauble lhe queiram atribuir (por questões internas, históricas e políticas alemãs) no panorama europeu.

A China está rodeada por um dispositivo de alianças que os Estados Unidos paulatinamente construíram na região, além de historicamente ter bastante “anti-corpos” pela sua visão imperial de dominação. A tão propalada expansão comercial não passa da necessidade indispensável que Pequim tem de recursos energéticos, de manutenção de mercados abertos para escoar os seus produtos, sendo estes dois critérios axiomáticos para permitir alguma pacificação interna. Adicionalmente, Pequim tem que travar o terrorismo regional que pode encontrar em algumas geografias internas uma base confortável, além de estar, surpreendentemente, associado a Trump para resolver a questiúncula norte-coreana, embora aqui lhe seja favorável a “jogada” do Presidente norte-americana, dada a imprevisibilidade que pode ser introduzida na região.

Quanto a Guterres, parece querer fazer prova de vida pessoal e da sua instituição. A irrelevância que qualquer das potências globais ou regionais atribui à organização e a incapacidade factual de sequer resolver questões menores relembra à saciedade o texto de John Mearsheimer sobre a “falsa promessa” das instituições internacionais que apenas reflectem a distribuição real dos poderes e onde os Estados lêem nada mais que o seu interesse nacional.

Em suma, o senhor Macron diz no Eliseu que a Europa e o Mundo querem e precisam de Paris (não se sabe bem porquê), Xi Jinping faz metáforas poéticas animais com a globalização renovada que se quer conduzida pelo “Império do Meio” e o nosso engenheiro em Nova Iorque faz questão que reparem nele e na sua “alegre casinha”, aludindo a comparações históricas descontextualizadas.

Lamentavelmente, a leitura, quer do Sistema ou da Ordem Internacional, não resistem a nenhum “teste de stress” teórico ou empírico.
As três “imagens” sistémicas e convencionais na disciplina das Relações Internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo) são descendentes de um positivismo científico que não nega o essencial do que é o mundo.
As restantes narrativas da disciplina são díspares, oscilando da aceitação da “Escola Inglesa” até ao quase estatuto de delinquente do pós-modernismo, embora se encontrem na sua maioria em margens residuais académicas.

O mundo, apesar da tentativa de “diabolização” da administração Trump, é pelo menos há três séculos, uma dominação hegemónica “ocidental”.
Relendo Maquiavel, Gramsci e Cox consideram que um Estado dominante consegue fazer ascender e expandir a nível internacional um sistema económico e político, que tem capacidade de atracção, assimilação e naturalização por consenso e se necessário inibe ou constrange pela força os eventuais prevaricadores.

Não são possíveis discernir resistências ao bloco hegemónico “ocidental”, pois económica, militar, cultural e politicamente a conjugação dos vários poderes entre Washington e a União Europeia (apesar das suas vicissitudes) e a interdependência de ambos torna impraticável a obstaculização do modelo internacional liberal.

Macron será o que Merkel quiser, Xi necessita de Trump e da União Europeia e Guterres necessita que o ouçam para continuar a existir.

Antes de lavar as mãos, Pilatos perguntou “o que é a verdade”.
Na época da pós-verdade (construída intelectualmente por reacções anti-positivistas) a “realidade” pode ser encontrada de forma serena na leitura qualificada e conjunta da História, das estatísticas e das narrativas, mesmo que esteja na moda a multiplicação das “verdades” hoje atomizadas ou encenadas para sobrevivência de certos actores políticos.


Links da Semana

China
Relatório da LSE sobre as reformas económicas da China, de Deng a Xi: https://www.lse.ac.uk/IDEAS/publications/reports/pdf/LSE-IDEAS-From-Deng-to-Xi.pdf

França

Islão
Relatório da Carnegie sobre as múltiplas disputa pela autoridade religiosa: http://carnegieendowment.org/files/CP306_Brown_Religious_Institutions_Final_Web.pdf

Israel-Palestina

Porque ainda não foi feita a Paz entre Israel e Palestina, segundo o Guardian: https://www.theguardian.com/world/2017/may/16/the-real-reason-the-israel-palestine-peace-process-always-fails

Para a Economist, Israel precisa de um Estado Palestiniano para reforçar a sua democracia: http://www.economist.com/news/leaders/21722162-more-ever-land-peace-also-means-land-democracy-why-israel-needs-palestinian-state

Populismo
Pranab Bardhan professor de Economia de Berkeley sobre os desafios populistas à ordem liberal: http://bostonreview.net/class-inequality/pranab-bardhan-understanding-populist-challenges-liberal-order

Reino Unido
Manifestos Eleitorais:
Para o Guardian o director do Daily Mail é o homem “mais perigoso” de Inglaterra: https://www.theguardian.com/media/2017/may/14/is-paul-dacre-most-dangerous-man-in-britain-daily-mail?

Rússia

Trump

Administração
Paul Krugman e as propostas económicas de Trump: https://www.nytimes.com/2017/05/15/opinion/trump-tax-cuts-deficit.html
Trump contra o “estado burocrático”: https://harpers.org/archive/2017/06/security-breach/?single=1

Defesa e Política Externa
Stephen Walt analisa a situação no Afeganistão e as acções de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/05/17/whats-the-point-of-donald-trumps-afghan-surge-taliban-afghanistan/
Emma Green na The Atlantic e a prioridade da administração Trump em defender a liberdade religiosa como forma de derrotar o Islão: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/05/religious-freedom-trump-administration/526320/
Os vizinhos da China receiam a perda de credibilidade dos EUA e viram-se para Pequim: https://www.the-american-interest.com/2017/05/16/toward-detente-in-the-south-china-sea/

“Trumpismo”
Não é tirania, é “Trump”, Niall Ferguson:
O PPRI (Public Religion Research Institute) e a The Atlantic analisam as causas da vitória de Trump: questões culturais mais valorizadas que as económicas: https://www.prri.org/research/white-working-class-attitudes-economy-trade-immigration-election-donald-trump/
Artigos sobre a manipulação do eleitorado e a empresa de Robert Mercer, a Cambridge Analytica:

TRI/CP
Robert Kaplan, os EUA num mundo Euroasiático de heranças imperiais:
Joseph Nye e uma resposta ao ensaio de Kaplan: http://stories.cnas.org/an-essay-response-to-marco-polos-world
Klaus Larres (Institute for Advanced Study in Princeton), Donald Trump and America’s Grand Strategy: U.S. foreign policy toward Europe, Russia and China: http://transatlanticrelations.org/wp-content/uploads/2017/05/Larres-Donald-Trump-and-America%E2%80%99s-Grand-Strategy-U.S.-foreign-policy-toward-Europe-Russia-and-China-Global-Policy-May-2017.pdf
Hal Brands e Peter Feaver, Was the Rise of ISIS Inevitable?:
DOI: 10.1080/00396338.2017.1325595
Zbigniew Brzezinski, How To Address Strategic Insecurity In A Turbulent Age:
DOI: 10.1111/npqu.12079 
Hal Brands questiona se o Internacionalismo norte-americano está “morto”?: https://warontherocks.com/2017/05/is-american-internationalism-dead-reading-the-national-mood-in-the-age-of-trump/
Entrevista a Daniel Ziblatt, sobre a importância dos partidos Conservadores para a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2017/05/17/why-liberal-democracy-only-dies-when-conservatives-help

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Cadáver Esquisito da UE







Nos inícios do século passado a trupe dos Surrealistas inaugurou um jogo literário chamado “Cadáver Esquisito” (“cadavre exquis”, no original, que é mais catita) sobre o qual existem diversas historiografias.
Sumarizando, diferentes autores iam completando uma estrutura frásica ou narrativa sem relação de causalidade.

Um exemplo com este magnífico “O Vermelho e o Verde” de João Artur Silva e Mário-Henrique Leiria (in "Antologia do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny (org.), Assírio e Alvim, 1989):

- De que cor é o vermelho?
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.

Isto tudo a propósito da União Europeia (UE) e como a mesma é percepcionada.

Almas caridosas que por aí andam, inteligentes e civilizadas acrescente-se, clamam que a UE está minada e cercada pelo colapso eminente.
No plano “continental”, somam-se crises austeritárias e uma economia em retrocesso, declínio demográfico, indecisões institucionais e políticas, aumento eleitoral dos chamados populismos de Esquerda e Direita e até a “desgraça” da saída do Reino Unido, que como é sabido era amado por gerações de europeístas.
No campo externo, embora próximo, a percepção de supostas ameaças existenciais como o “revisionismo” russo, o “terrorismo islâmico” ou a crise humanitária com milhões de refugiados à porta da Europa.
É o “arco do Caos” que pode ser suplantado com “mais” Europa e mais aprofundamento, premiando cumpridores e punindo infractores.

O outro lado da moeda é adequadamente representado pelo recente artigo do académico de Princeton Andrew Moravcsik, na Foreign Policy, onde se considera a UE como uma superpotência, estatuto esse que o autor indica permanecer para o futuro a médio-longo prazo.
Moravcsik lê a UE como um actor único, face ao seu desempenho global e faz a combinação do poderio económico, militar, educativo, cientifico e cultural “ocidental”, (agregando EUA e UE) evidenciando que de forma conjunta ou apenas interpretando a União como uma entidade única (não soberana) a China demorará no mínimo duas gerações a rivalizar com estes números.
É em suma, a perfeita construção utópica Humanista e Iluminista que apenas consagrará o melhor que há em nós e que só pode ir mais além.

Vislumbramos aqui curiosamente um código binário que se julga sofredor de dissonância cognitiva.

No entanto, quer os primeiros, que chamamos de “liberais pessimistas” quer os segundos, baptizados como “liberais utópicos” alinham num mesmo diapasão, que é a manutenção de uma coerência institucional ao abrigo de um padrão demo-liberal – como reflectido por Francis Fukuyama em “The End of History” – que derrotou  fascismo e comunismo e se apresentou como a conclusão Hegeliana da caminhada humana.

Esta versão ocidental demo-liberal tem contudo protagonizado uma típica forma de Hegemonia, onde Estados Unidos e Europa mantêm paradigmas económicos, políticos e militares.

O Liberalismo hegemónico e expansionista, com a Globalização e o projecto europeu, conseguiu elevar à dignidade social e económica centenas de milhões em pessoas, difundir conhecimento e promover avanços civilizacionais como nunca na História.
Contudo, a ausência das componentes Realista e Conservadora permitiu que a universalização do que se julgam como valores superiores (democracia, capitalismo, internacionalização) possa ser coercivamente imposto, como é o caso lamentável do Médio Oriente alargado, fonte primária dos dramas actuais.

A contestação actual a esta ordenação sistémica assume dois contornos.
Os “radicalismos” que estão fora da esfera do poder (Espanha, França) abarcam discursos populistas, nacionalistas e proteccionistas que clamam ser a “voz do povo puro”.
Já os “autoritarismos” (Rússia, China, Venezuela) regra geral são representados em estados-nação por lideranças personalistas, que mantêm a aparência democrática sob forte aparato securitário e capitalismo estatal.
Qualquer destas propostas não tem potencialidade de atracção ou sequer exerce na actualidade ameaça existencial ao que já convencionámos como “ocidente”.

No entanto, a multidão diverte-se com as peripécias da Coreia do Norte, vilaniza Putin, preocupa-se com a criminalidade organizada a que chama de terrorismo, imagina que o Exército Popular Chinês invada os cafés e as óperas europeias, enquanto que Trump (para tranquilidade do “establishment” diplomático e militar ocidental) mantém as mesmas políticas internacionais, uma por uma, aqui ou ali com ligeiros “upgrades”, depois dos momentos onde se julgava que o multimilionário iria seguir um percurso isolacionista.

Alguns Realistas e qualquer Conservador (criaturas diferentes dos “reaccionários” que vislumbram o Armagedão a cada passo do progresso) alertam há centenas de anos que o expansionismo e universalização de qualquer sistema é contraproducente, além de advertirem que as identidades e as culturas não se apagam em construções utópicas.

Claro que ninguém nos ouve, embora algumas notas de rodapé em livros de História lembrem assim que havia gente com juízo.




Links da Semana


Fenómeno da semana: Stephen Walt escreve no NY Times (!) sobre a diplomacia e a força militar na administração Trump:

Alemanha
Relatório da Transatlantic Academy sobre como melhorar a relação Trump e Merkel: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Suspicious_Minds_Final.pdf

Irão

Israel-Palestina
Aaron David Miller no Wilson Center sobre o novo manifesto do Hamas:
Seth Frantzman no Jerusalem Post: Israel nunca foi “Ocidental”
O projecto chinês da nova “Rota da Seda” pode contribuir para o desenvolvimento económico e estabilidade no Médio Oriente: http://www.jpost.com/Opinion/Chinas-New-Silk-Road-and-the-Middle-East-490157

ONU

Guterres: ONU deve reformar-se e defender valores do Iluminismo:


Populismo

Cas Mudde e o verdadeiro perigo do populismo europeu, a Hungria: http://en.zois-berlin.de/publications/zois-spotlight/the-real-populist-challenge/


Reino Unido

Rússia
Relatório do Valdai sobre as acções de Moscovo face ao futuro incerto da Europa: http://valdaiclub.com/files/14294/
Como Putin alimenta as fraquezas russas tornando-as mitos e forças, Stefan Meister: http://berlinpolicyjournal.com/the-great-russia-myth/

Terrorismo
O Islamismo radical não é uma ameaça existencial ao Ocidente: https://www.vox.com/the-big-idea/2017/5/3/15528360/islam-jihad-sharia-trump-bannon-isis-radical

Trump

Administração
A análise da The Atlantic se a demissão de Comey representa uma crise constitucional:

Defesa e Política Externa
Relatório da RAND por uma nova estratégia no Iraque e na Síria: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1500/RR1562/RAND_RR1562.pdf

“Trumpismo”
A Politico recorda os vários “casos” em que Trump tem estado envolvido: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/05/donald-trump-presidential-scandals/522468/

União Europeia
Jurgen Habermaas sobre o futuro da Europa e da cooperação: https://www.socialeurope.eu/2017/03/pulling-cart-mire-renewed-case-european-solidarity/

TRI/CP
A importância das bibliotecas presidenciais e a futura instituição de Obama: http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/07/presidential-libraries-are-a-scam-could-obama-change-that-215109