terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Uma relação conturbada: A América Latina e os EUA



Trump, o Brasil e a América Latina

Por: Tiago Paulino, Mestrando em RI, FCSH-UNL

A nova administração dos EUA com Donald Trump impõe múltiplas questões internacionais.
Quer seja no âmbito dos direitos humanos, na vertente comercial com a renúncia ao Tratado Transpacífico e uma abordagem económica proteccionista, ou através da adopção de uma visão geoestratégica isolacionista, ou pela “simpatia” por lideranças autoritárias e discursos nacional-populistas da extrema-direita europeia.

No entanto, e apesar dessas questões serem críticas, a área regional pressupõe igualmente um desafio para os EUA.
Aquela que tem sido uma relação incongruente, já assinalável no século anterior, com os Estados mais relevantes da América do Sul (entenda-se Brasil, Argentina, Uruguai e a própria Venezuela) poderá enfrentar um agravamento com o afastamento norte-americano da região, algo que se vem pautando desde a administração de George W. Bush.
Procura-se aqui, de forma breve, relevar as principais questões da relação latino-norte-americana para que seja também exequível compreender as implicações dos pilares da NAFTA.

É essencial destacar que a América do Sul continua a ser considerada o “backyard” norte-americano.
A proeminência desse conceito foi evidenciada durante as presidências de George Bush e Bill Clinton pelos interesses comerciais, económicos e políticos que a região apresentava.
Porém, a “pink tide” que surgiria nos primórdios do século XXI causaria distúrbios na relação entre os dois hemisférios e que juntamente com o atentado do 11 de Setembro de 2001 e a Doutrina Bush no sistema internacional resultou, a posteriori, num crescente afastamento entre as regiões.
Prova disso era a designação da Tríplice Fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai considerada como uma zona particularmente susceptível de sediar terroristas.

Apesar dos sobressaltos diplomáticos, e por iniciativa brasileira, a região manteve as boas relações com os EUA quer através do reactivar do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca quer com a garantia de que o seu maior parceiro comercial – o Brasil – não se extremaria ideologicamente como acontecera em todo o continente.

No entanto, seria a administração Obama em 2009 a retomar à normalidade as relações locais como refere Cristina Pecequilo.
Um dos principais focos de acção da política externa norte-americana centra-se no seu maior aliado regional e o principal líder sul-americano: o Brasil.
Este relacionamento é analisado por uma multiplicidade de autores como uma constante repleta de incongruências e ambiguidades, um “jogo” entre virtudes e desconfianças onde ora se releva como uma parceria estratégica ou um afastamento inexorável.

Esse dilema tem, todavia, raízes históricas uma vez que durante a Segunda Guerra Mundial quando a relação atravessava a sua fase de alinhamento (o que se reflectiria no apoio da presidência Vargas aos Aliados), o Brasil que ambicionava obter o apoio de Washington, rapidamente perceberia que essa esperança não se concretizaria se necessário.
Ainda que o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) tenha apresentado “nuances” várias, entre as presidências de Castelo Branco e Costa e Silva e de Médici e Geisel, a normalidade das relações só seria retomada com Figueiredo e no início do período democrático brasileiro em 1985 com José Sarney.

Por outro lado, foram as presidências de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e de Lula da Silva (2003-2011) com os paradigmas da “autonomia pela integração” e da “autonomia pela diversificação”, que perpetuaram de novo uma posição mista para com os EUA.

A política externa brasileira baseava-se na seguinte acepção: a relação com Washington seria mantida com aspirações de “global player” e “global trader” para os quais as garantias na OMC e na ONU eram necessárias, ainda que Brasília mantivesse a sua autonomia, recusando-se ser um satélite norte-americano.

No entanto, a relação com o Brasil quer para Clinton quer para Bush filho era relevante porque estabelecia a ponte necessária entre as regiões.
A iniciativa da ALCA iniciada durante a Cúpula das Américas em 1994 foi exemplar na vontade de materializar a relação EUA-América do Sul.

Os casos regionais da Argentina, do Uruguai, e da Venezuela são os que criaram maiores divisões no seio da região sul-americana.
Denotando a tónica autonomista do Brasil, a ALCA pretendia uma integração regional alargada entre os EUA e os países da América Latina tal como nos moldes da NAFTA.

Porém, o nascimento nos anos anteriores do Mercado Comum do Sul (Mercosul) no Tratado de Assunção em 1991, que permitia não só um espaço alargado de relações comerciais entre o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai como também o restabelecimento da normalidade das relações argentino-brasileiras que se iniciara em 1990 com Fernando Collor de Mello e Carlos Ménem, dificultaria o processo da ALCA.

Perpetuando fortes desconfianças sobre o papel de liderança que o Brasil se propunha a obter na região, a Argentina e o Uruguai prefeririam durante um longo período de tempo aliar-se aos EUA tal como o México havia feito no quadro da NAFTA, o que implicou um empenho brasileiro não só na sua oposição aos pilares da ALCA que considerava serem prejudiciais para a região, como no robustecimento do Mercosul.

A ALCA, cujo fim das negociações se dá em 2005, nunca conheceria a sua real efectivação fruto de dois momentos em concreto.
O primeiro em 2001 durante a III Cúpula das Américas quando Cardoso referiu que o projecto seria aceite apenas na redução de “barreiras não-tarifárias” e no “acesso a mercados mais dinâmicos”; e o segundo em 2003 durante a 8ª Reunião Ministerial em Miami onde as negociações não solucionavam os desentendimentos entre ambos.
Ambos motivariam o retorno do interesse argentino e uruguaio na região.

Por fim, importa sublinhar que a adesão da Venezuela ao Mercosul em 2005 foi um passo crucial para colocar o regime de Hugo Chávez sob a égide da “responsabilidade” brasileira na região e, consecutivamente, evitar o agravamento das tensões com os EUA.
Observadas as várias dinâmicas da relação EUA-América do Sul a questão que se impõe é saber como a administração Trump se relacionará com o actual líder regional, Michel Temer?

Não se pretende efectuar futurologia, mas entender prospectivamente que a reformulação da NAFTA indicada por Trump introduz questões perniciosas e nevrálgicas na relação com a América Central e do Sul.

Primeiro, os EUA correm o risco de alterar irrevogavelmente um dos maiores pontos de comércio alguma vez criado sob a sua égide, perdendo dois dos seus principais parceiros regionais, o Canadá e o México, ainda que se aguarde o resultado das negociações com Trudeau e Nieto.

Segundo, qualquer iniciativa regional que se procure constituir nos moldes do que fora a ALCA será ainda mais complexa, delicada e frágil de se concretizar pois irá sempre conter as idiossincrasias que impediram o sucesso da ALCA; além de que as exigências proteccionistas de Trump parecem opor-se num primeiro momento à política externa de Temer e Serra.

Terceiro, denota-se a tónica isolacionista de Trump que se correlaciona com um retraimento dos EUA, incendiando o fervor antiamericanista tão presente em uma miríade de facções da América Latina desde Bogotá a Buenos Aires.

Por fim, é presumível que este afastamento norte-americano fortaleça as ambições regionais que o Brasil advoga nas últimas décadas no Mercosul, na Unasul, na CELAC, nas relações Sul-Sul e do Cone Sul, na defesa dos países em desenvolvimento com o qual se tem aliado à Argentina para esse objectivo, ocupando talvez, um paradigma de autonomia quiçá mais assertivo do que outrora o que para já parece ser o rumo de Temer, gerando regionalmente outros dilemas aos vizinhos de sempre.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Armagedão e Links da semana




A insignificância da Ordem

Durante a crise dos mísseis de Cuba em 1962, um dos submarinos soviéticos que monitorizava o bloqueio norte-americano, esteve prestes a atacar com uma ogiva nuclear um contratorpedeiro dos EUA, no que seria o início da Terceira Guerra Mundial.
Dos três oficiais que em conjunto tinham possibilidade de iniciar esse ataque, um recusou-se.
Chamava-se Vassili Arkhipov.

Em Setembro de 1983, o tenente-coronel do exército soviético, Stanislav Petrov não quis comunicar à sua hierarquia o lançamento de seis mísseis nucleares norte-americanos, o que levaria a liderança da URSS a uma retaliação imediata.
Concluiu-se depois que o radar fez uma avaliação errónea.

Meses depois, em Novembro, um exercício da NATO (“Able Archer”) causou no em Moscovo a percepção de que se prepararia um “first strike” sobre o então Pacto de Varsóvia.
Esteve iminente a resposta do Kremlin, e para muitos historiadores da Guerra Fria foi o momento em que de facto mais próximo se esteve do “conflito final” desde o episódio cubano.

Em 1979, uma peça defeituosa que custava menos de um dólar originou por lapso, que nos écrans do NORAD surgissem dezenas de mísseis nucleares a saírem de território russo com destino aos EUA.
Já com o “telefone vermelho” em funcionamento, Moscovo avisou que não tinha iniciado nenhum ataque.

Como se vê, a chamada Ordem Internacional tem contado também com os seus dias de “sorte”.

O sortilégio, tal como a entendemos, é algo que deriva da superstição, que contraria a compreensão racional, e que mesmo a existir não parece obedecer a critérios de intervenção parametrizados ou bafejados pela bondade.

Num conjunto de episódios nefastos que poderiam ter conduzido à destruição de grande parte do Planeta, foram homens normais, avaliações de moralidade ou algum saudável discernimento que impediram o chamado Armagedão.

A Teoria das Relações Internacionais, em particular a escola "Realista", faz-nos saber que essa época era de natureza bipolar (dominada pela “Guerra Fria” entre dois blocos distintos) e tal como estatuído heterogeneamente por Morgenthau, Aron e Waltz, produz rotina e estabilidade, embora encerre em si um enorme potencial destrutivo.

A estrutura, ou se quisermos a “pura teoria” das Relações Internacionais, não constituiria impedimento para alegremente se acabar com o mundo.
A possibilidade latente de aniquilação, seja numa configuração uni, bi ou multipolar, mantém-se.

E demonstra a História que mais importante que qualquer ordem é a boa-vontade e o são juízo dos Homens.
Mesmo numa época em que tal critério parece se esvair em decisões intempestivas, casuísticas e notoriamente adversas a qualquer sentido crítico e mesmo ao que se convencionou chamar de Ordem.







Links da semana



Trump

Trump não é um actor racional, visto por um Realista Ofensivo (Stephen Walt): https://foreignpolicy.com/2017/01/25/americas-new-president-is-not-a-rational-actor

Robert Kagan e o “declínio” da Ordem Internacional Liberal: https://www.brookings.edu/research/the-twilight-of-the-liberal-world-order/

Russell Mead trata o tema da revolta Jacksoniana, a “herança” que chegou ao novo Presidente: https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2017-01-20/jacksonian-revolt

Fukuyama, a democracia Americana e como contrariar o pânico: http://www.politico.com/magazine/story/2017/01/donald-trump-american-democracy-214683

Um académico de Psicologia e Linguística analisa o discurso inaugural: http://www.politico.com/magazine/story/2017/01/science-behind-donald-trump-inaugural-address-214674


Corey Robin compara os discursos inaugurais de Reagan e Trump: http://coreyrobin.com/2017/01/20/trumps-inaugural-address-versus-reagans-inaugural-address/


Um académico que serviu em 3 administrações Republicanas não apoia Trump e explica o porquê:


O Parlamento Europeu reúne avaliações de “Think Tanks” à nova presidência: http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2017/596852/EPRS_BRI(2017)596852_EN.pdf

Dois académicos e ex-Embaixadores com recomendações sobre acções e políticas da nova administração para o Médio Oriente: http://www.washingtoninstitute.org/uploads/Documents/pubs/TP3-GeneralPrinciples.pdf

O programa de Trump. “America First” na Política Externa: https://www.whitehouse.gov/america-first-foreign-policy

Análise de Jessica Matthews na NY Review of Books com base em livrros de Flynn, Cohen e Haass: http://www.nybooks.com/articles/2017/02/09/what-trump-is-throwing-out-the-window/

Simon Reich e o futuro da NATO com o “America First”: https://theconversation.com/natos-future-when-america-comes-first-71671




Uma comparação com a tomada de posse de Andrew Jackson: http://www.newyorker.com/news/news-desk/watching-andrew-jacksons-inauguration


Garton Ash (em português) e o novo mundo do Nacionalismo: http://observador.pt/opiniao/bem-vindos-ao-admiravel-mundo-novo-do-nacionalismo/

O LA Times recorda o significado do “America First”: http://www.latimes.com/politics/la-na-pol-trump-america-first-20170120-story,amp.html

A mensagem inaugural de James Mattis como Secretário de Estado da Defesa:



Paul Pillar e como Trump se pode tornar intervencionista: http://lobelog.com/why-donald-trump-might-become-an-interventionist/


A mudança religiosa que gradualmente se faz sentir nos EUA:


Um artigo indispensavel sobre a ascensão de Trump no GOP e as várias questões que o sistema partidário norte-americano levanta: https://niskanencenter.org/blog/the-party-declines/


As “fake news” não influenciaram os resultados eleitorais: http://www.the-american-interest.com/2017/01/24/study-lands-blow-against-fake-news-panic/

Na Brookings, Daniel Byman identifica 7 assunções da Política Externa da nova administração: https://www.brookings.edu/blog/order-from-chaos/2017/01/23/seven-trump-foreign-policy-assumptions/


Eliot Cohen e 5 razões que deviam contrariar a postura isolacionista de Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/01/bad-arguments-foreign-policy-us-global-leader-role-isolationism-214687

Suzanne Nossel na Foreign Policy destaca o assalto de Trump ao Iluminismo: http://foreignpolicy.com/2017/01/26/donald-trumps-assault-on-the-enlightenment-nea-neh-funding-cuts/

O Partido Republicano entre o risco e a oportunidade, por Peter Berkowitz: http://www.realclearpolitics.com/articles/2017/01/25/trumps_gop_perched_between_risk_and_opportunity_132886.html

Os finlandeses do FIIA comentam as falhas do pensamento de “foreign policy” de Trump: http://www.fiia.fi/assets/publications/Comment3_America_Searching_for_Respect.pdf



Steve Bannon conversou com o NY Times e disse que os “media” se deviam calar: https://www.nytimes.com/2017/01/26/business/media/stephen-bannon-trump-news-media.html

4 estudantes da LSE sobre a ineficácia da “Madman theory” aplicada a Trump: http://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2017/01/26/trumps-foreign-policy-is-unlikely-to-benefit-from-a-madman-advantage/



Rússia

Um magnífico perfil da personalidade politica de Vladimir Putin:


As vulnerabilidades europeias face à Rússia:



Report da Carnegie sobre o regime Russo:


A Rússia de Putin é um Estado Fascista “moderado”: http://www.the-american-interest.com/2017/01/23/putins-russia-a-moderate-fascist-state/



China


Relatório do Governo Chinês sobre as suas actividades espaciais: http://www.scio.gov.cn/zfbps/32832/Document/1537024/1537024.htm

E uma análise do IDSA a esse mesmo relatório: http://www.idsa.in/issuebrief/china-2016-space-white-paper_avlele_060117



Uma análise do “Asia Times” à China como líder desta Ordem Internacional Liberla: http://www.atimes.com/china-leader-global-liberal-order/



Vários


A fundação Obama: https://www.obama.org/

“Global Militarization Index 2016” do BICC: https://www.bicc.de/uploads/tx_bicctools/GMI_2016_e_2016_01_12.pdf


Os Partidos “Piratas” e a sua eventual relevância política: http://www.ecfr.eu/article/commentary_are_pirate_parties_relevant_to_european_politics_7221

The political use of psychiatry: A comparison between totalitarian regimes,

Buoli, Massimiliano; Giannuli, Aldo Sabino, International Journal of Social Psychiatry (Online first):


Entrevista no Valdai com académico Indiano sobre a Estratégia da Índia para se tornar uma “superpotência”: http://valdaiclub.com/multimedia/video/pankaj-kumar-jha-on-india-s-superpower-strategy/

A “Transatlantic Academy” elabora uma análise sobre a necessária postura alemã numa era de incertezas: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Froehlich%20-%20Berlin's%20New%20Pragmatism.pdf


Acompanhamento diário do CFR sobre conflitos globais: http://www.cfr.org/global/global-conflict-tracker/p32137#!/

Índex do “The Economist” sobre a Democracia em 2016, intitulado “a revolta dos deploráveis”: http://www.eiu.com/Handlers/WhitepaperHandler.ashx?fi=Democracy-Index-2016.pdf&mode=wp&campaignid=DemocracyIndex2016

Índex da “Transparency International” sobre percepções de corrupção em 2016: http://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016


10º Índex da Universidade de Pennsylvania sobre “Think Tanks”: http://repository.upenn.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1011&context=think_tanks

12º “Global Risks Report” do World Economic Forum: http://espas.eu/orbis/sites/default/files/generated/document/en/GRR17_Report_web.pdf



Sobre o Holocausto e o perdão, visto por um académico Judeu: https://theconversation.com/exploring-the-complexities-of-forgiveness-71774


O ECFR aborda o Iraque e Líbia no pós-“Estado Islâmico”: http://www.ecfr.eu/publications/summary/after_isis_how_to_win_the_peace_in_iraq_and_libya_7212



Teoria das Relações Internacionais

Os populistas “anti-corrupção” tendem a ser mais corruptos: https://foreignpolicy.com/2017/01/25/anti-corruption-populists-tend-to-be-more-corrupt-report-says/

“Handbook” do ISS, “The EU and the World: players and policies post-Lisbon”: http://www.iss.europa.eu/uploads/media/EU_Handbook.pdf

Conferência da APSA, dedicada a Unipolaridade e a Nova Ordem Mundial, a Setembro de 2016, junta Ikenberry, Walt, David Lake, Nuno Monteiro e Jennifer Lind: https://www.youtube.com/watch?v=-dw2xe95-eg


Teoria Crítica interpreta o mandato do novo POTUS: Donald Trump: A Critical Theory-Perspective on Authoritarian Capitalism, Fuchs, Christian na Communication,

Capitalism & Critique, 15 (1), 1-72, 2017:


Mearsheimer e Bacevich analisam a política dos EUA no Médio Oriente: http://lobelog.com/bacevich-and-mearsheimer-on-u-s-policy-in-the-middle-east/

Estudo da Carnegie sobre a aliança entre os EUA e o Japão no pós-Guerra Fria:



As 8 “grandes” Potências, Walter Russell Mead e Sean Kelley: http://www.the-american-interest.com/2017/01/24/the-eight-great-powers-of-2017/

A LSE disponibiliza de forma gratuita uma colecção de ensaios e pesquisas do “journal” “Cold War History”, dividida em quatro temas: América Latina, a Alemanha, a China e JFK: http://www.lse.ac.uk/IDEAS/Projects/CWSP/journal.aspx

“Paper” do Valdai sobre a incerteza e os desafios da economia mundial: http://valdaiclub.com/files/13054/



Vídeos

Conferência de Richard Haass, na Politics and Prose, sobre o seu novo livro: “A World in Desarray”: https://www.youtube.com/watch?v=zjwv7ZK6iYY


Trump dirige-se aos membros Republicanos do Congresso no “retreat” do GOP em Philadelphia: https://www.youtube.com/watch?v=4X08l2m_fCg

Theresa May no mesmo evento: https://www.youtube.com/watch?v=U_inbYxXAT8

Trump: uma tragédia Americana? Debate na intelligence2 com Anne Applebaum, Ted Maloch (possível embaixador de Trump na EU) entre outros: http://www.intelligencesquared.com/events/trump-an-american-tragedy/

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Um Excepcionalismo perverso



O “Eu” exacerbado de Trump

Por: André Casimiro, Mestrando em RI, FCSH-UNL

O fim da Guerra Fria produziu uma nova ordem, decorrente da vitória de uns e de derrota para outros.
A bipolaridade que opunha soviéticos e norte-americanos, é superada por uma ordenação configurada numa disposição unipolar, liderada pelos EUA, que tem uma transição marcada abruptamente pelo 11 de Setembro de 2001.

Muita da literatura das Relações Internacionais remete-nos para uma aceitação gradual de uma nova ordem, desta feita, multipolar.
Urge relembrar que do ponto de vista das capacidades, recursos e influência persiste o paradigma da unipolaridade, visto que só os Estados Unidos detêm projecção à escala global nas dimensões militares e económicas, acrescendo ainda a dimensão cultural como “guião” orientador de várias sociedades.
Em suma, o “hard power” e “soft power” que sustentaram a “indispensabilidade” dos EUA, como sublinhava Madeleine Albright, mantêm-se inigualavéis.

Sem prejuízo do retraímento estratégico dos mandatos Obama (após a “sobrextensão imperial” de Bush), e de diferentes graus de assertividade e revisionismo russo e chinês, os Estados Unidos conseguem manter ainda uma dinâmica ordenadora, fazendo com que as suas acções (ou omissões) se afigurem como determinantes no comportamento dos outros actores.
Lida a espuma dos dias, importa considerar um aspecto central há muito afastado da vivência democrática.

Falamos do culto da personalidade, que nos remete para as nossas mundividências.
Se considerado inócuo e até ridicularizado na Coreia do Norte, ou um aborrecimento menor e irrelevante à mesa dos “adultos” nas Relações Internacionais como na Polónia e na Hungria, já a Turquia de Erdogan preocupa algo mais, embora civilizacional e geograficamente distante, desde que se mantenha impedida de entrar nesta União Europeia.
Quanto à Rússia de Putin, afigura-se de facto como uma ameaça quase existencial, mais por uma herança da imagética soviética e pelo perfil autoritário e militarista de Putin, embora saibamos que ninguém quisesse morrer pela Crimeia, como ninguém quis morrer por Danzig.

O caso Trump, contudo, coloca-nos o famigerado culto da personalidade no seio da potência ainda hegemónica no panorama internacional, numa narrativa que desde Tocqueville se considera como um arquétipo, uma experiência única na história da Humanidade.

A onda de manifestações e clamor generalizado face ao estilo, acções e “tweets” de Trump demonstram também o quanto estes Estados Unidos são indispensavéis e percepcionados como, de facto, a única potência global, com capacidade de afectar o Planeta, fazendo surgir uma espécie de “cidadania global” que se julga no direito e dever de opinar sobre a actual administração Republicana.

Trump assume-se como o iluminado que melhor interpreta o interesse nacional, o eleito que elevará os EUA ao estatuto de Império avassalador e inigualável, o ideólogo da reversão do mundo da globalização e da entrega ao “seu” povo de tesouros furtados por uma maléfica Washington.
Um verdadeiro Messias.
As ferramentas que compõem este compromisso messiânico são o proteccionismo, o isolacionismo e o populismo, alicerçados numa cartilha xenófoba e misógina, que na “realpolitik” têm um preço elevado.

Depois de Trump poluir o espaço da discussão pública com inúmeros  e constantes “soundbytes”, aguardemos pelas acções e desconhecemos as reacções – estas últimas como fase de processos de acção-reacção que, em cadeia e por acumulado poderão redesenhar uma nova ordem mais próxima do paradigma vestefaliano, mas perigosamente distante de alianças “previsíveis”, assim mais propensa a cenários vividos na primeira metade do século XX.

Em teoria, nada disto é inovador – a ordem internacional é e sempre será anárquica, um permanente estado de potencial guerra, apenas constrangido pela incapacidade do soberano em testar a todo o momento um estado permanente de guerra.
Mas aparentemente, e lendo atentamente o discurso inaugural de Trump, o verdadeiro “excepcionalismo” americano morreu nos moldes em que seduziu grande parte do globo.

Nasce assim um “excepcionalismo” perverso, industriado num culto da personalidade narcíssico, no coração de uma pátria forjada por uma pluralidade de fundadores que sempre temeram a acumulação de poderes perniciosos.
Recordando Hobbes, resta saber se Trump será o lobo de outros homens ou o lobo de si mesmo.