quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

De Bruxelas com "amor"; ONU dos autoritários; Cavaco e as 5ªs e Links da Semana



Agradeçam a Bruxelas

Como disse há dias Jaime Gama no Observador (“Conversas à Quinta”), todos os actuais partidos eurocépticos e/ou nacionais-populistas tiveram a sua montra política no Parlamento Europeu (PE).
Com as várias “extremas-esquerdas” que ora pululam por aí, sucedeu igual fenómeno.
Fazendo as contas, estes dois blocos totalizam cerca de 200 deputados em 751, cerca de 27% do número de representantes no PE.
Mas foquemos a nossa atenção na ala “direita” que inclui os mencionados eurocépticos e nacionais-populistas.

Este ano existem eleições na Alemanha, Holanda e França, onde se tentará navegar a onda criada pelo “Brexit” e pela vitória da “hubris” de Trump.
Importante é perceber o que une a FN de Marine e antes de Jean-Marie, o PVV de Wilders, o UKIP de Farage, a AfD agora da senhora Petry, o VM belga, o FPO austríaco e a Liga Norte italiana, no meio de tanta idiossincrasia que a academia tem demonstrado à saciedade.

Fosse pela inserção em sistemas eleitorais que não favoreciam a sua representação ou por um extremismo que só se diluiria com a saída da primeira geração de líderes, nenhuma destas forças teve experiência governativa antes de conseguir os seus delegados europeus (a excepção que confirma a regra foi a breve coligação do FPO com os socialistas austríacos em 1983, época em que era uma agremiação de matiz liberal, nas vésperas de ser tomado por Jorg Haider).

O verdadeiro “Cavalo de Tróia” ao que se classifica de “projecto europeu”, não reside na construção burocrática de Bruxelas, no aborrecimento da constante eurofobia inglesa, na presunção de “grandeuse” francesa ou na indecisão alemã, menos ainda na calanzice da Europa do Sul.

Não é raro nas famigeradas redes sociais encontrarem-se vídeos com arengas do senhor Farage ou alfinetadas cirúrgicas da senhora Le Pen dirigidas aos civilizados membros que englobam o “centro” político que tem arrastado esta Europa na hesitação constante.
Enquanto desancam e apontam o dedo a Bruxelas as criaturas são ainda subvencionadas para tal, com notas de Euro assinadas por Mario Draghi.

A inabilidade e incerteza dos poderes europeus face às questões Fiscais e Orçamentais, ou sobre as políticas Externa e de Defesa tenderá a agravar-se.

Esta Europa está cercada.

Internamente, por lideranças frágeis e ausentes de um projecto “de facto”, num ambiente de estagnação económica, invernia demográfica e ameaças humanitárias e securitárias.
A leste, pela pressão russa, que apela à necessidade de tarde ou cedo encontrar resposta às questiúnculas originadas por Moscovo, seja no plano económico e dos recursos energéticos ou na interferência assimétrica protagonizada (com sucesso) por Putin.
A ocidente, pela perspectiva de uma Presidência Trump, que fará exigências num jogo de “soma zero”, onde só se antevê (para Washington) a possibilidade dos EUA ganharem.
No resto do planeta, por uma China que mina as capitais financeiras e os circuitos comerciais.

Esta Europa, além de estar cercada, é um feudo de irresolúveis questões históricas e civilizacionais dentro de um quadro institucional fragmentado, que as diferenças competitivas e económicas ancestrais fizeram questão de dizer presente, face a sonhos estéreis de uniformização, sem qualquer mecanismo real que o proporcionasse.

É todo este lastro que une as criaturas pouco recomendáveis que se preparam para assaltar democraticamente o poder.
A perversão do voto levará às chancelarias aqueles que a democracia mais abomina.
Quando esta turba estiver no poder, e é bom que nos preparemos para isso, agradeçam a Bruxelas.
Foi esta Europa, irresponsável, utópica e falida que os uniu.

 
O futuro fórum Autoritário

No Conselho de Segurança da ONU existem 5 países com assento permanente e 10 temporários, sendo estes insignificantes e que se comprazem em rodar geograficamente para comprovar a sua inexistência ao mundo.

Os 5 que decidem o que se passa neste planeta são os EUA, a China, a Rússia, a França e a Inglaterra.
Evidenciem-se a irrelevância francesa e inglesa, o constante bloqueio russo, a defesa cínica de um “status quo” (com agenda própria de longo prazo) chinês e a actual indecisão em matéria de política externa norte-americana.

A ONU, como prevista em 1942 pretendia ser uma “Liga das Nações” efectiva, que incluísse os “vencedores” da Segunda Guerra Mundial e desenhasse uma ordem internacional estável, assente nos valores demo-liberais que em conjunto (esquecendo as centenas de milhares que Estaline matou entre 1934 e 1939) permitiram a oposição vitoriosa ao nazi-fascismo.

A configuração do Conselho de Segurança trouxe de imediato as primeiras dissensões entre os Aliados, provocadas pelos distintos interesses nacionais e consolidação de zonas de influência.
Esta divisão verificou-se ao longo dos anos com o “poder de veto” que incrementou uma verdadeira visão “ultra-realista” no que se pretendia uma instituição liberal.
Vários têm sido os projectos de reforma deste órgão, e como é sabido, nenhum resultado prático.

Historicamente, o eixo liberal e cosmopolita integrou EUA, Inglaterra e França e o lado autoritário e “socialista” fazia-se representar pela URSS e China.
Com a queda do Muro de Berlim, o colapso soviético e o fim da bipolaridade, uma fragilizada Rússia tenta lamber as suas feridas geoestratégicas e com a afirmação de Putin ingressa numa vertente nacionalista.
Com o tempo o campo socialista (que nunca prescindiu do seu realismo estratégico) é substituído por um campo nacionalista e autoritário.

Mearsheimer tem razão quando menciona que as instituições internacionais têm um potencial marginal, que mais não fazem do que reproduzir a distribuição de poder factual do Sistema Internacional.
A Inglaterra desapareceu do plano mundial em 1956 com a crise do Suez e a França entre 1955 (Vietname) e 1962 (Argélia) percebeu o mesmo destino.
Ambos os países têm arsenal nuclear, mas projecção de poder insuficiente, além de economias incluídas num teatro europeu débil e crises sociais internas.

Se a senhora Le Pen ganhar as eleições em França (agora ou daqui a 7 anos) e com uma Inglaterra a necessitar de se aproximar de Trump, é plausível que a totalidade dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas partilhem pela primeira vez uma mesma visão.

O que foi durante sete décadas uma ordem internacional cosmopolita e liberal, será em breve um campo nacionalista, populista e autoritário, com estilos diferentes, consoante o enquadramento regional e a herança histórica do respectivo estado-nação.

Na recente Conferência de Segurança de Munique, Lavrov e Javad Zarif, MNE´s russo e iraniano anunciaram o alvor de uma “ordem internacional pós-ocidental”.

Não é tanto a queda do sistema de Westefália (fenómeno regra geral mal compreendido nas suas causas e consequências) que está em causa, mas antes o reconhecimento que a História não caminha de forma linear e optimista, para gáudio e salvação do Homem abstracto.

O engenheiro Guterres que certo dia se foi embora por causa do pântano da marquise em que vivemos, deve amaldiçoar o dia em que escolheu este período de pesadelo global.

 
Nota de rodapé

O livro do ex-presidente é um longo, profundo e dilacerante marco da sua irrelevância e um atestado de completo desfasamento para com a realidade.

Quando podia falar, não o fez.
Ignorou o importante, concentrando-se na pessoa que tinha à sua frente (Sócrates) e não no país.
Quando devia estar em silêncio, falou. E mal.
Deu assomos de ultraje a picuinhices e repetia ao espelho a sua destreza para com a ciência económica.

Agora, parece um amante enjeitado tentando justificar um divórcio repleto de agruras, no meio de um dilúvio que foi apenas a tragédia da Pátria.
É lamentável para qualquer pessoa, é penoso para um ex-Presidente.

 


Links da semana

Afeganistão
Workshop do PE sobre "Afghanistan - Challenges and Perspectives until 2020" em Bruxelas em Novembro 2016:

Alemanha
Report da Brookings que analisa as constantes dúvidas existenciais da diplomacia e do “poder” alemão: https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2017/02/berlins-foreign-policy-drama.pdf

China
O declínio económico chinês e as consequências globais: https://www.project-syndicate.org/onpoint/china-s-growth-odyssey-2017-02

Coreia do Norte
Relatório do Wilson Center sobre o desenvolvimento do arsenal nuclear da Coreia do Norte e implicações politicas actuais: https://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/preventing_north_koreas_nuclear_breakout.pdf

Europa
Na LSE, a “política de estado” é compatível com o populismo?: http://blogs.lse.ac.uk/politicsandpolicy/are-political-statecraft-and-populism-compatible/
O MNE italiano e o IAI lançam uma iniciativa sobre ““EU60: Re-Founding Europe. The Responsibility to Propose”. Os dois primeiros estudos sobre o tema das reformas necessárias na UE:
http://www.iai.it/sites/default/files/eu60_4.pdf (The Future of a More Differentiated E(M)U – Necessities, Options, Choices)
http://www.iai.it/sites/default/files/eu60_3.pdf (The EU's Existential Threat: Demands for Flexibility in an EU Based on Rules)
Brief do GMF: o que significa para a Europa o “America First” no proteccionismo económico: http://www.gmfus.org/file/9603/download

Israel-Palestina
Aaron David Miller sobre as consequências do encontro Trump-Nethanyau para o processo negocial Israel-Palestiniano:  http://edition.cnn.com/2017/02/16/opinions/trump-israeli-palestinian-departure-miller
A ocupação israelita da Palestina condiciona a democracia americana: http://lobelog.com/israeli-occupation-is-poisoning-americas-democracy/

Globalização
Niall Fergusson e a “rede” estrutural “global” à beira do colapso:

Relatório do Banco Mundial sobre a incerteza que paira no comércio global e eventuais consequências: http://documents.worldbank.org/curated/en/228941487594148537/pdf/112930-REVISED-PUBLIC.pdf

Bill Gates, Stephen Hawking e Elon Musk sobre os perigos da “robotização/automação” na economia: https://medium.freecodecamp.com/bill-gates-and-elon-musk-just-warned-us-about-the-one-thing-politicians-are-too-scared-to-talk-8db9815fd398#.kkyeve8ob

Nazismo

Recensão na NY Review of Books sobre “Blitzed: Drugs in the Third Reich” que aborda a prevalência das drogas em todas as camadas sociais no regime Nazi: http://www.nybooks.com/articles/2017/03/09/blitzed-very-drugged-nazis/


“Populismo”
Cas Mudde, depois de Trump e do Brexit, Orban lidera uma revolta populista na Europa: https://news.vice.com/story/trumps-victory-and-brexit-have-emboldened-hungarys-prime-minister-to-lead-a-populist-revolt-in-europe
O Humor pode ajudar a derrotar ditadores: http://philosophyandculture.berggruen.org/ideas/38
Philip Zimbardo recorda a experiência de Stanford: http://nautil.us/issue/45/power/the-man-who-played-with-absolute-power
A análise do Southern Poverty Law Center sobre o extremismo em 2016 nos EUA: https://www.splcenter.org/fighting-hate/intelligence-report/2017/year-hate-and-extremism

Portugal

Psicologia Política

Rússia

Perceber as razões de Putin face ao “Ocidente”: https://www.baks.bund.de/sites/baks010/files/working_paper_2017_07.pdf

7 teorias sobre o “verdadeiro” Putin, de génio a assassino: https://www.theguardian.com/world/2017/feb/22/vladimir-putin-killer-genius-kleptocrat-spy-myths

Terrorismo
Estudo do ISCR sobre a doutrina da guerra informativa/comunicacional do ISIS: a propaganda é “mais importante” que a bomba atómica: http://icsr.info/wp-content/uploads/2017/02/Media-jihad_web.pdf
Relatório do DIIS sobre o “perigo das contra-narrativas” no combate ao terrorismo e propaganda radical islamita online: http://pure.diis.dk/ws/files/784884/DIIS_RP_2017_1.pdf

Os “terroristas” adolescentes do ISIS: https://www.ctc.usma.edu/posts/the-islamic-states-western-teenage-plotters

Pesquisa académica sobre as ameaças terroristas nos EUA (os nºs demonstram que a extrema-direita é mais violenta e “presente” que o terrorismo islamista): https://theconversation.com/threats-of-violent-islamist-and-far-right-extremism-what-does-the-research-say-72781

Trump
Os “problemas” históricos dos EUA com a imigração: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/02/donald-trump-immigration/517119/
2 artigos (“The Atlantic” e “The Nation”)com académicos que dissecam o conceito de “deep state” turco e analisam eventuais comparações com situação nos EUA:
Robert Reich e o fracasso da “trumponomics”, o exemplo do “Dreamliner” da Boeing:
Brzezinski e Wasserman no NY Times: a “necessidade” de ser estipulada uma doutrina Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/20/opinion/why-the-world-needs-a-trump-doctrine.html
Paul Krugman e as incorrecções das previsões económicas de Trump:
John Kasich e a erosão das alianças dos EUA num momento definidor da ordem internacional: http://www.worldaffairsjournal.org/content/opinion-greatest-threat-security-wwii
No NY Times, Roger Cohen sobre a “russificação” da América: https://www.nytimes.com/2017/02/21/opinion/the-russification-of-america.html
Ezra Klein na Vox sobre a incompetencia de Trump que alimenta o seu iliberalismo: http://www.vox.com/policy-and-politics/2017/2/22/14658062/donald-trump-illiberalism-losing
A ocupação israelita da Palestina condiciona a democracia americana: http://lobelog.com/israeli-occupation-is-poisoning-americas-democracy/
Stewart Patrick na Foreign Affairs sobre Trump e a Ordem mundial: https://www.foreignaffairs.com/articles/world/2017-02-13/trump-and-world-order
“Fahrenheit 451” adequa-se melhor aos dias de Trump do que o “1984” de Orwell: http://www.spiked-online.com/newsite/article/fahrenheit-451-is-a-better-guide-than-1984/
Foucault, a guerra dos 30 anos e ensinamentos sobre Trump:
Edward Luce no FT, os EUA terão que escolher entre Trump e a Constituição: https://www.ft.com/content/bc99e5d8-f526-11e6-95ee-f14e55513608
A “Personalidade Autoritária” como ameaça à democracia?: https://theconversation.com/trumps-america-and-the-rise-of-the-authoritarian-personality-72770
Trump e a ausência de qualquer politica externa, por Jon Finner, ex-chefe de gabinete de John Kerry: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/trump-has-no-foreign-policy-214797

O novo NSA de Trump tomou posições em vários assuntos que demonstram como poderá vir a discordar de Trump: https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2017/02/22/trumps-new-national-security-adviser-disagrees-a-lot-with-trump

Trump não é o primeiro Presidente a fazer “comícios” depois de pouco tempo: https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2017/02/21/trump-isnt-campaigning-any-sooner-than-other-recent-presidents

O Conservadorismo deixou de existir nos EUA. A futura CPAC comprova-o: https://www.washingtonpost.com/opinions/at-cpac-conservatism-betrayed/2017/02/21/3c388ddc-f881-11e6-9845-576c69081518_story.html

Thomas Friedman sobre as 5 “administrações” no interior da administração Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/22/opinion/meet-the-5-trump-administrations.html

Videos
No Hudson Institute, Walter Russell Mead, Eliot Cohen, Hal Brands e Charles Edel debatem “Grand Strategy and President Trump”: https://www.youtube.com/watch?v=lHSm9DyG6SA

Relatório do Valdai sobre a “revolta global” na “ordem global”: http://valdaiclub.com/files/13306/

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Titanic de Trump


Um Presidente paranóico.

Depois de “aceitar” a demissão do seu “National Security Adviser” Mike Flynn, Trump afirmou ser “muito injusta a forma como o militar foi tratado” pela imprensa.
Para o Presidente as fugas de informação ("ilegais") que conduziram à saída de Flynn são o principal assunto, e a responsabilidade cabe às “fake news” que assolam a comunicação social liberal e progressista.
 
Esqueçamos pois as trapalhadas com os processos de audição repletos de situações confrangedoras para vários membros da equipa de Trump, a postura conflituosa face a países como o Irão ou o México, o volte-face em situações delicadas como o reconhecimento da política “One China” ou o compromisso com a OTAN, a possível nomeação para a UE de um embaixador que profetiza o fim do projecto europeu, a confrontação com o poder judicial devido a legislação inconstitucional e uma administração com múltiplas polaridades e lutas intestinas pelo poder.

Dispensemos de elencar nesta lista mais séria, as delirantes respostas que Trump fornece ao mundo sobre tudo o que lhe apraz, ou as supostas conferências de imprensa realizadas pelo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, que ultrapassa o célebre ministro da informação de Saddam pelo lado da comédia, parecendo querer rivalizar com Goebbels no campo da manipulação insidiosa.

Escrevia há dias Daniel Kato ainda não ser claro se Trump é fascista, um demagogo populista, alguém que tenta ampliar uma “presidência imperial” ou um simples idiota com um estratega (Steve Bannon) “malvado”.

Lamentavelmente, a sequência de disparates recente parece fazer-nos esquecer toda a série de peripécias, incoerências e cabotinices que Trump tem vindo a desempenhar desde as Primárias do GOP, numa época em que sorríamos com as suas momices, enquanto prevíamos que a criatura cairia derrotada pelo “establishment” republicano.

Nem isso sucedeu, nem a senhora Clinton foi capaz de fazer o que até o “Rato Mickey” conseguiria, como disse certo dia Maria José Nogueira Pinto, ou seja, ganhar eleições a uma luminária saída da sarjeta da “reality TV”, com um imenso negócio consolidado na trapaça e na divida, e uma personalidade crónica e comprovadamente sexista, xenófoba e mal-criada.

Contudo, para grandes males grandes remédios, e nada como um sistema eleitoral anacrónico, criado de forma desigual e alvo de frequentes manipulações políticas e partidárias permitir a eleição de Trump por 100 mil votos em três estados chave, oferecendo às cinzas da História a sua derrota na votação popular nacional por quase três milhões de votos.

Menos de um mês depois da sua tomada de posse, a presidência de Trump parece um estilhaçar de confusão, ignorância, prepotência e vazio.

Confusão porque no 1600 da Pennsylvannia Avenue, o poder ainda cheira a fresco e reúne legisladores republicanos que necessitam de ser reeleitos, “ultras” oriundos da “alt-right” de Bannon e Miller, uma quota parte do “establishment” representado pelo Vice-Presidente Pence e o chefe de gabinete de Trump, Rience Priebus, facções militares que integram os “falcões” habituais do Pentágono e que sonham com o recrudescimento do “complexo militar-industrial” e até o genro, Jared Kushner, que (arrepiemo-nos) é o predestinado a conseguir a paz duradoura no Médio Oriente.

Ignorância verificada a cada medida que produz alçapões regulamentares, seja na Habitação, Educação, Segurança Interna, Segurança Social, Saúde, Justiça ou Comércio, comprovando a inabilidade e dificuldade de captação de gente séria, habilitada e capaz para preencher os lugares medianos da estrutura governativa.

Prepotência com a responsabilidade dos fracassos ou dos “inconseguimentos” a repousar sempre na figura do “outro”, sejam os “bad hombres” do outro lado da fronteira, as notícias maldosas assentes na verdade (essa meretriz), os refugos dos mandatos Obama, Hollywood, ou o bode expiatório preferido da narrativa redundante e pleonástica trumpiana: “o terrorismo radical islâmico”.

Vazio, porque a figura do “Commander-in-chief” deve ser, além de eticamente irrepreensível, um símbolo de ponderação e pundonor, e qualquer destes atributos é algo que a criação não atribuiu a Trump na sua génese.

Richard Nixon deixou-se embrenhar em casos devido a uma sensação de paranóia que o corroía, fazendo-o desconfiar de qualquer sombra na Casa Branca, a certa altura do seu 2º mandato.

Por isso, o seu comité de reeleição (“CREEP”) e a equipa de inteligência paralela e oficiosa que lhe estava anexa, criou uma unidade (“canalizadores”) que invadiu escritórios de políticos e jornalistas, e colocava em circulação “fake news” de forma a denegrir qualquer obstáculo pessoal ou institucional que Nixon considerasse existir ao seu exercício do poder.

Um caso nunca devidamente esclarecido (“Watergate”) afundou o Titanic em que Nixon navegava, obrigando o presidente a resignar para não ser afastado.

O também republicano, tinha duas mais-valias diferenciadoras face a Trump: era inteligente e leitor de História.

Capaz de sórdidas manipulações (como a sabotagem da negociação do processo de paz do Vietname em 1968) Nixon sabia que o poder absoluto pode e deve ser exercido numa democracia, sendo que a recompensa é a reeleição e a imortalidade nos livros, e a derrota é a maldição, com o consequente afastamento e exílio para onde a memória não apareça.

Trump oferece-nos dois problemas.

O primeiro, estrutural, passa pela simples assunção de que não respeita a democracia, despreza os mecanismos institucionais, o diálogo de compromisso, os procedimentos legais ou figuras como a cooperação e a estabilidade internacional, por mais interpretações que possam existir.

Um segundo, de cariz individual, que nos reporta ao facto de Trump nunca reconhecer em si qualquer falha, omissão ou pecado. A sua arrogância paranóica impede-o de conceber tal.

Se Nixon abandonou e se confinou à sua “ilha de Santa Helena”, Trump quando nos deixar, fará questão de não ir sozinho, mesmo que leve parte do mundo com ele.
Comparado com isto, qualquer conluio com Putin, é uma picuinhice com a relevância de um grão.



Links da semana



Report da Conferência de Segurança de Munique: "Post-Truth, Post-West, Post-Order?": http://report2017.securityconference.de/



Trump

Na Foreign Policy: Quer Trump uma ordem internacional como no século 19?: http://foreignpolicy.com/2017/02/09/does-trump-want-a-19th-century-world-order/






Paul Krugman, o vácuo intelectual da liderança Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/ignorance-is-strength.html



São os países que os americanos pensam ser seus “amigos”, realmente “amigos”?:



Kenneth Rogoff sobre o facto dos EUA não ganharem uma guerra comercial com a China: https://www.project-syndicate.org/commentary/trump-trade-war-china-by-kenneth-rogoff-2017-02



John McCain fala de Vladimir Kara-Murza, diz que os EUA devem apoiar os dissidentes russos e acusa Putin de ser um “criminoso autoritário”: http://www.usatoday.com/story/opinion/2017/02/13/trump-gets-it-wrong-on-putin-russia-moral-equals-john-mccain-column/97822770/

Michael Fuchs, ex-membro da administração Obama sobre a política externa imprevisível (se existente) de Trump: http://democracyjournal.org/arguments/trumps-doctrine-of-unpredictability/

Bob Corker, presidente da comissão do Senado sobre Política Externa, e a presidência de Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/bob-corker-committee-foreign-relations-trump-214773


No Brookings escreve-se sobre as consequências na divisão demográfica e politica dos EUA face às acções de Trump: https://www.brookings.edu/opinions/trumps-early-actions-will-widen-americas-political-demographic-divide

No NY Times Profissionais de saúde mental avisam que Trump é incapaz: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/mental-health-professionals-warn-about-trump.html?_r=0

Richard Evans sobre a “verdade”:


Brief da ESPC (Comissão Europeia) sobre a presidência Trump e “cenários e implicaçoes para a Europa”: https://ec.europa.eu/epsc/sites/epsc/files/epsc-brief-the-trump-presidency.pdf



O muro entre o Bangladesh e a India, lições para Trump: http://thediplomat.com/2017/02/the-india-bangladesh-wall-lessons-for-trump/

Mark Galleoti sobre a noticia do NY Times que liga a administração Trump ao Kremlin: https://inmoscowsshadows.wordpress.com/2017/02/15/the-nyt-story-on-trump-associates-and-russian-spooks-some-questions/

David Rothkopf na Foreign Policy e as múltiplas e sucessivas crises de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/02/14/the-fog-of-trump

As “teorias conspiratórias” são mais aceites pelos liberais desde as eleições:




Europa

Encomendado pelo MNE holandês, um estudo do CEPS sobre a politica europeia de vizinhança (PEV): https://www.ceps.eu/publications/assessing-european-neighbourhood-policy-perspectives-literature




Islão

O nº23 do POMEPS sobre “os novos Media Islâmicos”: https://pomeps.org/wp-content/uploads/2017/02/POMEPS_Studies_23_Media_Web.pdf



Israel

A Israel Iliberal, por Shlomo Ben-Ami, ex MNE israelita: https://www.aspistrategist.org.au/illiberal-israel/



“Extrema-direita”/Populismo

Relatório do DEMOS sobre a presença ou ausência da “direita radical populista” em 6 países (França, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Polónia, Suécia): https://www.demos.co.uk/wp-content/uploads/2017/02/Demos-Nothing-To-Fear-But-Fear-Itself.pdf




Análise de política comparada sobre o sucesso de diferentes partidos nacionalistas europeus: http://blogs.lse.ac.uk/europpblog/2017/02/10/europe-new-nationalism/





Vídeos

Debate na Carnegie sobre a “Revolta Populista”, com Ian Bremmer, Roger Cohen e Pippa Norris




Rússia

Na Politico, como a Rússia se tornou a líder da “religious right” à escala global: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/how-russia-became-a-leader-of-the-worldwide-christian-right-214755

O “pivot” filipino para com a Rússia: http://www.worldaffairsjournal.org/content/dutertes-pivot-putin

“Handbook of Russian Information Warfare” do NATO Defense College: http://www.ndc.nato.int/download/downloads.php?icode=506

Para Ivan Krastev e Stephen Holmes, Putin já não é o único “imprevisível” e Moscovo não gosta: http://foreignpolicy.com/2017/02/13/the-kremlin-is-starting-to-worry-about-trump


Relatório da conferência do RUSI sobre “Is the West Thinking Strategically




Rússia-China

“Chaillot paper” do ISS, Rússia e China uma nova parceria oriental?: http://www.iss.europa.eu/uploads/media/CP_140_Russia_China.pdf



Rússia-Turquia




EUA-Rússia

Relatório da Carnegie sobre 25 anos de relações dos EUA com a Rússia, Ucrânia e Eurásia: http://carnegieendowment.org/files/CP_300_Rumer_Sokolsky_Weiss_Task_Force_Final_Web.pdf

Entrevista (em áudio, com resumo escrito) com o ex-embaixador EUA na Rússia: http://www.wbur.org/onpoint/2017/02/09/mcfaul-trump-putin-russia



EUA-Canadá




Europa-Rússia

Relatório do PE sobre o conceito estratégico de Defesa russo e implicações para com a Europa: http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2017/578016/EXPO_IDA(2017)578016_EN.pdf



Alemanha




Ciberataques




Ambiente