14 pontos do Mundo do avesso
Trump,
de uma penada, e num discurso mais radical do que qualquer outro efectuado na
sua campanha, estatui que a Democracia norte-americana é substituída por uma
Presidência Imperial.
Convém
aqui de forma sistemática, analisarmos as implicações internas e externas da
administração que ontem se inaugurou, num contexto histórico de longa duração.
Antes
disso, realcemos que qualquer líder eleito democraticamente tem legitimidade
para produzir as suas políticas de acordo com o programa que apresenta. Por
mais que custe à inteligência mediana, bem-formada e educada, Trump ganhou e
merece governar. Seja Trump, seja qualquer outra ideologia, sim qualquer outra
ideologia ou personalidade. O processo democrático não se pode dar ao luxo de
escolher “uma elite”, “uma classe” ou “uma vanguarda”.
Convém
igualmente referir que o protesto é essencial como mecanismo de refrear,
incomodar ou meramente não aceitar as escolhas ou legitimidades, algo que as
instituições ou novas eleições se devem preocupar em aparar, dirimir ou
resolver.
Assim,
vejamos:
1. Em
termos teóricos (no campo das Relações Internacionais e da Ciência Política) e
em termos práticos (verificando qualquer Índex quantitativo criterioso e sério)
os EUA são a única potência que tem poder de influência à escala global. Mesmo
com um certo retraimento projectado e assumido por Obama, só os EUA têm interesses
em qualquer ponto do planeta, sendo por isso uma espécie de “hiper-potência”
como lhe chamou o então MNE francês, Hubert Védrine, ou nas palavras de John
Mearsheimer, um verdadeiro “hegemon”.
2. Não
há rival económico ou militar para os EUA.
A
China decai economicamente e consegue apenas projectar o seu relativo poderio
militar na sua zona de influência. A Rússia tem uma notória decadência
demográfica, económica e umas forças armadas preparadas para meras actuações
“híbridas” e circunstanciadas geograficamente. Quanto à Europa, encontra-se económica,
social, demográfica e politicamente esgotada e em convulsões várias, sem projecto
nem liderança, com uma Alemanha que se nega assumir seja o que for, uma França
que não pode assumir nada e uma Inglaterra que não sabe para onde vai, só sabe
que não vai por ali.
3. Estas
assunções, não ignoram claro o facto de muitos falarem do novel mundo
multipolar, até por alguns sinais declinistas apresentados por Obama, ou
algumas falhas a que um “hegemon” não
pode de facto, permitir-se, como na Síria.
A
China tem uma economia global, a Rússia tem recursos de “intelligence” que podem influir e impactar externamente, e a
Europa é ainda o destino mais ambicionado por muitos que sofrem em paragens repletas
de conflitos e miséria.
4. Aquilo
a que se convencionou chamar o “Ocidente”, os EUA, em conjunto com a Europa
Ocidental estabeleceram desde o século 19 um corolário onde as liberdades
individuais e económicas, com “nuances”
e contextualizações históricas, são entendidas como marcos indissociáveis de um
caminho de progresso Humano (não um “progresso” utópico-radical e teleológico
antes um desenvolvimento gradual que proporcione consensos civilizacionais e
universais, atendendo à diferença) e que se considera como um processo de longa
duração, recentemente designado de Ordem Internacional Liberal.
5. Claro
que em três séculos desta ordenação, existem situações como o seu “eurocentrismo”,
que permitiu a marginalização do “Sul”, do “Leste” e de outras “periferias”,
uma ambição economicista e monetarista que vê na política um incómodo de
legitimidade, a preferência por uma crescente tecnocracia e especialização que
afastam o escrutínio mais directo das actividades legislativa e executiva, e um
processo de Globalização e desregulamentação transfronteiriça que aposta em
abrir mercados de forma célere, não conseguindo o mesmo em assuntos que a
ciência comprovou à saciedade afectar qualquer um de nós.
6. Foi
contudo esta ordem, nomeadamente após a Segunda Guerra Mundial, que permitiu na
Europa o maior período de paz e prosperidade, tirou centenas de milhões da
miséria absoluta na Ásia, e permite um desenvolvimento lento, mas gradual em
África.
Não
esqueçamos que desde o início do século 20, os projectos totalitários foram
derrotados, a custo de milhões de vítimas.
Quer
a Alemanha Imperial, o Nazi-Fascismo ou o Comunismo soviético, tinham uma
construção ideológica que não permitia espaço à dissensão, à existência de
certos grupos, e que propunham uma cosmovisão baseada num “Homem novo” suportado
no Estado ou no Partido, mesmo que para isso exercitassem a politica da terra
queimada, como o fizeram Hitler ou Estaline.
A
chamada Ordem Internacional Liberal não foi, como já vimos, uma virginal
edificação. Suportou ditaduras e paulatinamente chegou ao Consenso de
Washington, cuja radicalização permitiria as crises económicas e financeiras do
novo século.
7.
Percebamos agora que a Globalização baseada em mercados distantes da política e
de qualquer “accountability”, a
erosão dos consensos partidários “centristas”, uma mediatização extremada por
novas ferramentas tecnológicas que radicalizam e exacerbam o “eu”, o surgimento
de uma precariedade laboral inaudita, o advento de um terrorismo religioso
apoiado em pretensões anti-modernistas mas disponíveis no computador de cada
um, são causas e motivos que em menos de uma década aceleraram o processo
histórico.
8. Esta
convergência gradual de circunstâncias reuniu os derrotados e marginalizados,
os saturados e os pobres. No olho de uma tempestade perfeita, encontramos os
que não se revêem em políticas e políticos que dominam há décadas o “mainstream” e impõem as suas narrativas,
e os que sentem em geografias variáveis a imposição forçada de um modelo de
sociedade com os quais não se identificam historicamente, antes constatando
mais uma interferência eurocêntrica.
9. Quer
o Nacionalismo-populista quer o terrorismo islamita juntam protesto e revolta,
com óbvios meios e consequências distintos. As elites e os poderes instalados
não encontraram respostas adequadas para esta junção incontornável e original. À
Direita ou à Esquerda, não é raro encontrar um discurso adaptado aos “descamisados”
do Ocidente.
E
por isso, o crescimento eleitoral da extrema-direita francesa, holandesa,
alemã, do populismo norte-americano (Sanders), italiano, espanhol ou grego ou
de experiências congéneres várias na América Latina e essencialmente as vitórias
do “Brexit” e de Trump não são
vírgulas (citando Obama), antes um bloco que já tentou conquistar o mundo e foi
derrotado pela união das diferenças.
10. O
terrorismo islamita é apelativo para um jovem a quem é ensinado que a sua
região foi resultado de cortes e costuras traçados em mapas de chancelarias
europeias, ou que é de forma contínua bombardeada há mais de duas décadas. Quanto
às questões da radicalização de adolescentes ou jovens adultos que sempre
viveram no “Ocidente” basta conhecer as expectativas de vida ou de futuro que
lhe são possíveis, onde a alternativa de se imolarem num apelo religioso
supérfluo com o prometido amparo financeiro à sua família, é melhor opção que a
comiseração diária, ou como eles acreditam, uma forma de responderem ao “infiel”.
11.
Chegados aqui, o problema maior será Trump ou o simples e empírico facto do
mundo ser um local perigoso?
A
resposta encontra-se na lamentável soma dos dois.
Trump
é um ultra-nacionalista, populista, identitário e proteccionista. No seu discurso
inaugural, torna-se o carismático líder de um povo que lhe deve obedecer, para
fazer a “América Grande Outra Vez” em torno da afirmação “América Primeiro” em
tudo, da qual ele é a “voz” predestinada.
Prescinde
das instituições (sejam partidos, Câmaras legislativas, ou os Governos dos
Estados), ignora e desautoriza os seus nomeados para as várias posições onde juraram
coisas que ele prontamente alijou e exclui vastas camadas da população da obra
de reerguer a infra-estrutura norte-americana, mas que há décadas alimenta o
engrandecimento da economia doméstica.
12.
Por outro lado, e no plano externo, Trump ecoa e dá megafone gratuito aos
discursos de todos os que comungam do seu ideário, proporcionando o exponenciar
ideológico de algo que tem ficado nas margens eleitorais, mas que num contexto
já identificado neste texto, permitirá um sucesso expectável e respostas fáceis
e imediatas, que isentam raciocínios elaborados e prescinde da mediação das
habituais elites, sociais ou políticas.
13.
O facto dos Estados Unidos se poderem isolar (e já não apenas “retrair”) internacionalmente
e ter uma perspectiva apenas voltada para as grandes potências nucleares (China
e Rússia) não significa um retorno de uma degenerescência da “realpolitik” ou um género de “power politics” extremado e “hard core”, antes o reconhecimento meramente
“empresarial” de que quem não constitui ameaça existencial não conta como
oposição, daí caírem como secundários os acordos multilaterais pelos quais o
poder dos EUA tem sido reforçado desde 1945, obrigando naturalmente a custos e
benefícios, mas que constituíam o padrão nas Relações Internacionais. A
propósito, convém referir que Trump sabe que os grupos terroristas islamitas
não colocam os Estados Unidos em risco terminal. Fazem apenas parte de uma narrativa
exclusivista já apontada, e que encontra aí uma espécie de justificação maior.
14.
Pela primeira vez na História Moderna, é possível que coincidam duas visões do
mundo que tentem impedir o progresso e apostem em propostas exclusivistas,
identitárias, baseadas na prossecução de sistemas autoritários ou teocráticos:
o nacionalismo-populista e o fundamentalismo islâmico, invoquem uns “o povo”
eleito guiados por um farol em forma de líder, ou outros “um deus” castigador
que se apresenta em “fatwas” assassinas.
Pela
primeira vez também, e para desgraça próxima, a potência hegemónica (ou bloco)
pode assumir um ideário que contraria os últimos três séculos.
Com
todos os defeitos da Ordem Internacional Liberal, não é possível a mesma ser
liderada ou protegida pela China (um regime nacionalista, autoritário e com um
capitalismo de Estado), por uma Rússia (Putin pretenderá apenas criar um “tandem” com Trump, fazendo com que a
NATO deixe de incomodar a sua esfera de influencia regional) ou menos ainda se conte
com uma Alemanha com problemas de “memória”, ou uma eventual “Europa Unida” que
não existe.
Nota
Final: A fatalidade deste contexto é que qualquer sentido de Ordem (apesar da
mesma poder ser considerada como claramente em erosão anterior) deixará a breve
trecho de existir. Se o conteúdo “liberal” da dita organização merecia rearranjo,
a forma a que chegaremos rapidamente é mais perto da anarquia conceptual de
Hobbes, de “todos contra todos”, do que um mínimo de civilidade, liderado por
uma potência maior de cariz democrático, que se prepara para desmantelar e
ausentar.
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