domingo, 1 de janeiro de 2017

2017: Um ano à espera



Entraremos num ano novo com problemas de sempre e receios novos.

A figura do ano
O Presidente Obama é o símbolo da decadência do institucionalismo liberal que singrou em 1945 na batalha contra o nazi-fascismo.
Num ano que marca o fim desta forma de ver o mundo, é justo nomeá-lo como figura maior de um ano trágico.
O retraimento dos EUA, festejando vitórias pírricas com questões menores (Cuba, Irão) enquanto procrastina na Síria de forma impeditiva para uma potência ainda hegemónica, marca a degenerescência de um império tido como benigno.
Os últimos dias desta administração foram passados em acusar Putin de influenciar o processo eleitoral norte-americano (com evidências cabotinas e esquecendo o escândalo da NSA com os “aliados” da NATO), num acerto de contas pessoal com Netanyahu e na tentativa de ilibar a sua Presidência e a candidatura de Clinton como as verdadeiras causas do sucesso de Trump.
Obama surgiu com um advento de esperança e desaparece com um novo mundo nas trevas.

O fim da Ordem Internacional Liberal
As duas maiores economias e as três maiores potências nucleares (EUA, China e Rússia) podem pela primeira vez abraçar uma mesma forma de governar, com suaves distinções.
O Iliberalismo substitui uma convencionada ordem internacional liberal, mesmo que Pequim e Moscovo não tenham uma verdadeira tradição liberal.
Putin reconstruiu uma despedaçada Rússia, centralizou o poder no Kremlin e visa garantir a sua esfera de influência regional como forma de possibilitar a reentrada pujante da Rússia na cena internacional.
Xi tenta limpar um sistema corrupto, com múltiplas fontes de poder, e reforçou e ampliou o domínio autocrático por necessidade de consolidação e sobrevivência do modelo interno.
Nos EUA, verdadeiro bastião do Liberalismo, Trump permitir-se-á tal caminho para manter a primazia dos EUA no plano externo (mesmo com um manifesto isolacionista) e promover uma agenda de “culto da personalidade” na qual baseará a sua administração.
A previsão das Teorias das Relações Internacionais sistémicas sobre a ascensão da multipolaridade como resposta ao término da hegemonia norte-americana, pode esboroar-se no que se suponha ser a manutenção dos EUA e da Europa (sendo que esta deixou de contar seja para o que for) como “primus inter pares”, mantendo os caboucos da ordem internacional liberal.
Trump e o Brexit constituíram uma machadada nesta idílica construção.
Aquilo que entendemos como o “Ocidente”, parece não saber responder aos desafios ideológicos que se começam a propor sobre essa teia complexa que o Iliberalismo desenha.

Eleições
No mapa eleitoral que se avizinha, a demagogia radical populista e nacionalista pode encontrar novas aventuras na França (Presidenciais em Maio), e nas legislativas alemãs e holandesas.
O consenso liberal que agregava todo o grande centro político euro-atlântico (da esquerda à direita moderadas) deixou de servir de inspiração social e barragem a extremismos.
Le Pen, a AfD e Wilders, mesmo que para tranquilidade momentânea não ganhem, beneficiarão do lodo institucional em que a União Europeia se move e de toda e qualquer tragédia terrorista que ocorra (e ocorrerá) nas ruas ainda livres do continente.

O que aí vem
Números de 2013 do Banco Mundial e da ONU indicam que na África Subsaariana 41% das pessoas vive em situação de extrema pobreza, e em cerca de 40 países africanos mais de 50% da população tem menos de 20 anos.
Em contraste, na Europa (em conjunto com a Ásia Central) 2,2% enfrenta a mesma realidade no tocante à pobreza, e nos 30 países mais ricos do mundo somente 20% dos habitantes tem menos de 20 anos.
Em 2030, dois terços da população mundial viverá em cidades, segundo a ONU.
No início de 2016, mais de 65 milhões de pessoas, estavam refugiadas ou deslocadas, como a ONU sublinha.
Mais de mil milhões de jovens entrarão no mercado laboral na próxima década, mas é expectável que apenas 40% deles encontre trabalho.
Os diagnósticos estão feitos.
As respostas têm sido a inoperância das elites e dos poderes, bem como o natural receio das populações.
A conjugação destas é um terreno fértil para o larvar de todas as tragédias.

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