Entraremos
num ano novo com problemas de sempre e receios novos.
A figura do ano
O
Presidente Obama é o símbolo da decadência do institucionalismo liberal que
singrou em 1945 na batalha contra o nazi-fascismo.
Num
ano que marca o fim desta forma de ver o mundo, é justo nomeá-lo como figura
maior de um ano trágico.
O
retraimento dos EUA, festejando vitórias pírricas com questões menores (Cuba,
Irão) enquanto procrastina na Síria de forma impeditiva para uma potência ainda
hegemónica, marca a degenerescência de um império tido como benigno.
Os
últimos dias desta administração foram passados em acusar Putin de influenciar
o processo eleitoral norte-americano (com evidências cabotinas e esquecendo o
escândalo da NSA com os “aliados” da NATO), num acerto de contas pessoal com
Netanyahu e na tentativa de ilibar a sua Presidência e a candidatura de Clinton
como as verdadeiras causas do sucesso de Trump.
Obama
surgiu com um advento de esperança e desaparece com um novo mundo nas trevas.
O fim da Ordem Internacional Liberal
As
duas maiores economias e as três maiores potências nucleares (EUA, China e
Rússia) podem pela primeira vez abraçar uma mesma forma de governar, com suaves
distinções.
O
Iliberalismo substitui uma convencionada ordem internacional liberal, mesmo que
Pequim e Moscovo não tenham uma verdadeira tradição liberal.
Putin
reconstruiu uma despedaçada Rússia, centralizou o poder no Kremlin e visa garantir
a sua esfera de influência regional como forma de possibilitar a reentrada pujante
da Rússia na cena internacional.
Xi tenta
limpar um sistema corrupto, com múltiplas fontes de poder, e reforçou e ampliou
o domínio autocrático por necessidade de consolidação e sobrevivência do modelo
interno.
Nos
EUA, verdadeiro bastião do Liberalismo, Trump permitir-se-á tal caminho para
manter a primazia dos EUA no plano externo (mesmo com um manifesto
isolacionista) e promover uma agenda de “culto da personalidade” na qual baseará
a sua administração.
A
previsão das Teorias das Relações Internacionais sistémicas sobre a ascensão da
multipolaridade como resposta ao término da hegemonia norte-americana, pode
esboroar-se no que se suponha ser a manutenção dos EUA e da Europa (sendo que
esta deixou de contar seja para o que for) como “primus inter pares”, mantendo os caboucos da ordem internacional
liberal.
Trump
e o Brexit constituíram uma machadada nesta idílica construção.
Aquilo
que entendemos como o “Ocidente”, parece não saber responder aos desafios ideológicos
que se começam a propor sobre essa teia complexa que o Iliberalismo desenha.
Eleições
No
mapa eleitoral que se avizinha, a demagogia radical populista e nacionalista
pode encontrar novas aventuras na França (Presidenciais em Maio), e nas legislativas
alemãs e holandesas.
O
consenso liberal que agregava todo o grande centro político euro-atlântico (da
esquerda à direita moderadas) deixou de servir de inspiração social e barragem
a extremismos.
Le
Pen, a AfD e Wilders, mesmo que para tranquilidade momentânea não ganhem, beneficiarão
do lodo institucional em que a União Europeia se move e de toda e qualquer
tragédia terrorista que ocorra (e ocorrerá) nas ruas ainda livres do
continente.
O que aí vem
Números
de 2013 do Banco Mundial e da ONU indicam que na África Subsaariana 41% das
pessoas vive em situação de extrema pobreza, e em cerca de 40 países africanos
mais de 50% da população tem menos de 20 anos.
Em
contraste, na Europa (em conjunto com a Ásia Central) 2,2% enfrenta a mesma
realidade no tocante à pobreza, e nos 30 países mais ricos do mundo somente 20%
dos habitantes tem menos de 20 anos.
Em
2030, dois terços da população mundial viverá em cidades, segundo a ONU.
No
início de 2016, mais de 65 milhões de pessoas, estavam refugiadas ou
deslocadas, como a ONU sublinha.
Mais
de mil milhões de jovens entrarão no mercado laboral na próxima década, mas é
expectável que apenas 40% deles encontre trabalho.
Os diagnósticos estão feitos.
As respostas têm sido a inoperância das elites e dos
poderes, bem como o natural receio das populações.
A conjugação destas é um terreno fértil para o larvar de
todas as tragédias.
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