sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Deploráveis, Burguesia, Mearsheimer e Links da Semana


Conspirações e Paranóia
Em 1964, depois de Barry Goldwater ganhar a nomeação presidencial do Partido Republicano, o historiador Richard Hofstadter publicou na “Harper´s Magazine” um ensaio intitulado "The Paranoid Style in American Politics", mais tarde desenvolvido em livro homónimo.
Gente atenta e informada aponta a Globalização e suas assimetrias, tensões étnicas, sociais, económicas ou culturais, a decadência dos EUA como Potência Unipolar, ou as interferências de Putin como uma miscelânea factorial que conduziu ao nefasto resultado eleitoral.
Lendo Hofstadter acompanhamos todo um rasto de “deploráveis” que ao longo da história norte-americana teve janelas de oportunidade, mas que por várias questões de contexto não singraram.
As múltiplas razões que para cada alma pensante explicam a vitória de Trump estão correctas.
Receia-se confessar contudo a única razão estrutural: os “deploráveis” sempre estiveram lá.
À espera.

O desenvolvimento português
O português, regra geral, sobrevive directa ou indirectamente à conta do Estado e suas sinecuras. Por seu lado, o Estado, aprecia e estimula que o pacato cidadão lhe seja docilmente dependente e vassalar.
Nos países onde o capitalismo se edificou como modelo económico e consequente gerador de progresso e desenvolvimento, o motor fulcral dessa causa foi a burguesia.
Apesar das falhas actuais do sistema, nenhum outro produziu tamanha distribuição de riqueza em quantidades idênticas em nenhuma etapa histórica.
Em Portugal, a burguesia resistiu à sua gradual decadência mantendo permanentes vícios terra-tenente, feudalistas e patrimonialistas num Estado que alimentou essas mesmas prerrogativas como modelos de gestão das suas elites.
Escapámos ao Mercantilismo privado, à Revolução Industrial e ao Plano Marshall, não somente por meras contextualizações de regime ou religião.
A burguesia ausente é que soube sempre encontrar justificações para os seus comportamentos deletérios.

Mearsheimer
Na Academia portuguesa, o pensamento Realista é preterido pelo internacionalismo neo-liberal ou por narrativas construtivistas, não esquecendo a vasta gama de teorias revolucionárias ou radicais residuais.
O Realismo, ao contrário das restantes teorias, parte de um pressuposto simples: o pessimismo antropológico.
O Homem não é um ser benigno “de per si”, e não deve ser visto como uma ferramenta de construções utópicas ou como parte de projectos cooperativos (porque falíveis) ou fraternos (porque idílicos).
O mundo que existe é o que é.
Em pouco mais de um século, o Realismo teve várias adaptações e nuances, passando pelo Realismo “anti-utópico”, o “Clássico” (assim baptizado à posteriori), o “Liberal”, o Neorealismo (“defensivo” ou “ofensivo”), o neo-clássico, e até versões estrambólicas como o “Realismo científico”, o “construtivista” ou o “marxista”.
Sendo Kenneth Waltz e o seu “Theory of International Politics” (1979) ainda o mito fundador da leitura estrutural que impera, cumpre destacar um nome que não colhe unanimidade.
John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, e autor entre outros do magistral “The Tragedy of Great Power Politics”(2001) é o maior pensador vivo da escola Realista.
Mesmo sendo estruturalista (não se desfaz do pensamento “anárquico” Waltziano) a lucidez pessimista (que lembra Morgenthau), o rigor académico com que elabora sobre a “mentira” ou o “lobby israelita”, a sua insistência no constante “revisionismo” das Grandes Potências e o sublinhar das capacidades ofensivas num mundo onde a sobrevivência e a segurança devem ser alcançadas com o maior grau de hegemonia possível, fazem do académico de Chicago um exemplo de pensamento sólido, ousado, original e frontal.
Enquanto Waltz foi um “tecnocrata”, Mearsheimer é um sábio.

Links da semana
Robert Reich informa sobre a Tirania a chegar sobre Trump: http://robertreich.org/post/155319264160
Relatório da Inteligência Norte-americana sobre a interferência Russa nas eleições de Novembro: https://www.dni.gov/files/documents/ICA_2017_01.pdf
O crescendo nacionalista e populista: http://peterlevine.ws/?p=17877


Sem comentários:

Enviar um comentário