Conspirações
e Paranóia
Em
1964, depois de Barry Goldwater ganhar a nomeação presidencial do Partido
Republicano, o historiador Richard Hofstadter publicou na “Harper´s Magazine” um ensaio intitulado "The Paranoid Style in
American Politics", mais tarde desenvolvido em livro homónimo.
Gente
atenta e informada aponta a Globalização e suas assimetrias, tensões étnicas,
sociais, económicas ou culturais, a decadência dos EUA como Potência Unipolar,
ou as interferências de Putin como uma miscelânea factorial que conduziu ao
nefasto resultado eleitoral.
Lendo
Hofstadter acompanhamos todo um rasto de “deploráveis” que ao longo da história
norte-americana teve janelas de oportunidade, mas que por várias questões de
contexto não singraram.
As
múltiplas razões que para cada alma pensante explicam a vitória de Trump estão
correctas.
Receia-se
confessar contudo a única razão estrutural: os “deploráveis” sempre estiveram
lá.
À
espera.
O
desenvolvimento português
O
português, regra geral, sobrevive directa ou indirectamente à conta do Estado e
suas sinecuras. Por seu lado, o Estado, aprecia e estimula que o pacato cidadão
lhe seja docilmente dependente e vassalar.
Nos
países onde o capitalismo se edificou como modelo económico e consequente gerador
de progresso e desenvolvimento, o motor fulcral dessa causa foi a burguesia.
Apesar
das falhas actuais do sistema, nenhum outro produziu tamanha distribuição de
riqueza em quantidades idênticas em nenhuma etapa histórica.
Em
Portugal, a burguesia resistiu à sua gradual decadência mantendo permanentes
vícios terra-tenente, feudalistas e patrimonialistas num Estado que alimentou
essas mesmas prerrogativas como modelos de gestão das suas elites.
Escapámos
ao Mercantilismo privado, à Revolução Industrial e ao Plano Marshall, não
somente por meras contextualizações de regime ou religião.
A
burguesia ausente é que soube sempre encontrar justificações para os seus
comportamentos deletérios.
Mearsheimer
Na Academia
portuguesa, o pensamento Realista é preterido pelo internacionalismo
neo-liberal ou por narrativas construtivistas, não esquecendo a vasta gama de
teorias revolucionárias ou radicais residuais.
O
Realismo, ao contrário das restantes teorias, parte de um pressuposto simples:
o pessimismo antropológico.
O
Homem não é um ser benigno “de per si”,
e não deve ser visto como uma ferramenta de construções utópicas ou como parte
de projectos cooperativos (porque falíveis) ou fraternos (porque idílicos).
O
mundo que existe é o que é.
Em
pouco mais de um século, o Realismo teve várias adaptações e nuances, passando pelo Realismo
“anti-utópico”, o “Clássico” (assim baptizado à posteriori), o “Liberal”, o Neorealismo (“defensivo” ou
“ofensivo”), o neo-clássico, e até versões estrambólicas como o “Realismo
científico”, o “construtivista” ou o “marxista”.
Sendo
Kenneth Waltz e o seu “Theory of
International Politics” (1979) ainda o mito fundador da leitura estrutural que
impera, cumpre destacar um nome que não colhe unanimidade.
John
Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, e autor entre outros do
magistral “The Tragedy of Great Power Politics”(2001) é o maior pensador vivo da escola Realista.
Mesmo sendo estruturalista (não se desfaz do
pensamento “anárquico” Waltziano) a lucidez pessimista (que lembra Morgenthau),
o rigor académico com que elabora sobre a “mentira” ou o “lobby israelita”, a
sua insistência no constante “revisionismo” das Grandes Potências e o sublinhar
das capacidades ofensivas num mundo onde a sobrevivência e a segurança devem
ser alcançadas com o maior grau de hegemonia possível, fazem do académico de
Chicago um exemplo de pensamento sólido, ousado, original e frontal.
Enquanto Waltz foi um “tecnocrata”,
Mearsheimer é um sábio.
Links
da semana
Trump e o Fascismo: http://www.vox.com/the-big-idea/2017/1/3/14154300/fascist-populist-trump-democracy ; https://theconversation.com/no-this-isnt-the-1930s-but-yes-this-is-fascism-68867
Trump
e os ditadores: http://foreignpolicy.com/2017/01/03/donald-trump-is-making-the-world-safe-for-dictators/
Robert
Reich informa sobre a Tirania a chegar sobre Trump: http://robertreich.org/post/155319264160
A disfunção política norte-americana: http://www.nytimes.com/2017/01/03/business/economy/trump-election-democracy.html
Relatório
da Inteligência Norte-americana sobre a interferência Russa nas eleições de
Novembro: https://www.dni.gov/files/documents/ICA_2017_01.pdf
O
crescendo nacionalista e populista: http://peterlevine.ws/?p=17877
O
legado de Obama, visto pelo “The
Guardian”: https://www.theguardian.com/us-news/2017/jan/03/barack-obama-president-legacy-policy-issues-wins-fights
Theda
Skocpol sobre o Partido Democrático: http://www.vox.com/the-big-idea/2017/1/5/14176156/rebuild-democratic-party-dnc-strategy
Michael Walzer e o que se exige à Esquerda contemporânea: https://www.dissentmagazine.org/online_articles/historical-task-of-left-present-period-trump
Avisos
para as políticas externas: http://carnegie.ru/2016/12/22/ideology-should-not-guide-foreign-policy-pub-66543
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