segunda-feira, 29 de maio de 2017

O (in)sucesso do terrorismo depende de ti



Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL



Em 2008, no auge da crise económica e financeira, o historiador britânico Tony Judt em “O Século XX Esquecido” afirmava: “O medo está a ressurgir como ingrediente ativo na vida política das democracias ocidentais. Medo do terrorismo, decerto; mas também e talvez de forma mais insidiosa, medo da rapidez incontrolável da mudança (…), medo de que já não sejamos só nós que já não conseguimos moldar as nossas vidas, mas que também as autoridades tenham perdido o controlo, para forças fora do seu alcance.”

Em 2017, a perceção não se alterou. Na expressão do uruguaio Eduardo Galeano, o medo aparece como o “gás paralisante” que simultaneamente conduz e (tem) condicionado a nossa ação. A estatística e o mundo real comprovam-no.

Estatisticamente, o último Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre as perceções de ameaça e segurança na Europa, revela-nos que a principal preocupação em 2015 era ocupada pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).

Empiricamente, assim que um ataque terrorista é perpetrado – seja na Nigéria, Turquia, Egipto, Paris, Londres, Berlim ou Manchester – o mundo apressa-se a elaborar um rol de discursos de pesar e, com mais ou menos atenção mediática, ouvem-se diversas condenações acompanhadas por abraços inter-religiosos. Os líderes estatais prontificam-se a sublinhar uma retórica assertiva contra a ameaça e os Estados edificam as suas magnânimas operações securitárias como é o caso do Reino Unido, Bélgica e França.

Estes discursos e ações contra o terrorismo são importantíssimos e necessários, sem dúvida, mas têm-se relevado uma contínua tentativa falhada de acertar no alvo a abater. Impulsionadas pelo medo generalizado e aliadas ao desconhecimento sobre o fenómeno ou à ignorância quanto ao trabalho das forças de segurança, as reações estatais e os vários discursos têm gerado um manancial de visões fatalistas na esteira das palavras de Judt. O que está em causa é a alegada impossibilidade de conter a ameaça do terrorismo.

Estas posições ultrapessimistas e erróneas nada servem senão para contribuir e reforçar o perigo da ameaça.

Para Bruce Hoffman, um dos mais conceituados analistas políticos na área do terrorismo, a capacidade dos grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS aprenderem com outros semelhantes (amigos ou inimigos), entre outros aspetos, imprime ao terrorismo um carácter de "intratabilidade". No entanto, pese embora a possível veracidade desse aspeto, defender explícita ou implicitamente que o terrorismo é inevitável, é uma forma de descredibilizar a ação das forças de segurança, potenciar a frustração de determinados esforços e, sobretudo, contribuir para alimentar o sentimento de insegurança nas populações.

Ninguém nega as mortes devastadoras e a natureza descentralizada e  aleatória do fenómeno. O terrorismo é uma ameaça séria, com resultados muito eficazes, por demais visíveis, horrendos e temíveis. Mas, é imperioso não cair em fatalismos pois isso é radicalizar o próprio problema, abrindo caminho para o sucesso do terrorismo.

Independentemente da ideologia associada, a chave estratégica das narrativas extremistas como a jihadista assenta em três objetivos centrais: encontrar, explorar e criar o caos.

Pretende-se fomentar sociedades polarizadas, criar antagonismos que potencialmente alimentem o extremismo violento, a radicalização e o terrorismo. A essência da sobrevivência de qualquer grupo terrorista baseia-se em conseguir perpetuar a sua existência através da intensa publicidade, exposição e coação psicológica sobre um determinado governo ou população a fim de, em última instância, alcançar determinados objetivos geralmente políticos. Tal como numa guerra de guerrilha, “they aim for the hearts and minds”, pois o terrorismo é sobretudo uma estratégia psicológica que se alimenta do pânico generalizado e do medo irracional.

O depoimento de vários jihadistas via online, atuais combatentes na Síria e no Iraque, comprovam esta lógica. O académico norte-americano Amarnath Amarasingam argumenta que: “[T]hese groups’ goal [is] (...) about weakening the social fabric of the country, chipping away at civil liberties and exacerbating tensions that lie just below the surface. (...) Jihadist groups were never naive enough to think that they could defeat the U.S. militarily on the battlefield. Rather, the point was to draw Americans into a war of attrition, let them punch themselves out, make American Muslims aware of their insecure place in the country, and make American citizens afraid of each other”.

Ora, as reações exageradas, quer por parte dos Estados, líderes políticos ou académicos (aliadas ao mediatismo consumista) apenas contribuem paradoxalmente para a difusão desses propósitos. Ao invés de se fomentar a segurança e uma política de apaziguamento, damos azo justamente ao contrário, ao efeito perverso. Nós, indivíduos, sociedades e estados, ao dar continuidade ao espetáculo teatral do terrorismo quer a nível operacional ou intelectual, estamos a contribuir inadvertidamente para o seu reforço, alimentando a potencial frustração de quaisquer esforços contraterroristas em curso como as detenções de indivíduos.

Os mass media (e aparentemente também as mentes ocas do FBI) divulgam material que deveria ser classificado e continuam a explorar o drama coletivo; os serviços de informações aparentemente ignoram avisos prévios de outros semelhantes e padecem de recursos para manter sob vigilância todos os referenciados (só a França tem 15000 suspeitos na sua watchlist); o cidadão comum coloca-se em punho com o telemóvel na mão pronto a gravar tudo o que estiver a seu alcance. Deste modo, perdem-se as noções de confiança nas autoridades e a de sigilo.

Ainda assim, “no one gives a damn” sobre as detenções feitas ou quantas redes já foram desmanteladas. As pessoas não percecionam as medidas das Forças de Segurança como eficazes porque o que vêm é apenas a morte física. O impacto visual dos ataques é o maior inimigo do sucesso contraterrorista pelo medo que provoca. E é justamente no medo causado e percecionado que reside o maior perigo do terrorismo: quando massificado, é irracional e rapidamente contagioso. Este medo é o que, por sua vez, alimenta a ideia da suposta inoperância das forças de segurança e gera opiniões fatalistas.

Em última instância e com o nosso aval, caímos na “ditadura do medo” como Galeano designou.
Somos voluntariamente reféns de um pânico, fazendo eco das ideias fundamentalistas, criando barreiras e alimentando estereótipos e antagonismos sem sentido.
O insucesso do terrorismo depende de ti, de nós. De não sermos cativos do propósito último de qualquer terrorista: a tentativa de alterar o quotidiano rotineiro, de mudar formas de pensar, agir e sentir.

A autora adota o Acordo Ortográfico.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Ordem e o Sistema Internacional no tempo da “pós-verdade”





Nos últimos tempos, figuras distintas têm proliferado comentários sobre a natureza e futuro da Ordem e do Sistema Internacional, não raras vezes confundido ambas.

Antes de comentarmos este frenesim de certos personagens, sumarizemos os conceitos falados.

O Sistema Internacional deriva da conceptualização “vitoriosa” do neo-realismo de Kenneth Waltz (1979) que possibilitou uma leitura asséptica e meramente sistémica e estrutural, caracterizando o “espaço” onde os Estados interagem como anárquico, existindo diferenciação com as unidades (estatais) a terem recursos distintos, sobrevivendo numa lógica de auto–ajuda, dada a ausência de um qualquer “112” global.

Já a Ordem Internacional é o conjunto de normas, valores e instituições que possibilitam e balizam o relacionamento inter-estatal e que (de novo, numa visão neo-realista) premeia os cumpridores e pune os infractores, sendo apanágio dos vencedores das grandes guerras ditar a sua consequente composição, o que no caso e dada a vitória dos EUA (associada à perda de estatuto britânica e francesa) ficou marcada pela matiz washingtoniana consubstanciada num padrão democrático-liberal.

Passemos agora ao modo como certas luminárias têm perorado sobre estas temáticas.

Na sua investidura presidencial, Macron não se inibiu e “urbi et orbi” fez saber que a França “necessita recuperar a confiança” pois a Europa e o Mundo precisam dela “forte e segura”, para desempenhar o seu papel “imenso, na correcção de excessos e no velar pela defesa da liberdade”.

Em Pequim, Xi ao promover a “nova rota da seda” rodeado de lideranças mundiais, apelou à rejeição do proteccionismo e ao abraçar da globalização, equiparando as nações a um “bando de gansos que devem confrontar em conjunto tempestades”.

Já António Guterres, secretário-geral da ONU, referiu que o mundo actual “multipolar” necessita de uma governação e instituições igualmente multipolares, alertando e comparando a actual situação mundial à de vésperas da guerra de 14-18.

Tentemos então introduzir factos relevantes para melhor compreender as narrativas das personagens.

64,8% do voto na 1ª volta das presidenciais foi confiado a políticos anti-sistema, onde se inclui o próprio Macron e os radicais Le Pen e Melanchon.
A França tem um sistema económico, político e social irreformável, sendo irrelevante no panorama internacional e quase dependente da importância que Merkel e Schauble lhe queiram atribuir (por questões internas, históricas e políticas alemãs) no panorama europeu.

A China está rodeada por um dispositivo de alianças que os Estados Unidos paulatinamente construíram na região, além de historicamente ter bastante “anti-corpos” pela sua visão imperial de dominação. A tão propalada expansão comercial não passa da necessidade indispensável que Pequim tem de recursos energéticos, de manutenção de mercados abertos para escoar os seus produtos, sendo estes dois critérios axiomáticos para permitir alguma pacificação interna. Adicionalmente, Pequim tem que travar o terrorismo regional que pode encontrar em algumas geografias internas uma base confortável, além de estar, surpreendentemente, associado a Trump para resolver a questiúncula norte-coreana, embora aqui lhe seja favorável a “jogada” do Presidente norte-americana, dada a imprevisibilidade que pode ser introduzida na região.

Quanto a Guterres, parece querer fazer prova de vida pessoal e da sua instituição. A irrelevância que qualquer das potências globais ou regionais atribui à organização e a incapacidade factual de sequer resolver questões menores relembra à saciedade o texto de John Mearsheimer sobre a “falsa promessa” das instituições internacionais que apenas reflectem a distribuição real dos poderes e onde os Estados lêem nada mais que o seu interesse nacional.

Em suma, o senhor Macron diz no Eliseu que a Europa e o Mundo querem e precisam de Paris (não se sabe bem porquê), Xi Jinping faz metáforas poéticas animais com a globalização renovada que se quer conduzida pelo “Império do Meio” e o nosso engenheiro em Nova Iorque faz questão que reparem nele e na sua “alegre casinha”, aludindo a comparações históricas descontextualizadas.

Lamentavelmente, a leitura, quer do Sistema ou da Ordem Internacional, não resistem a nenhum “teste de stress” teórico ou empírico.
As três “imagens” sistémicas e convencionais na disciplina das Relações Internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo) são descendentes de um positivismo científico que não nega o essencial do que é o mundo.
As restantes narrativas da disciplina são díspares, oscilando da aceitação da “Escola Inglesa” até ao quase estatuto de delinquente do pós-modernismo, embora se encontrem na sua maioria em margens residuais académicas.

O mundo, apesar da tentativa de “diabolização” da administração Trump, é pelo menos há três séculos, uma dominação hegemónica “ocidental”.
Relendo Maquiavel, Gramsci e Cox consideram que um Estado dominante consegue fazer ascender e expandir a nível internacional um sistema económico e político, que tem capacidade de atracção, assimilação e naturalização por consenso e se necessário inibe ou constrange pela força os eventuais prevaricadores.

Não são possíveis discernir resistências ao bloco hegemónico “ocidental”, pois económica, militar, cultural e politicamente a conjugação dos vários poderes entre Washington e a União Europeia (apesar das suas vicissitudes) e a interdependência de ambos torna impraticável a obstaculização do modelo internacional liberal.

Macron será o que Merkel quiser, Xi necessita de Trump e da União Europeia e Guterres necessita que o ouçam para continuar a existir.

Antes de lavar as mãos, Pilatos perguntou “o que é a verdade”.
Na época da pós-verdade (construída intelectualmente por reacções anti-positivistas) a “realidade” pode ser encontrada de forma serena na leitura qualificada e conjunta da História, das estatísticas e das narrativas, mesmo que esteja na moda a multiplicação das “verdades” hoje atomizadas ou encenadas para sobrevivência de certos actores políticos.


Links da Semana

China
Relatório da LSE sobre as reformas económicas da China, de Deng a Xi: https://www.lse.ac.uk/IDEAS/publications/reports/pdf/LSE-IDEAS-From-Deng-to-Xi.pdf

França

Islão
Relatório da Carnegie sobre as múltiplas disputa pela autoridade religiosa: http://carnegieendowment.org/files/CP306_Brown_Religious_Institutions_Final_Web.pdf

Israel-Palestina

Porque ainda não foi feita a Paz entre Israel e Palestina, segundo o Guardian: https://www.theguardian.com/world/2017/may/16/the-real-reason-the-israel-palestine-peace-process-always-fails

Para a Economist, Israel precisa de um Estado Palestiniano para reforçar a sua democracia: http://www.economist.com/news/leaders/21722162-more-ever-land-peace-also-means-land-democracy-why-israel-needs-palestinian-state

Populismo
Pranab Bardhan professor de Economia de Berkeley sobre os desafios populistas à ordem liberal: http://bostonreview.net/class-inequality/pranab-bardhan-understanding-populist-challenges-liberal-order

Reino Unido
Manifestos Eleitorais:
Para o Guardian o director do Daily Mail é o homem “mais perigoso” de Inglaterra: https://www.theguardian.com/media/2017/may/14/is-paul-dacre-most-dangerous-man-in-britain-daily-mail?

Rússia

Trump

Administração
Paul Krugman e as propostas económicas de Trump: https://www.nytimes.com/2017/05/15/opinion/trump-tax-cuts-deficit.html
Trump contra o “estado burocrático”: https://harpers.org/archive/2017/06/security-breach/?single=1

Defesa e Política Externa
Stephen Walt analisa a situação no Afeganistão e as acções de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/05/17/whats-the-point-of-donald-trumps-afghan-surge-taliban-afghanistan/
Emma Green na The Atlantic e a prioridade da administração Trump em defender a liberdade religiosa como forma de derrotar o Islão: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/05/religious-freedom-trump-administration/526320/
Os vizinhos da China receiam a perda de credibilidade dos EUA e viram-se para Pequim: https://www.the-american-interest.com/2017/05/16/toward-detente-in-the-south-china-sea/

“Trumpismo”
Não é tirania, é “Trump”, Niall Ferguson:
O PPRI (Public Religion Research Institute) e a The Atlantic analisam as causas da vitória de Trump: questões culturais mais valorizadas que as económicas: https://www.prri.org/research/white-working-class-attitudes-economy-trade-immigration-election-donald-trump/
Artigos sobre a manipulação do eleitorado e a empresa de Robert Mercer, a Cambridge Analytica:

TRI/CP
Robert Kaplan, os EUA num mundo Euroasiático de heranças imperiais:
Joseph Nye e uma resposta ao ensaio de Kaplan: http://stories.cnas.org/an-essay-response-to-marco-polos-world
Klaus Larres (Institute for Advanced Study in Princeton), Donald Trump and America’s Grand Strategy: U.S. foreign policy toward Europe, Russia and China: http://transatlanticrelations.org/wp-content/uploads/2017/05/Larres-Donald-Trump-and-America%E2%80%99s-Grand-Strategy-U.S.-foreign-policy-toward-Europe-Russia-and-China-Global-Policy-May-2017.pdf
Hal Brands e Peter Feaver, Was the Rise of ISIS Inevitable?:
DOI: 10.1080/00396338.2017.1325595
Zbigniew Brzezinski, How To Address Strategic Insecurity In A Turbulent Age:
DOI: 10.1111/npqu.12079 
Hal Brands questiona se o Internacionalismo norte-americano está “morto”?: https://warontherocks.com/2017/05/is-american-internationalism-dead-reading-the-national-mood-in-the-age-of-trump/
Entrevista a Daniel Ziblatt, sobre a importância dos partidos Conservadores para a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2017/05/17/why-liberal-democracy-only-dies-when-conservatives-help

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Cadáver Esquisito da UE







Nos inícios do século passado a trupe dos Surrealistas inaugurou um jogo literário chamado “Cadáver Esquisito” (“cadavre exquis”, no original, que é mais catita) sobre o qual existem diversas historiografias.
Sumarizando, diferentes autores iam completando uma estrutura frásica ou narrativa sem relação de causalidade.

Um exemplo com este magnífico “O Vermelho e o Verde” de João Artur Silva e Mário-Henrique Leiria (in "Antologia do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny (org.), Assírio e Alvim, 1989):

- De que cor é o vermelho?
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.

Isto tudo a propósito da União Europeia (UE) e como a mesma é percepcionada.

Almas caridosas que por aí andam, inteligentes e civilizadas acrescente-se, clamam que a UE está minada e cercada pelo colapso eminente.
No plano “continental”, somam-se crises austeritárias e uma economia em retrocesso, declínio demográfico, indecisões institucionais e políticas, aumento eleitoral dos chamados populismos de Esquerda e Direita e até a “desgraça” da saída do Reino Unido, que como é sabido era amado por gerações de europeístas.
No campo externo, embora próximo, a percepção de supostas ameaças existenciais como o “revisionismo” russo, o “terrorismo islâmico” ou a crise humanitária com milhões de refugiados à porta da Europa.
É o “arco do Caos” que pode ser suplantado com “mais” Europa e mais aprofundamento, premiando cumpridores e punindo infractores.

O outro lado da moeda é adequadamente representado pelo recente artigo do académico de Princeton Andrew Moravcsik, na Foreign Policy, onde se considera a UE como uma superpotência, estatuto esse que o autor indica permanecer para o futuro a médio-longo prazo.
Moravcsik lê a UE como um actor único, face ao seu desempenho global e faz a combinação do poderio económico, militar, educativo, cientifico e cultural “ocidental”, (agregando EUA e UE) evidenciando que de forma conjunta ou apenas interpretando a União como uma entidade única (não soberana) a China demorará no mínimo duas gerações a rivalizar com estes números.
É em suma, a perfeita construção utópica Humanista e Iluminista que apenas consagrará o melhor que há em nós e que só pode ir mais além.

Vislumbramos aqui curiosamente um código binário que se julga sofredor de dissonância cognitiva.

No entanto, quer os primeiros, que chamamos de “liberais pessimistas” quer os segundos, baptizados como “liberais utópicos” alinham num mesmo diapasão, que é a manutenção de uma coerência institucional ao abrigo de um padrão demo-liberal – como reflectido por Francis Fukuyama em “The End of History” – que derrotou  fascismo e comunismo e se apresentou como a conclusão Hegeliana da caminhada humana.

Esta versão ocidental demo-liberal tem contudo protagonizado uma típica forma de Hegemonia, onde Estados Unidos e Europa mantêm paradigmas económicos, políticos e militares.

O Liberalismo hegemónico e expansionista, com a Globalização e o projecto europeu, conseguiu elevar à dignidade social e económica centenas de milhões em pessoas, difundir conhecimento e promover avanços civilizacionais como nunca na História.
Contudo, a ausência das componentes Realista e Conservadora permitiu que a universalização do que se julgam como valores superiores (democracia, capitalismo, internacionalização) possa ser coercivamente imposto, como é o caso lamentável do Médio Oriente alargado, fonte primária dos dramas actuais.

A contestação actual a esta ordenação sistémica assume dois contornos.
Os “radicalismos” que estão fora da esfera do poder (Espanha, França) abarcam discursos populistas, nacionalistas e proteccionistas que clamam ser a “voz do povo puro”.
Já os “autoritarismos” (Rússia, China, Venezuela) regra geral são representados em estados-nação por lideranças personalistas, que mantêm a aparência democrática sob forte aparato securitário e capitalismo estatal.
Qualquer destas propostas não tem potencialidade de atracção ou sequer exerce na actualidade ameaça existencial ao que já convencionámos como “ocidente”.

No entanto, a multidão diverte-se com as peripécias da Coreia do Norte, vilaniza Putin, preocupa-se com a criminalidade organizada a que chama de terrorismo, imagina que o Exército Popular Chinês invada os cafés e as óperas europeias, enquanto que Trump (para tranquilidade do “establishment” diplomático e militar ocidental) mantém as mesmas políticas internacionais, uma por uma, aqui ou ali com ligeiros “upgrades”, depois dos momentos onde se julgava que o multimilionário iria seguir um percurso isolacionista.

Alguns Realistas e qualquer Conservador (criaturas diferentes dos “reaccionários” que vislumbram o Armagedão a cada passo do progresso) alertam há centenas de anos que o expansionismo e universalização de qualquer sistema é contraproducente, além de advertirem que as identidades e as culturas não se apagam em construções utópicas.

Claro que ninguém nos ouve, embora algumas notas de rodapé em livros de História lembrem assim que havia gente com juízo.




Links da Semana


Fenómeno da semana: Stephen Walt escreve no NY Times (!) sobre a diplomacia e a força militar na administração Trump:

Alemanha
Relatório da Transatlantic Academy sobre como melhorar a relação Trump e Merkel: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Suspicious_Minds_Final.pdf

Irão

Israel-Palestina
Aaron David Miller no Wilson Center sobre o novo manifesto do Hamas:
Seth Frantzman no Jerusalem Post: Israel nunca foi “Ocidental”
O projecto chinês da nova “Rota da Seda” pode contribuir para o desenvolvimento económico e estabilidade no Médio Oriente: http://www.jpost.com/Opinion/Chinas-New-Silk-Road-and-the-Middle-East-490157

ONU

Guterres: ONU deve reformar-se e defender valores do Iluminismo:


Populismo

Cas Mudde e o verdadeiro perigo do populismo europeu, a Hungria: http://en.zois-berlin.de/publications/zois-spotlight/the-real-populist-challenge/


Reino Unido

Rússia
Relatório do Valdai sobre as acções de Moscovo face ao futuro incerto da Europa: http://valdaiclub.com/files/14294/
Como Putin alimenta as fraquezas russas tornando-as mitos e forças, Stefan Meister: http://berlinpolicyjournal.com/the-great-russia-myth/

Terrorismo
O Islamismo radical não é uma ameaça existencial ao Ocidente: https://www.vox.com/the-big-idea/2017/5/3/15528360/islam-jihad-sharia-trump-bannon-isis-radical

Trump

Administração
A análise da The Atlantic se a demissão de Comey representa uma crise constitucional:

Defesa e Política Externa
Relatório da RAND por uma nova estratégia no Iraque e na Síria: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1500/RR1562/RAND_RR1562.pdf

“Trumpismo”
A Politico recorda os vários “casos” em que Trump tem estado envolvido: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/05/donald-trump-presidential-scandals/522468/

União Europeia
Jurgen Habermaas sobre o futuro da Europa e da cooperação: https://www.socialeurope.eu/2017/03/pulling-cart-mire-renewed-case-european-solidarity/

TRI/CP
A importância das bibliotecas presidenciais e a futura instituição de Obama: http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/07/presidential-libraries-are-a-scam-could-obama-change-that-215109
 



quinta-feira, 4 de maio de 2017

A França irrelevante, A essência de Trump e Hillary Clinton como rodapé





As eleições francesas

Quando o senhor Macron jurar como Presidente da República Francesa, iniciar-se-á o mandato Hollande 2.0.

São inúteis exercícios estatísticos, leituras ou cálculos de projecções de votos, sendo relevante a conjugação de duas considerações que urgem ser ponderadas.

Uma, que nos remete para o papel internacional da França.
A discussão que paira sobre o suposto digladiar globalização – nacionalismo reflectido nas escolhas entre a criatura saída da geringonça “En Marche” ou a dilecta filha do pai negacionista do Holocausto é estéril.
Tal interpretação teria acuidade se os franceses contassem para algo no panorama global, algo que não se verifica – dando certo beneficio histórico aos gauleses – desde a crise do Suez em 1956, por alturas em que ainda sobrevivia a III Republica.

Já a segunda assenta nas próprias dinâmicas internas da nação gaulesa.
A decadência francesa é resultado da ausência de reformas estruturais na economia e no sistema político e num confronto social e cultural daí resultante que tem acendalha permanente nos meios urbanos.

Miterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande foram incapazes de resolver a paralisação sistémica francesa, Macron sofrerá das mesmas agruras no Eliseu.
O futuro Presidente vincará somente a vertigem declinante traçada há mais de uma década, que coincide quase em simultâneo com a chegada ao poder da senhora Merkel e a consolidação da hegemonia alemã.


Trump, a “Coisa”

Existe um pequeno filão na Ciência Política e nas Relações Internacionais que tenta traçar paralelos com algumas obras e géneros cinematográficos e casos específicos das ditas Ciências Sociais.

Após o sucesso de “Alien, o 8º passageiro” em 1979 realizado por Ridley Scott surgiram vários filmes que mesclam ficção científica e terror, do qual destaco “The Thing”, de 1982 e dirigido pela mestria de John Carpenter.

O filme de Carpenter aborda a capacidade de um organismo extraterrestre eliminar e assimilar vítimas humanas, replicando a sua aparência, gerando um frenesim paranóico entre os integrantes da estação científica onde se passa a acção (na Antárctica), e que são aniquilados sequencialmente, salvo duas personagens que na cena final se confrontam expectantes sobre qual deles é o “hóspede” do predador alienígena.

Esta parábola serve a propósito do actual Presidente dos EUA, Donald Trump.

Na época que vivemos, continuamos a não resistir ao hábito cultural e “ocidental” de classificação e catalogação num confronto de oposições binárias como Jacques Derrida falava já há décadas: bom/mau; branco/preto; inocente/culpado.

Trump que perfez 100 dias da existência da sua administração já foi rotulado de “populista”, “fascista”, “autoritário”, “nacionalista”, “isolacionista”, “imperialista”, “jacksoniano”, “proteccionista”, “jeffersoniano”, “neo-conservador”, “militarista” e outras coisas.

Os Liberais já o assolaram com argumentação “ad hitlerum” embora depois o incensassem pela revisão da sua “foreign policy” (Síria, Coreia do Norte e Rússia) enquanto que os Conservadores tremem agora com parte da sua agenda de previsíveis excessos fiscais internos e internacionalismo interventivo.

Ler entrevistas de Trump é um desafio constante à imaginação e a algum rigor científico que permita sistematizar o seu pensamento.

Criaturas de pena leve têm ultimamente pugnado pela plasticidade e versatilidade de Trump em adaptar recursos pós-modernistas à sua retórica e acção, dado que não sendo plausível conhecer toda a realidade que habitamos, cada um a pode interpretar e plasmar, contrastando com os ancestrais ditames do que se supõe ser a “verdade”.

Em 1982, John Carpenter apresenta-nos uma “coisa” extraterrestre letal que além de aniquilar, reproduz a forma humana que ocupa, permitindo-se viver no novo corpo sem que ninguém se aperceba.

Em 2017, Donald Trump tem a capacidade de emular múltiplas personagens, sem nunca se comprometer, transformando ignorância em política de imprevisibilidade e a cedência ao aparelho militar-industrial numa espécie de estratégia.
Consegue em simultâneo ser um internacionalista nacionalista, extorsionário diplomata, liberal reaccionário, pacifista militarista, proteccionista mercantilista ou um exibicionista tímido.

Perceber Trump requer antes de mais a tarefa de não dispersarmos a nossa compreensão no que é essencial, ou seja, naquela cabeça a separação e fiscalização dos poderes, os direitos e as garantias legais são dispensáveis.

Não se conclui tal necessitando de grande elaboração académica, mas antes verificando que estas premissas foram e são constantes e indissociáveis da sua natureza pessoal, profissional e política.

E isso diz-nos tudo acerca da criatura, assumindo Trump qualquer morfologia que o momento se encarregue de lhe ditar.


Hillary Clinton como nota de rodapé

A senhora Clinton voltou ao reino dos vivos numa entrevista/conferência de 35 minutos com a jornalista da CNN, Christiane Amanpour, perante uma plateia deliciada e a vivenciar uma espécie de história contrafactual.

Compartilhou com as extasiadas almas que a aplaudiam estar a concluir um livro onde abordará a derrota eleitoral com Trump, dizendo “ser a única responsável” pelo resultado final. Mas a lucidez da ex-Secretária de Estado foi efémera. Decretou que a vitória era “certa”, salvo uns aborrecimentos que fez questão de elencar.

O preconceito e misoginia que grassam na sociedade, a ausência de rigor político nos debates, a interferência de Putin, a história eleitoral norte-americana, a carta do director do FBI e as denúncias do senhor Assange.

A senhora Clinton não gasta dois segundos a falar de Bernie Sanders, das primárias armadilhadas, do desaparecimento político dos Democratas e parece que continua sem um pingo de consciência sobre o que a sua figura representa no eleitor americano médio.




Links da Semana

Alemanha
Henry Kissinger recupera a figura de Konrad Adenauer como o homem que salvou a Alemanha Federal e consolidou a sua ligação com os EUA:

China

Coreia do Norte
RAND: Preparar a elite norte coreana para a reunificação: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1900/RR1985/RAND_RR1985.pdf

Israel-Palestina
Carta aberta de 2 académicos (Falk e Tilley) a Nikki Haley sobre uma investigação de ambos relativa ao apartheid em Israel: https://www.thenation.com/article/open-letter-to-un-ambassador-nikki-haley-on-our-report-on-apartheid-in-israel/

Populismo
Paper do Instituto Delors sobre as redes sociais e o sucesso do populismo: http://www.delorsinstitut.de/2015/wp-content/uploads/2017/04/20170419_SocialNetworksandPopulism-Dittrich.pdf

Rússia

O capitalismo neo-feudalista Russo: https://www.project-syndicate.org/commentary/russia-neofeudal-capitalism-putin-by-anders-aslund-2017-04


Trump

Administração
O ex-nº 2 da Goldman Sachs é a “estrela em ascensão” na administração Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/04/22/gary-cohn-financial-crisis-trump-215059
Fareed Zakaria e a “educação” de Trump:
A Atlantic verifica o cumprimento das promessas que Trump fez na campanha: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/trump-promises-cheat-sheet/507347/
Donald Trump Jr e os 100 primeiros dias da administração do seu pai: http://www.foxnews.com/opinion/2017/04/29/donald-trump-jr-my-fathers-first-100-days.html

Defesa e Política Externa
Walter Russell Mead defende a junção do Jacksonianismo com o Hamiltonianismo, um nacionalismo benigno e um internacionalismo liberal: https://www.wsj.com/articles/nationalist-shouldnt-be-a-dirty-word-1493678981
Stephen Walt e os erros de Trump nos 1ºs 100 dias
Hal Brands e a doutrina da incompetência: https://warontherocks.com/2017/05/the-incompetence-doctrine/
Rex Tillerson traça as directrizes da Política Externa dos EUA: https://www.theatlantic.com/news/archive/2017/05/rex-tillerson-america-first-foreign-policy/525309/
A estratégia dos EUA no Afeganistão é um modelo para transformar a região: https://warontherocks.com/2017/04/its-much-bigger-than-afghanistan-u-s-strategy-for-a-transformed-region/
Entrevista do Secretário de Estado Rex Tillerson:
James Kirchick na American Interest questiona as responsabilidades sobre quem “matou” a Ordem internacional Liberal: https://www.the-american-interest.com/2017/05/03/who-killed-the-liberal-world-order/
Trump renegoceia NAFTA:

Respostas a Trump

Hillary Clinton em entrevista a Christiane Amanpour sobre as eleições de 2016: http://www.refinery29.com/2017/05/152592/hillary-clinton-christiane-amanpour-live-interview

“Trumpismo”
As questões sobre a liberdade de expressão em redor do confronto globalismo-nacionalismo: https://www.the-american-interest.com/2017/04/27/free-speech-and-the-nationalist-globalist-divide/

Timothy Snyder acredita que Trump estará tentado a fazer um Golpe de forma a derrubar a democracia: http://www.salon.com/2017/05/01/historian-timothy-snyder-its-pretty-much-inevitable-that-trump-will-try-to-stage-a-coup-and-overthrow-democracy

O nepotismo da administração Trump assemelha-se aos exemplos dos países mais corruptos do mundo: http://www.huffingtonpost.com/entry/trump-administration-nepotism_us_58fa746de4b06b9cb916f736
No NY Times, Pankaj Mishra traça a caminhada do natural excepcionalismo optimista para a actual consagração do nihilismo norte-americano:  https://www.nytimes.com/2017/04/28/opinion/america-from-exceptionalism-to-nihilism.html

TRI/CP
No Boston Globe, Niall Ferguson e Zakaria discutem se a ordem internacional como a conhecemos terminou?: http://www.theglobeandmail.com/news/world/goodbye-to-all-that-is-the-international-order-as-we-know-itover/article34826488
Hans Kundnani, do GMF, O que é a Ordem Internacional Liberal: http://www.gmfus.org/file/10159/download

União Europeia
Ferdinando Giugliano e o próximo problema europeu, a Itália: https://www.bloomberg.com/view/articles/2017-05-02/italy-is-europe-s-next-big-problem