sexta-feira, 7 de abril de 2017

Trump e o ataque à Síria



Quem segue este Pasquim e leu atentamente os últimos parágrafos do recente texto “Trump, o Centauro” encontra no Imperialismo Isolacionista uma definição que abarca explicações para o comportamento internacional do actual Presidente dos EUA.

No entanto, e face ao bombardeamento de uma base do exército de Assad, convém perspectivarmos algo mais na actual espuma dos dias.


Desde a sua tomada de posse Trump teve vários constrangimentos.
Foi derrotado na proposta de substituição do Obamacare e nas ordens executivas que impediam a entrada de refugiados e imigrantes oriundos de certas geografias.
O seu nomeado para o Supremo foi objecto de contestação.
Mantém-se enredado na questão da interferência russa nas eleições, com episódios rocambolescos a envolver visitas nocturnas à Casa Branca pelo líder Republicano da comissão que investigava o assunto.
Tudo isto entre acusações de contra-espionagem por parte de membros da administração Obama e conluios entre elementos da campanha de Trump e agentes russos, inclusive com o anúncio de que o ex-Conselheiro de Segurança Nacional, Mike Flynn, estaria interessado numa delação “premiada”.

Há uma semana, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley e o Secretario de Estado Rex Tillerson confirmavam que os EUA já não se focavam na saída de Assad do poder – ao contrário do que os Europeus sempre defenderam – cabendo ao “povo sírio” determinar o seu futuro.
Por esses mesmos dias – e decerto já esquecido neste ruído de informação – Tillerson reunia-se com os parceiros da NATO, recordava a ameaça russa na Ucrânia e fazia saber que a protecção norte-americana deve ser paga, recordando aos incautos outros  sinónimos da palavra extorsão.

Há menos de 48 horas, Steve Bannon, o “Darth Vader” que deu corpo intelectual às arengas comicieiras de Trump, foi afastado do NSC, órgão que estrutura as políticas externas e de defesa dos EUA, num episódio que marca à saciedade as lutas intestinas pelo poder no interior da administração e que simboliza o sucesso do Pentágono, como aliás já vislumbrado na proposta de orçamento federal, onde se permitia ser o único ramo do governo com despesas aumentadas.

Ontem, chegou a Washington o presidente Chinês, Xi Jinping, no que se previa como a cimeira mais complexa da actual cena internacional, pois o “Império do Meio” é a prazo a única grande potência que pode rivalizar com as pretensões e alcance global dos EUA, assumindo para já três assuntos cadentes: as questões territoriais no Mar do Sul da China, a contenção à Coreia do Norte e a perspectiva de uma “guerra comercial” pelas constantes tiradas Trumpianas de que Pequim faz “trapaça”.


Quem pensar que Trump ficou emocionado pela visualização de imagens de crianças gaseadas com armas químicas na Síria – supostamente após um ataque das tropas de Bashar Al-Assad à sua própria população – ignora que o conflito dura desde 2011, deslocou quase 5 milhões pessoas e provocou perto de 500 mil mortos, além de ainda acreditar que alguém descerá pela chaminé na noite da consoada.

Nas Relações Internacionais, no comportamento dos Estados e dos seus líderes, não é a comoção que lê os acontecimentos.

O que perdura e impacta é a análise multifactorial do momento, do que está em jogo doméstica e externamente, e do que se pode ganhar com determinado tipo de acção ou omissão.


Dissemos anteriormente que Trump abraça um comportamento político flexível com duas caracterizações maiores, eventualmente contraditórias, mas que se explicam mutuamente: “Imperialismo Isolacionista” e “Excepcionalismo Declinista”.

Para análise da acção na Síria interessa-nos a primeira, onde recordamos algumas asserções.

“Trump não prescindirá do aparato imperial dos EUA de forma a reforçar e beneficiar a sua preferência isolacionista por necessidades internas, gerindo o actual estatuto hegemónico e reforçando a longo prazo a única infalível “deterrence”, a realidade das armas”

“Quando preciso, Trump estenderá o “consenso” que não deixará de ser dominação, e se tal não bastar, a “força bruta” estará ao dispor para corrigir eventuais dissensões”


Agora, articulemos a teoria com a análise dos factos.

Esqueçamos alguns exemplos históricos daquilo que Obama designava de “playbook” da “foreign policy” norte-americana, utilizado desde Roosevelt, seja para justificar entrada em conflitos (Johnson), desviar atenções de casos domésticos (Reagan, Clinton) ou delírios idealistas e universalistas (Bush filho).

Trump está numa miríade de confusões domesticas, vê-se constantemente ligado ao extremismo de Bannon e à “hipótese” Russa, tem os norte-coreanos a comportarem-se como crianças enormes que põem em causa as promessas eleitorais do multimilionário de colocá-los em “sentido” e recepciona o rival Chinês que devia impor juízo a Pyongyang.


O que tiver que acontecer na Síria, sucede devido à confusão, aquilo que Trump classifica como a “mess” que Obama deixou.

O Pentágono (Mattis, McMaster e Kelly) ganhou a luta intestina pelo poder no círculo restrito da administração, é essencialmente russófobo e demonstra-o, a Moscovo e a Teerão.

De uma penada, Trump exerce e amplifica a sua imprevisibilidade na arena internacional, o que deixa aviso ao presidente Chinês, seu convidado em Mar-A-Lago no momento em que Tomahawks destruíam a base Síria.

Trump abre espaço para uma acção de Putin (que não vai ocorrer na Síria) na Europa e nessa altura Washington assobiará para o lado, recordando a conta que o Velho Continente tem por pagar.


Jogar uma peça num tabuleiro instável com múltiplos actores é um risco, que se torna exponencialmente inquietante com a possibilidade de erros em decisões individuais.

No mundo bipolar que opôs EUA e URSS, o risco de conflito directo entre as grandes potências estava “controlado”, mas a sua eventualidade acarretava a guerra total.

A realidade multipolar e competitiva actual, preenchida por um manancial de situações a ocorrer em simultâneo numa torrente informativa providenciada por tecnologias sobre a qual não existe segurança absoluta abre cenários que a teoria não pode abarcar.

Um detalhe pode fazer toda a diferença.


A interpretação que fizemos de Trump e do “Imperialismo Isolacionista” dava-nos razão.

O ataque à Síria é uma estultícia foi alimentada pelo ego pessoal do Presidente e por necessidades internas.

A irreflexão desta atitude, providenciada pelos militares que a maioria julgava serem os “adultos” nesta administração pode abrir uma caixa de Pandora semelhante à dos mísseis de Cuba.


...

Links da Semana


Angola
Excerto de "A Guerra Civil em Angola", de Justin Pearce: http://observador.pt/especiais/guerra-civil-como-angola-foi-dividida-em-1975/

China
Report do SIPRI sobre o relacionamento China-Rússia
A Eurásia de Russos e Chineses: http://valdaiclub.com/files/13795/

França

Hillary Clinton

Islão
Shlomo Ben-Ami, ex- MNE Israelita e a necessidade do Islão político: https://www.project-syndicate.org/commentary/the-need-for-political-islam-by-shlomo-ben-ami-2017-04

Populismo
Sheri Berman e a “força” social do Fascismo: https://aeon.co/ideas/fascism-was-a-right-wing-anti-capitalist-movement
Frank Furedi e a revolta contra as “verdades” das elites: http://www.spiked-online.com/spiked-review/article/a-revolt-against-deference
Steven Lukes e o relativismo moral na época da pós-verdade: http://www.spiked-online.com/spiked-review/article/morals-in-a-post-truth-era
Cas Mudde, a tentativa de encerramento da CEU e como a UE tolera Orban há muito tempo: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/apr/03/eu-tolerated-viktor-orban-hungarian-central-european-university
Relatório da Freedom House, A Falsa promessa do Populismo: https://freedomhouse.org/sites/default/files/NIT2017_booklet_FINAL_0.pdf

Rússia
Richard Sakwa, a proposta de Gorbachev e a ascensão de Putin: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/31/putinism-russia-1989-world-order-rejected
Stiglitz e a análise económica à Rússia actual:

Síria

Trump


Defesa e Política Externa
Michael Mazarr e Hal Brands analisam o novo “ambiente” internacional e a eventual estratégia dos EUA: https://warontherocks.com/2017/04/navigating-great-power-rivalry-in-the-21st-century/
Report do CPA do Council on Foreign Relations sobre como Trump pode trabalhar com a NATO para atenuar as crises com a Russia: http://i.cfr.org/content/publications/attachments/CSR_79_Marten_RussiaNATO.pdf
Trump e o exercício comparado com a abordagem da intelligence britânica face ao Estalinismo: https://warontherocks.com/2017/03/the-intelligence-costs-of-underestimating-russia-a-warning-from-history/
Uma política externa para alavancar a economia nacional: http://www.hoover.org/research/foreign-policy-advance-domestic-economy
Graham Allison, A hipótese de conflito entre os EUA e a China:
A ordem mundial como entendida por Trump, Stewart Patrick na Foreign Affairs: https://www.foreignaffairs.com/articles/world/2017-02-13/trump-and-world-order
https://www.the-american-interest.com/2017/04/07/what-the-syria-strikes-mean/

Jeffrey Goldberg e o fim da doutrina Obama: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/04/the-obama-doctrine-rip/522276/

Crítica ao ataque na Síria: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/president-trumps-syria-strike-was-unconstitutional-and-unwise/522228/


Respostas a Trump

Série de editoriais do LA Times:


“Trumpismo”
Pat Buchanan o “início” da insurreição nos Republicanos: http://www.esquire.com/news-politics/a54275/charge-of-the-right-brigade/

Fukuyama na NPR sobre os perigos que expõem a democracia liberal: http://www.npr.org/2017/04/04/522554630/francis-fukuyama-on-why-liberal-democracy-is-in-trouble


União Europeia
Paper do Egmont, por Sven Biscop, Como a Europa pode salvar a NATO: http://www.egmontinstitute.be/wp-content/uploads/2017/03/SBP83.pdf

TRI/CP
E-book gratuito publicado pela De Gruyter, editado por Robert Wistrich sobre o negacionismo, internacional, da esquerda à direita: http://www.oapen.org/download?type=document&docid=626363




 

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