Quem
segue este Pasquim e leu atentamente os últimos parágrafos do recente texto “Trump, o Centauro” encontra no
Imperialismo Isolacionista uma definição que abarca explicações para o
comportamento internacional do actual Presidente dos EUA.
No
entanto, e face ao bombardeamento de uma base do exército de Assad, convém perspectivarmos
algo mais na actual espuma dos dias.
…
Desde
a sua tomada de posse Trump teve vários constrangimentos.
Foi
derrotado na proposta de substituição do Obamacare e nas ordens executivas que
impediam a entrada de refugiados e imigrantes oriundos de certas geografias.
O
seu nomeado para o Supremo foi objecto de contestação.
Mantém-se
enredado na questão da interferência russa nas eleições, com episódios
rocambolescos a envolver visitas nocturnas à Casa Branca pelo líder Republicano
da comissão que investigava o assunto.
Tudo
isto entre acusações de contra-espionagem por parte de membros da administração
Obama e conluios entre elementos da campanha de Trump e agentes russos,
inclusive com o anúncio de que o ex-Conselheiro de Segurança Nacional, Mike
Flynn, estaria interessado numa delação “premiada”.
Há
uma semana, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley e o Secretario de Estado
Rex Tillerson confirmavam que os EUA já não se focavam na saída de Assad do
poder – ao contrário do que os Europeus sempre defenderam – cabendo ao “povo sírio”
determinar o seu futuro.
Por
esses mesmos dias – e decerto já esquecido neste ruído de informação –
Tillerson reunia-se com os parceiros da NATO, recordava a ameaça russa na Ucrânia
e fazia saber que a protecção norte-americana deve ser paga, recordando aos
incautos outros sinónimos da palavra extorsão.
Há menos
de 48 horas, Steve Bannon, o “Darth Vader” que deu corpo intelectual às arengas
comicieiras de Trump, foi afastado do NSC, órgão que estrutura as políticas
externas e de defesa dos EUA, num episódio que marca à saciedade as lutas
intestinas pelo poder no interior da administração e que simboliza o sucesso do
Pentágono, como aliás já vislumbrado na proposta de orçamento federal, onde se
permitia ser o único ramo do governo com despesas aumentadas.
Ontem,
chegou a Washington o presidente Chinês, Xi Jinping, no que se previa como a
cimeira mais complexa da actual cena internacional, pois o “Império do Meio” é
a prazo a única grande potência que pode rivalizar com as pretensões e alcance
global dos EUA, assumindo para já três assuntos cadentes: as questões territoriais
no Mar do Sul da China, a contenção à Coreia do Norte e a perspectiva de uma “guerra
comercial” pelas constantes tiradas Trumpianas de que Pequim faz “trapaça”.
…
Quem
pensar que Trump ficou emocionado pela visualização de imagens de crianças
gaseadas com armas químicas na Síria – supostamente após um ataque das tropas
de Bashar Al-Assad à sua própria população – ignora que o conflito dura desde
2011, deslocou quase 5 milhões pessoas e provocou perto de 500 mil mortos, além
de ainda acreditar que alguém descerá pela chaminé na noite da consoada.
Nas
Relações Internacionais, no comportamento dos Estados e dos seus líderes, não é
a comoção que lê os acontecimentos.
O
que perdura e impacta é a análise multifactorial do momento, do que está em
jogo doméstica e externamente, e do que se pode ganhar com determinado tipo de acção
ou omissão.
…
Dissemos
anteriormente que Trump abraça um comportamento político flexível com duas caracterizações
maiores, eventualmente contraditórias, mas que se explicam mutuamente: “Imperialismo
Isolacionista” e “Excepcionalismo Declinista”.
Para
análise da acção na Síria interessa-nos a primeira, onde recordamos algumas asserções.
“Trump
não prescindirá do aparato imperial dos EUA de forma a reforçar e beneficiar a
sua preferência isolacionista por necessidades internas, gerindo o actual
estatuto hegemónico e reforçando a longo prazo a única infalível “deterrence”,
a realidade das armas”
“Quando
preciso, Trump estenderá o “consenso” que não deixará de ser dominação, e se
tal não bastar, a “força bruta” estará ao dispor para corrigir eventuais
dissensões”
…
Agora,
articulemos a teoria com a análise dos factos.
Esqueçamos
alguns exemplos históricos daquilo que Obama designava de “playbook” da “foreign policy”
norte-americana, utilizado desde Roosevelt, seja para justificar entrada em
conflitos (Johnson), desviar atenções de casos domésticos (Reagan, Clinton) ou delírios
idealistas e universalistas (Bush filho).
Trump
está numa miríade de confusões domesticas, vê-se constantemente ligado ao
extremismo de Bannon e à “hipótese” Russa, tem os norte-coreanos a
comportarem-se como crianças enormes que põem em causa as promessas eleitorais
do multimilionário de colocá-los em “sentido” e recepciona o rival Chinês que
devia impor juízo a Pyongyang.
…
O
que tiver que acontecer na Síria, sucede devido à confusão, aquilo que Trump
classifica como a “mess” que Obama
deixou.
O Pentágono
(Mattis, McMaster e Kelly) ganhou a luta intestina pelo poder no círculo
restrito da administração, é essencialmente russófobo e demonstra-o, a Moscovo
e a Teerão.
De
uma penada, Trump exerce e amplifica a sua imprevisibilidade na arena
internacional, o que deixa aviso ao presidente Chinês, seu convidado em
Mar-A-Lago no momento em que Tomahawks destruíam a base Síria.
Trump
abre espaço para uma acção de Putin (que não vai ocorrer na Síria) na Europa e
nessa altura Washington assobiará para o lado, recordando a conta que o Velho
Continente tem por pagar.
…
Jogar
uma peça num tabuleiro instável com múltiplos actores é um risco, que se torna
exponencialmente inquietante com a possibilidade de erros em decisões individuais.
No
mundo bipolar que opôs EUA e URSS, o risco de conflito directo entre as grandes
potências estava “controlado”, mas a sua eventualidade acarretava a guerra
total.
A
realidade multipolar e competitiva actual, preenchida por um manancial de situações
a ocorrer em simultâneo numa torrente informativa providenciada por tecnologias
sobre a qual não existe segurança absoluta abre cenários que a teoria não pode
abarcar.
Um
detalhe pode fazer toda a diferença.
…
A interpretação
que fizemos de Trump e do “Imperialismo Isolacionista” dava-nos razão.
O ataque
à Síria é uma estultícia foi alimentada pelo ego pessoal do Presidente e por
necessidades internas.
A
irreflexão desta atitude, providenciada pelos militares que a maioria julgava
serem os “adultos” nesta administração pode abrir uma caixa de Pandora
semelhante à dos mísseis de Cuba.
...
Links da Semana
Angola
Excerto de "A Guerra Civil em Angola", de Justin
Pearce: http://observador.pt/especiais/guerra-civil-como-angola-foi-dividida-em-1975/
China
Report do SIPRI sobre o relacionamento China-Rússia
A Eurásia de Russos e Chineses: http://valdaiclub.com/files/13795/
França
Do IFRI, os desafios diplomáticos do próximo presidente
Francês: https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/ifri_foreign_policy_challenges_next_french_president_2017.pdf
Hillary Clinton
Excerto do livro de Susan Bordo sobre a derrota de Hillary Clinton:
https://www.theguardian.com/us-news/commentisfree/2017/apr/03/the-destruction-of-hillary-clinton-sexism-sanders-and-the-millennial-feminists
Islão
Shlomo Ben-Ami, ex- MNE Israelita e a necessidade do Islão
político: https://www.project-syndicate.org/commentary/the-need-for-political-islam-by-shlomo-ben-ami-2017-04
Populismo
Sheri Berman e a “força” social do Fascismo: https://aeon.co/ideas/fascism-was-a-right-wing-anti-capitalist-movement
Frank Furedi e a revolta contra as “verdades” das elites: http://www.spiked-online.com/spiked-review/article/a-revolt-against-deference
Steven Lukes e o relativismo moral na época da pós-verdade: http://www.spiked-online.com/spiked-review/article/morals-in-a-post-truth-era
Cas Mudde, a tentativa de encerramento da CEU e como a UE
tolera Orban há muito tempo: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/apr/03/eu-tolerated-viktor-orban-hungarian-central-european-university
Relatório da Freedom House, A Falsa promessa do Populismo: https://freedomhouse.org/sites/default/files/NIT2017_booklet_FINAL_0.pdf
Kenneth Rogoff, o crescimento
económico e o populismo: https://www.project-syndicate.org/commentary/global-growth-versus-populism-by-kenneth-rogoff-2017-04
Rússia
Richard Sakwa, a proposta de Gorbachev e a ascensão de
Putin: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/31/putinism-russia-1989-world-order-rejected
Stiglitz e a análise económica à Rússia actual:
Síria
Estudo do Euromesco sobre a Síria pós-conflito: http://www.euromesco.net/images/joint_policy_studies/jps7-future%20of%20syria.pdf
Trump
Entrevista de Trump com o NY Times: https://www.nytimes.com/2017/04/05/us/politics/donald-trump-interview-new-york-times-transcript.html
Defesa e Política Externa
Michael Mazarr e Hal Brands analisam o novo “ambiente”
internacional e a eventual estratégia dos EUA: https://warontherocks.com/2017/04/navigating-great-power-rivalry-in-the-21st-century/
O legado de Woodrow Wilson, e o actual desafio de Trump: https://www.project-syndicate.org/onpoint/america-first-s-first-crack-up-by-tony-smith-2017-03
Report do CPA do Council on Foreign Relations sobre como
Trump pode trabalhar com a NATO para atenuar as crises com a Russia: http://i.cfr.org/content/publications/attachments/CSR_79_Marten_RussiaNATO.pdf
Trump e o exercício comparado com a abordagem da
intelligence britânica face ao Estalinismo: https://warontherocks.com/2017/03/the-intelligence-costs-of-underestimating-russia-a-warning-from-history/
Uma política externa para alavancar a economia nacional: http://www.hoover.org/research/foreign-policy-advance-domestic-economy
O silêncio de Rex Tillerson: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/04/rex-tillerson-state-department/521793/
Graham Allison, A hipótese de conflito entre os EUA e a
China:
A ordem mundial como
entendida por Trump, Stewart Patrick na Foreign Affairs: https://www.foreignaffairs.com/articles/world/2017-02-13/trump-and-world-order
Porque é relevante a despromoção de Bannon no NSC: https://www.washingtonpost.com/blogs/right-turn/wp/2017/04/05/five-reasons-why-bannon-leaving-the-national-security-council-matters
Jeffrey Goldberg e o fim da doutrina Obama: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/04/the-obama-doctrine-rip/522276/
Crítica ao ataque na Síria: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/president-trumps-syria-strike-was-unconstitutional-and-unwise/522228/
Respostas a Trump
Série de editoriais do LA Times:
“Trumpismo”
As comparações entre Trump e Guilherme II: https://www.iiss.org/en/politics%20and%20strategy/blogsections/2017-6dda/march-fa6f/the-emperor-vs-the-adults-heisbourg-4887
Stephen
King sobre Trump: https://www.theguardian.com/us-news/2017/apr/01/stephen-king-on-donald-trump-fictional-voters-truth-about-us-election
Steve
Bannon, o Leninista Alt-right: http://www.newstatesman.com/world/2017/03/alt-right-leninist
Os profetas do Trumpismo: http://www.newstatesman.com/politics/uk/2017/03/prophets-trumpism
Pat Buchanan o “início” da insurreição nos Republicanos: http://www.esquire.com/news-politics/a54275/charge-of-the-right-brigade/
Fukuyama na NPR sobre os perigos que expõem a democracia liberal: http://www.npr.org/2017/04/04/522554630/francis-fukuyama-on-why-liberal-democracy-is-in-trouble
União Europeia
Paper do Egmont, por Sven Biscop, Como a Europa pode salvar
a NATO: http://www.egmontinstitute.be/wp-content/uploads/2017/03/SBP83.pdf
TRI/CP
E-book gratuito publicado pela De Gruyter, editado por
Robert Wistrich sobre o negacionismo, internacional, da esquerda à direita: http://www.oapen.org/download?type=document&docid=626363
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