sexta-feira, 31 de março de 2017

Trump, o Centauro



Donald Trump é um homem de 70 anos, multimilionário, cosmopolita, habituado e indiferente ao crivo da cobertura mediática e ávido de protagonismo.
Nas suas palavras em entrevista à “Playboy”, em 1990:

“O show é “Trump” e está lotado em toda a parte. Divirto-me a fazê-lo e vou continuar a divertir-me, e acho que quase toda a gente gosta”.

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Quando Clarice Sterling pergunta a Hannibal Lecter no "Silêncio dos Inocentes" sobre a essência do “serial killer” que ela pretende capturar, o psiquiatra responde-lhe:
“First principles, Clarice. Simplicity. Read Marcus Aurelius. Of each particular thing ask: what is it in itself? What is its nature? What does he do, this man you seek?”
Apesar da deixa se constituir como uma releitura moderna e criativa de parte do Livro VIII das “Meditações” de Marco Aurélio, o seu intuito no sentido de nos questionarmos sobre a constituição, essência e durabilidade de algo é pertinente.


Utilizamos esta estratégia para tentar perceber o actual Presidente dos EUA e o que é comummente vislumbrado como a sua incoerência e imprevisibilidade, no discurso e nas acções, levando o Senador John McCain (veterano de guerra do Vietname ofendido por Trump e candidato à Casa Branca pelos Republicanos em 2012) a dizer recentemente: “Talvez seja melhor ver o que o Presidente faz do que ele diz”.

Durante a campanha presidencial na qual confrontou Hillary Clinton e nos primeiros dias após a sua vitória, Trump foi apelidado por especialistas de Relações Internacionais, da esquerda à direita, por Realistas e Liberais, de tudo menos de “Anti-Cristo”.
Na imprensa, parangonas foram editadas destacando o seu sexismo e racismo, decretando as habituais comparações com Hitler e Mussolini, com alertas dramáticos e sonoros para a sua demagogia e fanfarronice, autoritarismo e ignorância, sem esquecer a sua adopção da pós-verdade mentirosa.

Antes da tomada de posse apostava-se, em jeito de mistério de fé, que Trump abraçaria a “normalização” do cargo.
Contudo, o discurso proferido nesse dia remeteu-nos para um acto comicieiro e estatuiu “urbi et orbi” uma presidência de contornos proteccionistas, isolacionistas e nacionalistas, avisando os incautos que “America First” e ponto final parágrafo.

Por esta altura, o mundo norte-americano e as suas periferias pareciam já ter esquecido a questão dos impostos não exibidos, as acusações de conduta sexual imprópria, os negócios estranhos do seu conglomerado empresarial, concentrando-se e apostando tudo em evidenciar o eventual conluio com a Rússia de Putin na manipulação dos resultados eleitorais de Dezembro.


Internamente, o exasperante e divertido processo de nomeações para a administração norte-americana, com figuras de segundo relevo em todos os escalões de decisão, excepção feita aos militares escolhidos (Mattis, Kelly e McMaster, depois do errático Flynn ter sido exonerado) demonstra que para Trump (e Bannon) todo o executivo é irrelevante e deve ser gerido de forma corporativa, através da “racionalidade instrumental” da modernidade como diria a Escola de Frankfurt, confirmado à saciedade com a proposta de Orçamento federal que subtrai dinheiro a todos os departamentos, excepção feita à Defesa.

Charles Krauthammer e Francis Fukuyama escreveram recentemente dois artigos em que sustentam que Trump foi “detido” pelos fabulosos (e somente metafóricos, acrescentamos) “checks and balances”, nas diferentes figuras de Tribunais, “media”, Governos Estaduais e Poder Legislativo, dando como exemplo as recentes derrotas ou agruras para a administração em torno do Obamacare, das investigações em redor da influência russa ou na pretensão de impedir a entrada de refugiados e imigrantes.

A miríade destas constelações de refregas em que Trump e os seus se envolvem faz esquecer a tal essencialidade da criatura.
Trump conseguiu fazer esquecer que existe um sistema político, passando a colocar em si o centro Derridiano de tudo, o seu início e o seu término.
O Partido Republicano é uma entidade inexistente, apesar da resistência e vitória pírrica da ala mais radical do Freedom Caucus – leia-se Tea Party – e que Trump conseguirá dilacerar nas próximas primárias dos respectivos senadores, como já fez questão de “tweetar”
O Partido Democrata já só sobrevive em função não de uma agenda própria – dividido que está em “Clintonistas” liberais e “Sandersianos” progressistas – mas em “panic mode” tentando encontrar um movimento de resistência a Trump, que diariamente se dilui, pela sucessiva “normalização” do inquilino da Casa Branca.


Existe uma tendência generalizada em considerar o inquilino da Casa Branca um multimilionário desprovido de pensamento político organizado.
Lamentavelmente temos que notificar o “óbvio ululante” que o actual Presidente, mesmo que oriundo do mundo dos negócios, tem uma coerência intelectual construída há mais de 30 anos, assente numa cosmovisão de um CEO “dealmaker”, mas onde o mais significativo – e largamente ignorado - é a análise do seu apadrinhamento “político” pelo advogado Roy Cohn, assistente do tenebroso Senador McCarthy nos anos 50.

Cohn foi uma figura “maior que a vida” – interpretada genialmente por Al Pacino em “Angels in America” – que se ufanava de ter colocado Ethel Rosenberg na cadeira eléctrica, destruído a vida de dezenas de supostos comunistas em inquéritos de tipo estalinista, além de ser um reconhecido extremista de direita, homossexual “de armário” que se orgulhava da sua homofobia, e um jurista de luxo a soldo de mafiosos ou poderosos sinistros, a quem recomendava litigação constante, com o máximo ruído nos “media” e rendição em tempo algum.


Donald Trump publica “The Art of the Deal” em 1987, dois anos depois paga 100 mil dólares por um op-ed de página inteira no insuspeito e liberal New York Times, e em 1990 fornece uma extensa entrevista à mítica revista “Playboy.

Quem ler qualquer destas peças encontra o homem Trump, o candidato Trump e o presidente Trump, com 30 anos de antecedência e numa época em que o legado de Reagan e a administração Bush pai estavam no seu esplendor, à distancia de meses do fim da Guerra Fria e da superioridade absoluta de “hiper-potência” como Védrine designou certa vez aos EUA.

Mas na sua essência, na sua “constituição”, o que é então Trump?
Ou ainda mais necessário e urgente perceber, o que poderá ser Trump, agora que é Presidente?
Arriscando-nos à nossa também contradição, Trump é (e sempre foi) um Excepcionalista Declinista e um Imperialista Isolacionista.

Trump como Excepcionalista Declinista.

O actual presidente norte-americano considera a América dos anos 40 e 50 do século passado, suburbana e rural, branca e ordeira - uma construção artificial da época de Truman e Einsenhower – como o idílio que pode ser vendido e recapturado para uma narrativa do século 21, diferente do excepcionalismo que vê o país como uma “terra prometida” e singularmente apta a cumprir certos e determinados desígnios universais.

Este excepcionalismo, não benigno porque exclusivista, encontra-se à sombra de um tecido cerzido numa América pretérita e é o elixir que o Republicano oferece como argamassa do que é classificado de forma diversa e consoante as estações de “populismo”, “nativismo”, “autoritarismo light”, “nacional-conservadorismo”.

Quanto ao declínio, já entendido por Obama - nos passos de Gilpin - devido à correcta avaliação da sobrextensão imperial de George W. Bush e do crescimento chinês, que impediriam uma continuada hegemonia unipolar, é visto por Trump somente como uma rendição em duas frentes, aos “free riders” que progrediram economicamente com a sua protecção nuclear, e aos “trapaceiros” (Japão nos anos 80, China e Alemanha actualmente) que pervertem o que ele entende como “comércio justo” e que faz perigar a capacidade de movimentação do poder norte-americano, com consequências para os seus recursos internos.

Em suma, Trump acredita numa América que “não” existe e que está cerceada no seu exercício face a um mundo que é real.
Por isso, é também um Imperialista Isolacionista.


O Imperialismo Isolacionista.
Se há coisa com que Trump não se preocupa é com o Sistema Internacional.
A sua visão passa essencialmente por ser reeleito e se possível entregar a nomeação presidencial a um dos seus filhos, até devido ao valor extremo que atribui à lealdade.
Para isso, a estratégia seguida nas eleições, com impacto “local” é fulcral.
Assumem mais relevo sondagens e eleições no Michigan, na Pennsylvania ou no Wisconsin do que aquilo que suceda em Londres, Bruxelas ou Pequim.

Nos EUA a construção das circunscrições eleitorais (“gerrymandering”) é de tal forma constrangedora, que é possível, com um grau de certeza relativo prever senadores, congressistas e governadores.

Trump ganhou as presidenciais – mesmo que esmagado no voto popular – pela táctica brilhante de conquistar o Colégio Eleitoral, auxiliado pela imaginação analítica do programador e multimilionário Robert Mercer (que teve durante anos como conselheiro Steve Bannon) e que investiu também no Brexit de Farage.

O sistema internacional preocupa Trump na medida em que lhe subtraia tempo e energias para alterar definitivamente o panorama político norte-americano.
Apesar de constantemente parametrizado em torno de uma herança Jacksoniana (como faz questão de sublinhar Walter Russell Mead e boa parte da academia), Trump é-lhe de todo indiferente, pois nunca destacou tal nos seus escritos ou discursos anteriores a esta reciclagem que Bannon intenta.


O mundo que rodeia o Presidente dos EUA tem contudo duas certezas.
Os EUA não querem saber dele, mas não cederão a ninguém o seu papel de líder ausente.
Putin, Xi e Merkel podem satisfazer-se em desenhar ordens regionais de influência, desde que todas se articulem com Trump.
Como referiram recentemente, em artigo no “Project Syndicate”, Adelman e Delatte, não está em causa a globalização, antes os modelos de integração, de um lado multilateral e internacionalista, do outro, bilateral e imperial.
Esta última terá a preferência da administração norte-americana, de forma casuística, obedecendo a critérios de “soma zero”, exibindo o seu “hard power”, sempre que necessário.


Nicolau Maquiavel escreveu:
“Deveis, portanto, saber como são os dois os géneros de combate: um com as leis, outro com a força. O primeiro é próprio do homem, e o segundo dos animais, mas porque o primeiro muitas vezes não basta, convém recorrer ao segundo: portanto, a um príncipe é necessário saber usar o animal e o homem.”

Daí a mítica figura do Centauro que quer Gramsci quer Pareto, em contextos intelectuais diferenciados, utilizaram para definir o soberano no Estado Moderno.

Trump não prescindirá do aparato imperial dos EUA de forma a reforçar e beneficiar a sua preferência isolacionista por necessidades internas, gerindo o actual estatuto hegemónico e reforçando a longo prazo a única infalível “deterrence”, a realidade das armas.

Ademais, sabe que internamente basta investir cirurgicamente em certas geografias, contentar grupos circunstanciais e encontrar de quando em vez um inimigo habitual do seu leque de preferidos para gáudio da populaça, num excepcionalismo “a la carte” que mais não fará do que contribuir para o declínio social e económico aí sim, efectivo, dos EUA.

Quando preciso, Trump estenderá o “consenso” que não deixará de ser dominação, e se tal não bastar, a “força bruta” estará ao dispor para corrigir eventuais dissensões.

Trump fez a quadratura do círculo.
E para tal, não teve que impor uma ditadura nem construir campos de concentração.
Bastou ler um florentino do século 15, mesmo que pela voz de Steve Bannon.


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Links da Semana

Bielorrússia
e a Bielorrússia entre a democracia e a “última ditadura”:  https://www.washingtonpost.com/news/democracy-post/wp/2017/03/25/why-europes-last-dictatorship-keeps-surprising-everyone

China
A estratégia chinesa para derrotar um oponente tecnologicamente superior:
Chas Freeman, Recontextualizar a China na ordem internacional: http://lobelog.com/reimagining-china-and-asia/#more-38618
Gideon Rachman na The Atlantic, Como será uma ordem internacional dominada pela China: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/03/donald-trump-china-rachman/521055/

Israel-Palestina

Rússia
A Rússia e a reconfiguração do seu poder no Médio Oriente:
Dmitri Trenin, Putin é o que a Rússia for, e vice-versa:
Entrevista da National Interest com Serguei Lavrov, Ucrânia, Síria, a eleição norte-americana e a cooperação com os EUA: http://nationalinterest.org/feature/sergey-lavrov-the-interview-19940

Terrorismo
Sobre o ataque em Westminster, como distinguir violência ideológica da raiva sociopática: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/26/distinguish-violence-driven-by-ideology-from-sociopathic-rage
Theodore Dalrymple e a sua visão da ameaça terrorista:
Antigo conselheiro de politica externa de Ytzahk Rabin sobre a forma como os Chineses encaram o Islamismo Radical: http://jcpa.org/article/chinese-approach-radical-islam/

A “dawa” antes da “jihad”, Niall Ferguson: http://www.bostonglobe.com/opinion/2017/03/27/what-comes-before-jihad/WoSLmhqXIIjvHURZsgns8H/story.html

E se o ataque de Londres não foi um acto terrorista?:


Trump

Administração
Os Republicanos que estão contra Trump leram “A arte do negócio”:
Trump quer gerir os EUA como uma empresa e encarrega o genro dessa tarefa:
O NY Times aborda a prossecução da agenda legislativa de Trump, após a sua derrota no “Trumpcare”

Defesa e Política Externa

Colin Dueck e a diplomacia de “cowboy”: http://www.claremont.org/crb/basicpage/cowboy-diplomacy/

Trump e a economia mundial em colisão: http://www.spiegel.de/international/business/trump-steers-into-global-economy-collision-course-a-1140630.html#ref=nl-international

Stephen Walt e os EUA no Afeganistão: http://foreignpolicy.com/2017/03/28/mission-accomplished-will-never-come-in-afghanistan-taliban-al-qaeda-trump/

Relatório do CSIS sobre as relações entre EUA e a Rússia:

“Trumpismo”
Pippa Norris, o apelo de Trump é na divisão cultural, não económica: http://www.vox.com/conversations/2017/3/27/15037232/trump-populist-appeal-culture-economy
Chmosky preocupado com tentações de Trump em criar uma “false flag”:

TRI/CP
Dois géneros de Globalização em confronto:

Publicação do DIIS: “New Conflict dynamics, Between Regional Autonomy and Intervention in the Middle East and North Africa”:http://pure.diis.dk/ws/files/830699/2017_DIIS_New_Conflict_Dynamics_in_the_Middle_East_and_North_Africa_web.pdf

 

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