Donald Trump é um homem de 70
anos, multimilionário, cosmopolita, habituado e indiferente ao crivo da
cobertura mediática e ávido de protagonismo.
Nas suas palavras em entrevista
à “Playboy”, em 1990:
“O show é “Trump” e está lotado em toda a parte. Divirto-me a fazê-lo e
vou continuar a divertir-me, e acho que quase toda a gente gosta”.
...
Quando
Clarice Sterling pergunta a Hannibal Lecter no "Silêncio dos Inocentes" sobre a essência do “serial killer” que ela pretende
capturar, o psiquiatra responde-lhe:
“First principles, Clarice. Simplicity. Read
Marcus Aurelius. Of each particular thing ask: what is it in itself? What is
its nature? What does he do, this man you seek?”
Apesar da deixa se constituir
como uma releitura moderna e criativa de parte do Livro VIII das “Meditações”
de Marco Aurélio, o seu intuito no sentido de nos questionarmos sobre a
constituição, essência e durabilidade de algo é pertinente.
…
Utilizamos esta estratégia para tentar perceber o actual
Presidente dos EUA e o que é comummente vislumbrado como a sua incoerência e
imprevisibilidade, no discurso e nas acções, levando o Senador John McCain
(veterano de guerra do Vietname ofendido por Trump e candidato à Casa Branca
pelos Republicanos em 2012) a dizer recentemente: “Talvez seja melhor ver o que
o Presidente faz do que ele diz”.
Durante a campanha presidencial na qual confrontou Hillary
Clinton e nos primeiros dias após a sua vitória, Trump foi apelidado por
especialistas de Relações Internacionais, da esquerda à direita, por Realistas e
Liberais, de tudo menos de “Anti-Cristo”.
Na imprensa, parangonas foram editadas destacando o seu
sexismo e racismo, decretando as habituais comparações com Hitler e Mussolini, com
alertas dramáticos e sonoros para a sua demagogia e fanfarronice, autoritarismo
e ignorância, sem esquecer a sua adopção da pós-verdade mentirosa.
Antes da tomada de posse apostava-se, em jeito de mistério de
fé, que Trump abraçaria a “normalização” do cargo.
Contudo, o discurso proferido nesse dia remeteu-nos para um acto
comicieiro e estatuiu “urbi et orbi”
uma presidência de contornos proteccionistas, isolacionistas e nacionalistas,
avisando os incautos que “America First” e ponto final parágrafo.
Por esta altura, o mundo norte-americano e as suas periferias
pareciam já ter esquecido a questão dos impostos não exibidos, as acusações de
conduta sexual imprópria, os negócios estranhos do seu conglomerado
empresarial, concentrando-se e apostando tudo em evidenciar o eventual conluio
com a Rússia de Putin na manipulação dos resultados eleitorais de Dezembro.
…
Internamente, o exasperante e divertido processo de nomeações
para a administração norte-americana, com figuras de segundo relevo em todos os
escalões de decisão, excepção feita aos militares escolhidos (Mattis, Kelly e
McMaster, depois do errático Flynn ter sido exonerado) demonstra que para Trump
(e Bannon) todo o executivo é irrelevante e deve ser gerido de forma
corporativa, através da “racionalidade instrumental” da modernidade como diria
a Escola de Frankfurt, confirmado à saciedade com a proposta de Orçamento
federal que subtrai dinheiro a todos os departamentos, excepção feita à Defesa.
Charles
Krauthammer e Francis Fukuyama escreveram recentemente dois artigos em que sustentam
que Trump foi “detido” pelos fabulosos (e somente metafóricos, acrescentamos) “checks and balances”, nas diferentes
figuras de Tribunais, “media”,
Governos Estaduais e Poder Legislativo, dando como exemplo as recentes derrotas
ou agruras para a administração em torno do Obamacare, das investigações em
redor da influência russa ou na pretensão de impedir a entrada de refugiados e
imigrantes.
A miríade
destas constelações de refregas em que Trump e os seus se envolvem faz esquecer
a tal essencialidade da criatura.
Trump
conseguiu fazer esquecer que existe um sistema político, passando a colocar em
si o centro Derridiano de tudo, o seu início e o seu término.
O
Partido Republicano é uma entidade inexistente, apesar da resistência e vitória
pírrica da ala mais radical do Freedom
Caucus – leia-se Tea Party – e que
Trump conseguirá dilacerar nas próximas primárias dos respectivos senadores,
como já fez questão de “tweetar”
O
Partido Democrata já só sobrevive em função não de uma agenda própria – dividido
que está em “Clintonistas” liberais e “Sandersianos” progressistas – mas em “panic mode” tentando encontrar um
movimento de resistência a Trump, que diariamente se dilui, pela sucessiva “normalização”
do inquilino da Casa Branca.
…
Existe uma tendência generalizada em considerar o inquilino da
Casa Branca um multimilionário desprovido de pensamento político organizado.
Lamentavelmente temos que notificar o “óbvio ululante” que o
actual Presidente, mesmo que oriundo do mundo dos negócios, tem uma coerência
intelectual construída há mais de 30 anos, assente numa cosmovisão de um CEO “dealmaker”, mas onde o mais
significativo – e largamente ignorado - é a análise do seu apadrinhamento
“político” pelo advogado Roy Cohn, assistente do tenebroso Senador McCarthy nos
anos 50.
Cohn foi uma figura “maior que a vida” – interpretada
genialmente por Al Pacino em “Angels in
America” – que se ufanava de ter colocado Ethel Rosenberg na cadeira
eléctrica, destruído a vida de dezenas de supostos comunistas em inquéritos de
tipo estalinista, além de ser um reconhecido extremista de direita, homossexual
“de armário” que se orgulhava da sua homofobia, e um jurista de luxo a soldo de
mafiosos ou poderosos sinistros, a quem recomendava litigação constante, com o
máximo ruído nos “media” e rendição
em tempo algum.
…
Donald Trump publica “The
Art of the Deal” em 1987, dois anos depois paga 100 mil dólares por um op-ed de página inteira no insuspeito e
liberal New York Times, e em 1990 fornece uma extensa entrevista à mítica
revista “Playboy.
Quem ler qualquer destas peças encontra o homem Trump, o
candidato Trump e o presidente Trump, com 30 anos de antecedência e numa época
em que o legado de Reagan e a administração Bush pai estavam no seu esplendor,
à distancia de meses do fim da Guerra Fria e da superioridade absoluta de
“hiper-potência” como Védrine designou certa vez aos EUA.
Mas na sua essência, na sua “constituição”, o que é então
Trump?
Ou ainda mais necessário e urgente perceber, o que poderá ser
Trump, agora que é Presidente?
Arriscando-nos à
nossa também contradição, Trump é (e sempre foi) um Excepcionalista Declinista
e um Imperialista Isolacionista.
…
Trump como Excepcionalista Declinista.
O actual presidente norte-americano considera a América dos
anos 40 e 50 do século passado, suburbana e rural, branca e ordeira - uma
construção artificial da época de Truman e Einsenhower – como o idílio que pode
ser vendido e recapturado para uma narrativa do século 21, diferente do
excepcionalismo que vê o país como uma “terra prometida” e singularmente apta a
cumprir certos e determinados desígnios universais.
Este excepcionalismo, não benigno porque exclusivista,
encontra-se à sombra de um tecido cerzido numa América pretérita e é o elixir
que o Republicano oferece como argamassa do que é classificado de forma diversa
e consoante as estações de “populismo”, “nativismo”, “autoritarismo light”, “nacional-conservadorismo”.
Quanto ao declínio, já entendido por Obama - nos passos de
Gilpin - devido à correcta avaliação da sobrextensão imperial de George W. Bush
e do crescimento chinês, que impediriam uma continuada hegemonia unipolar, é
visto por Trump somente como uma rendição em duas frentes, aos “free riders” que progrediram
economicamente com a sua protecção nuclear, e aos “trapaceiros” (Japão nos anos
80, China e Alemanha actualmente) que pervertem o que ele entende como
“comércio justo” e que faz perigar a capacidade de movimentação do poder
norte-americano, com consequências para os seus recursos internos.
Em suma, Trump acredita numa América que “não” existe e que
está cerceada no seu exercício face a um mundo que é real.
Por isso, é também um Imperialista Isolacionista.
…
O
Imperialismo Isolacionista.
Se
há coisa com que Trump não se preocupa é com o Sistema Internacional.
A
sua visão passa essencialmente por ser reeleito e se possível entregar a
nomeação presidencial a um dos seus filhos, até devido ao valor extremo que
atribui à lealdade.
Para
isso, a estratégia seguida nas eleições, com impacto “local” é fulcral.
Assumem
mais relevo sondagens e eleições no Michigan, na Pennsylvania ou no Wisconsin
do que aquilo que suceda em Londres, Bruxelas ou Pequim.
Nos
EUA a construção das circunscrições eleitorais (“gerrymandering”) é de tal forma constrangedora, que é possível,
com um grau de certeza relativo prever senadores, congressistas e governadores.
Trump
ganhou as presidenciais – mesmo que esmagado no voto popular – pela táctica
brilhante de conquistar o Colégio Eleitoral, auxiliado pela imaginação
analítica do programador e multimilionário Robert Mercer (que teve durante anos
como conselheiro Steve Bannon) e que investiu também no Brexit de Farage.
O
sistema internacional preocupa Trump na medida em que lhe subtraia tempo e
energias para alterar definitivamente o panorama político norte-americano.
Apesar
de constantemente parametrizado em torno de uma herança Jacksoniana (como faz
questão de sublinhar Walter Russell Mead e boa parte da academia), Trump é-lhe de
todo indiferente, pois nunca destacou tal nos seus escritos ou discursos
anteriores a esta reciclagem que Bannon intenta.
…
O
mundo que rodeia o Presidente dos EUA tem contudo duas certezas.
Os
EUA não querem saber dele, mas não cederão a ninguém o seu papel de líder
ausente.
Putin,
Xi e Merkel podem satisfazer-se em desenhar ordens regionais de influência,
desde que todas se articulem com Trump.
Como
referiram recentemente, em artigo no “Project Syndicate”, Adelman e Delatte, não
está em causa a globalização, antes os modelos de integração, de um lado
multilateral e internacionalista, do outro, bilateral e imperial.
Esta
última terá a preferência da administração norte-americana, de forma
casuística, obedecendo a critérios de “soma zero”, exibindo o seu “hard power”, sempre que necessário.
…
Nicolau
Maquiavel escreveu:
“Deveis, portanto, saber como são os dois os
géneros de combate: um com as leis, outro com a força. O primeiro é próprio do
homem, e o segundo dos animais, mas porque o primeiro muitas vezes não basta,
convém recorrer ao segundo: portanto, a um príncipe é necessário saber usar o
animal e o homem.”
Daí
a mítica figura do Centauro que quer Gramsci quer Pareto, em contextos intelectuais
diferenciados, utilizaram para definir o soberano no Estado Moderno.
Trump
não prescindirá do aparato imperial dos EUA de forma a reforçar e beneficiar a
sua preferência isolacionista por necessidades internas, gerindo o actual
estatuto hegemónico e reforçando a longo prazo a única infalível “deterrence”, a realidade das armas.
Ademais,
sabe que internamente basta investir cirurgicamente em certas geografias,
contentar grupos circunstanciais e encontrar de quando em vez um inimigo
habitual do seu leque de preferidos para gáudio da populaça, num excepcionalismo
“a la carte” que mais não fará do que
contribuir para o declínio social e económico aí sim, efectivo, dos EUA.
Quando
preciso, Trump estenderá o “consenso” que não deixará de ser dominação, e se
tal não bastar, a “força bruta” estará ao dispor para corrigir eventuais
dissensões.
Trump
fez a quadratura do círculo.
E
para tal, não teve que impor uma ditadura nem construir campos de concentração.
Bastou
ler um florentino do século 15, mesmo que pela voz de Steve Bannon.
...
Links da Semana
Bielorrússia
e a Bielorrússia entre a democracia e a “última
ditadura”: https://www.washingtonpost.com/news/democracy-post/wp/2017/03/25/why-europes-last-dictatorship-keeps-surprising-everyone
China
A estratégia chinesa para derrotar um oponente
tecnologicamente superior:
Chas Freeman, Recontextualizar a China na ordem
internacional: http://lobelog.com/reimagining-china-and-asia/#more-38618
Os milhões que a China gasta para “gostarem” dela: http://www.economist.com/news/china/21719508-can-money-buy-sort-thing-china-spending-billions-make-world-love-it
Gideon Rachman na The Atlantic, Como será uma ordem
internacional dominada pela China: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/03/donald-trump-china-rachman/521055/
Israel-Palestina
George Steiner fala sobre
o seu anti-zionismo e Israel: http://forward.com/culture/367139/you-really-need-to-read-this-terrific-interview-with-george-steiner/
Rússia
Relatório do ELN sobre como evitar uma crise entre o
Ocidente e a Rússia: http://www.europeanleadershipnetwork.org/medialibrary/2017/03/24/61a85585/170320%20Defusing%20future%20crises%20in%20the%20shared%20neighbourhood.pdf
A Rússia e a reconfiguração do seu poder no Médio Oriente:
Dmitri Trenin, Putin é o que a Rússia for, e vice-versa:
Entrevista da National Interest com Serguei Lavrov,
Ucrânia, Síria, a eleição norte-americana e a cooperação com os EUA: http://nationalinterest.org/feature/sergey-lavrov-the-interview-19940
Terrorismo
Sobre o ataque em
Westminster, como distinguir violência ideológica da raiva sociopática: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/26/distinguish-violence-driven-by-ideology-from-sociopathic-rage
O ataque de
Westminster e a reivindicação do ISIS: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/03/isis-london-claim/520569/
Theodore Dalrymple e a sua visão da
ameaça terrorista:
Antigo conselheiro de politica externa de Ytzahk Rabin sobre
a forma como os Chineses encaram o Islamismo Radical: http://jcpa.org/article/chinese-approach-radical-islam/
A “dawa” antes da “jihad”, Niall Ferguson: http://www.bostonglobe.com/opinion/2017/03/27/what-comes-before-jihad/WoSLmhqXIIjvHURZsgns8H/story.html
E se o ataque de Londres não foi um acto terrorista?:
O mito do terrorista “lone wolf”: https://www.theguardian.com/news/2017/mar/30/myth-lone-wolf-terrorist
Trump
Administração
Os Republicanos que estão contra Trump leram “A arte do
negócio”:
Francis Fukuyama elogia os “checks and balances”: http://www.politico.com/magazine/story/2017/03/trumps-a-dictator-he-cant-even-repeal-obamacare-214958
Trump quer gerir os EUA como uma empresa e encarrega o
genro dessa tarefa:
O NY Times aborda a prossecução da
agenda legislativa de Trump, após a sua derrota no “Trumpcare”
Defesa e Política Externa
Colin Dueck e a diplomacia de “cowboy”: http://www.claremont.org/crb/basicpage/cowboy-diplomacy/
Trump e a economia mundial em colisão: http://www.spiegel.de/international/business/trump-steers-into-global-economy-collision-course-a-1140630.html#ref=nl-international
Stephen Walt e os EUA no Afeganistão: http://foreignpolicy.com/2017/03/28/mission-accomplished-will-never-come-in-afghanistan-taliban-al-qaeda-trump/
Relatório do CSIS
sobre as relações entre EUA e a Rússia:
“Trumpismo”
As várias Américas dentro das “duas” Américas: http://nymag.com/scienceofus/2017/03/lets-add-some-nuance-to-the-two-americas-narrative.html?mid=twitter_nymag
Pippa Norris, o apelo de Trump é na divisão cultural, não
económica: http://www.vox.com/conversations/2017/3/27/15037232/trump-populist-appeal-culture-economy
Farage contratado para “criar” 2
Califórnias: http://www.salon.com/2017/03/27/brexit-engineer-nigel-farage-hired-to-promote-effort-to-break-california-in-two
Chmosky preocupado com tentações de
Trump em criar uma “false flag”:
TRI/CP
Dois géneros de Globalização em confronto:
Publicação do DIIS: “New Conflict dynamics, Between Regional Autonomy and Intervention in the Middle East and North Africa”:http://pure.diis.dk/ws/files/830699/2017_DIIS_New_Conflict_Dynamics_in_the_Middle_East_and_North_Africa_web.pdf
Análise das razões pelas quais os países “retornam” à
guerra: https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2017/03/29/why-do-countries-relapse-into-war-here-are-three-good-predictors/
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