sexta-feira, 14 de abril de 2017

Trump e a candidatura de 2016



Os acasos que se dão nas arenas políticas nacionais e internacionais não existem.



As coisas em si, mesmo que num enquadramento Platónico ou Hegeliano, ou dos outros quinhentos autores que vislumbram na História um progresso constante num racional que caminha para a felicidade suprema da Humanidade, são como pareidolias que julgamos encontrar nas nuvens.



A fascinação ora com estruturas históricas e sociais ora com a negação das mesmas apostando antes na agência individual e a discussão em torno da importância que a Filosofia da Ciência atribui a estes significados, fazem-nos esquecer os inúmeros “game changers” a que estamos sujeitos, e que não se sujeitam a construções académicas que tentam captar sistematicamente toda a realidade em teorias parcimoniosas.






Assim e na sequência do muito que se tem escrito sobre Trump, convém esclarecer um tema que não tem merecido atenção suficiente nas milhentas abordagens que se fazem em torno do actual Presidente dos EUA.



Se já anteriormente tentámos identificar o percurso intelectual do multimilionário e a agenda que visa implementar, antagonizando algum do consenso que faz do inquilino da Casa Branca um mero vilão acéfalo, faltou-nos contudo responder a algo que é imprescindível para continuarmos este exercício de compreensão trumpiano.






O que levou um homem de 70 anos, multimilionário e cosmopolita a candidatar-se à Presidência da República?

Em 16 de Junho de 2015, dia desse anúncio em discurso na Trump Tower (profetizado anos antes num episódio dos “Simpsons”) foram avançadas várias hipóteses.

Um abraçar radical do discurso do Tea Party, um chamamento da América profunda e escondida que detesta Washington como escreveu Levin, a resposta ao declínio internacional dos anos Obama, uma irascível resposta ao politicamente correcto ou a oportunidade única de derrotar uma mulher elitista liberal.






Lamentamos mais uma vez desagradar quer aos que ainda procuram respostas para a vitória Trumpiana (sociológica, económica, estatística) quer aqueles que tentam e desejam uma resistência instrumental face aos factos, como se a actual administração fosse cair devido a uma eventual delação de Mike Flynn (que não vai existir), a um levantamento popular em massa (que já se viu ninguém – Partido Democrata - ter paciência ou talento para executar) ou à evidencia e confrontação da “realidade” (e que tal como as anteriores não se deu).






Donald Trump candidatou-se de forma efectiva em 2016 porque nunca teria oportunidades concretas de ganhar antes.



Esta é a resposta factual, e axiomaticamente simples, à questão efectuada.

Mas dissequemos os pontos que validam esta asserção.






O multimilionário de Nova Iorque ensaiou concorrer a primárias em 2000 pelo Partido Reformista (um dos inúmeros “terceiros partidos” que pululam nos EUA) e várias “brincadeiras” prospectivas em 1988, 2004 e 2012.

Em todas estas promessas políticas Trump surgiu com boas sondagens e significativa capacidade económica para concretizar essas intenções em qualquer embrião partidário com um relativo grau de sucesso, pelo menos para aparecer nos boletins de voto.

Mas ao contrário do que se julga, Trump não é um desequilibrado cata-vento, antes um poderoso avaliador dos momentos, sejam económicos ou políticos.

Consideremos então os contextos e percebamos mais um pouco de como funciona a cabeça do Presidente.






Nos últimos 40 anos, a única anomalia que surgiu nas eleições presidenciais norte-americanas foi a vitória do Democrata Bill Clinton, quando se confrontou com a recandidatura de um presidente em exercício, George Bush, em 1992.

Essa irregularidade deveu-se aos números conseguidos por Ross Perot que “roubaram” votos ao ex-vice de Reagan.

Exceptuando este episódio sísmico o tempo demonstra à saciedade uma estratégia de apresentar recandidaturas com sucesso (Reagan, Clinton, Bush filho e Obama) ou não (Carter) e adversários que ora foram vices das administrações anteriores (Mondale, Bush pai, Gore) ora saídos do “establishment” (Dukakis, Dole, Kerry, Romney e McCain).






Donald Trump teve intenções exploratórias em 1988, 2000, 2004 e 2012.



Em 1988, quem concorreu pelos Republicanos foi George Bush pai, vice-presidente cinzento em dois mandatos do expansivo e mítico Reagan, a quem se adivinhou desde cedo a vitória face ao liberal do Massachusetts, Michael Dukakis, que foi esmagado em 40 Estados.



Em 2000, Trump tentou descobrir se o ambiente que Perot havia lançado em 1996 teria alguma onda que lhe permitisse cavalgar em 2002, onde se digladiariam Bush filho e Al Gore.

Nessa candidatura, Trump chegou a desejar Oprah Winfrey como Vice e fez comparações entre Hitler e o seu rival interno nas primárias do Reform Party, o paleoconservador Pat Buchanan que anos antes tinha emulado um discurso ao estilo de Enoch Powell em plena Convenção Republicana.

No entanto, os campos Republicano e Democrata estavam unidos em torno dos seus candidatos “institucionais”, um Bush filho que com toda a estrutura partidária e de “foreign policy” derrotou na altura um “maverick” chamado John McCain e um vice-presidente de Clinton, sem charme nem graça, Al Gore, interessado em salvar o mundo e o universo e apaixonado pelas novas tecnologias, mas incapaz de dar um beijo com convicção apaixonada à mulher no fecho da Convenção democrata, em cena que marcou de forma indelével a sua imagem como um autêntico “stiff”.






Em 2004 e 2012, quer George W. Bush quer Barack Obama recandidataram-se.



Nos respectivos campos rivais surgiram figuras que em seu torno exibiam o pleno interno concordando com a sua agenda, demonstrando que desde Clinton, o poder estava de facto concentrado num campo muito delimitado de escolhas e alternativas, inibindo qualquer tentativa agencial de disrupção, como apenas podemos encontrar na vitória de Obama face a Hillary Clinton, nas primárias dos Democratas em 2008.






Chegamos então a 2016.

Joe Biden, vice-presidente de Obama, não apresentou por razões pessoais a sua candidatura, e o partido da “esquerda” norte-americana ficou dividido em duas frentes.

Uma liberal-institucional representada por Hillary Clinton e outra populista-progressista do veterano senador socialista Bernie Sanders.

O campo republicano era então a única e a última hipótese que Trump tinha efectivamente de se candidatar a Presidente dos EUA.

E de o fazer com sucesso.






O Partido Republicano após a derrota de 2012, realizou um estudo em jeito de “autópsia política” para perceber o que motivou a derrota em duas eleições presidenciais e como desmanchar uma narrativa consolidada na qual o GOP estaria inexoravelmente entrincheirado em perdas sucessivas e constantes, devido à mudança demográfica nacional.

Esse plano previa mudanças estruturais na abordagem política promovendo apelos às minorias étnicas, deixar de marginalizar como anátemas os temas sociais fracturantes, e reformular a imagem eterna de “country club” que a elite republicana representava.






Mas o Partido Republicano que existia em 2016 tinha no seu “bas-fond” figuras como o senador conservador Jeff Sessions e o padrinho da tenebrosa “alt-right” Steve Bannon que em várias sessões de “brain storming” perspectivaram a marcha fúnebre para o relatório que patrocinava um GOP mais distendido e inclusivo.



A captação do voto branco (ausente em 2012 e apto a ser articulado face aos descontentamentos económicos, sociais e culturais de vastas comunidades que inclusive votaram em Obama) e a construção de um enredo que agregasse o apogeu de um excepcionalismo norte-americano de cariz exclusivista e o reconhecimento de uma degradação do papel dos EUA no mundo (reforçando o papel dos “neocon” da administração Bush) adicionados ao ódio visceral que a população (dividindo até o eleitorado Democrata) tinha para com Hillary, esperavam um candidato no partido que já fora de Abraham Lincoln e Ronald Reagan.






O campo republicano acentuava uma clara viragem do “compassionate conservatism” de Bush filho e liquidou toda e qualquer herança da sobrextensão imperial (mesmo que em jeito de promoção democrática universal e “regime change”) que Cheney e Rumsfeld desenharam, permitindo que uma vasta gama de candidatos surgisse.



Nessa amálgama que exibiu republicanos de todos os quadrantes feitios, o momento era propício para Trump dilacerar o “status quo”, derrotar um frágil Jeb Bush (“o” candidato) ou promessas como Rubio e Cruz, cuidando de impedir que os sucessivos desistentes atassem uma resistência conjunta tais as feridas que se abriam, além de beneficiar dos milhões e recursos científicos de Bob Mercer.






Não foi necessária uma extensa leitura política nem estragarmos a nossa reputação para a posteridade (como o fez Maquiavel, escrevendo sobre absolutas verdades) de forma a considerar na candidatura de Trump uma junção de avaliação do momento e critério de oportunidade.

Não existe grande mistério, nem decerto (embora plausível, duvidamos) “empurrão” russo, menos ainda uma adaptação ideológica ao contexto nacional (Trump teve os mesmos, de forma heterodoxa durante décadas).

A verdade é lamentavelmente, menos atraente.

Mas melhor compreendida para quem vive e vê o mundo como um negócio.

Momento e oportunidade.

Nada mais.





...


Links da Semana



Coreia do Norte

John Feffer sobre o que quer (ou pode) Kim Jong Un: http://lobelog.com/what-does-kim-jong-un-want/#more-38841



França

As escolhas e decisões em matéria de Defesa para o próximo presidente Francês:




Populismo


A morte não anunciada da Democracia, Carothers e Youngs na Foreign Affairs:




Rússia






Síria

A família Assad e a sua relação com 9 presidentes dos EUA:




Trump



Administração





Defesa e Política Externa



Graham Allison, Podem os EUA e a China escapar à “armadilha tucidideana”: http://nationalinterest.org/feature/how-america-china-could-stumble-war-20150

Tiago Moreira de Sá e o que pode a administração Trump fazer face à ameaça da Coreia do Norte: https://www.publico.pt/2017/04/14/mundo/noticia/coreia-do-norte-o-rato-que-ruge-1768697

Gideon Rachman no Finantial Times, como a “bolha” de Washington engoliu Trump: https://www.ft.com/content/633daa7a-1dc5-11e7-b7d3-163f5a7f229c (ver em janela privada no browser)

Paul Pillar e a intervenção de Trump na Siria: http://lobelog.com/syria-and-the-call-of-the-quagmire/#more-38754

A acção de Trump na Síria visa silenciar críticas internas: https://www.thenation.com/article/six-thoughts-on-the-us-bombing-of-syria/



7 notas sobre o ataque de Trump à Síria, por David Frum, ex-speechwriter de W. Bush: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/seven-lessons-from-trumps-syria-strike/522327/



Assessor de Trump defende partição da Líbia em três regiões: https://www.theguardian.com/world/2017/apr/10/libya-partition-trump-administration-sebastian-gorka

Fyodor Lukyanov e o cada vez mais expectável conflito entre os Estados Unidos e a Rússia na Síria: http://www.huffingtonpost.com/entry/us-russia-conflict-syria_us_58ebfeafe4b0df7e2044a210?al&section=us_world


A política externa imprevisível (incoerente para os aliados) de Trump:


Report do Bipartisan Policy Center, “Princípios para uma nova estratégia dos EUA no Médio Oriente”: https://bipartisanpolicy.org/wp-content/uploads/2017/04/Seeking-Stability-at-Sustainable-Cost.pdf



Turquia

A junção na Turquia de Erdogan entre o AKP, o Governo e o Estado turco: http://internacional.elpais.com/internacional/2017/04/06/actualidad/1491491612_518593.html



União Europeia

Moravcsik acredita e tenta evidenciar que a Europa ainda é uma superpotência: http://foreignpolicy.com/2017/04/13/europe-is-still-a-superpower




TRI/CP


Reimaginar o Médio Oriente, por Chas Freeman ex-embaixador na Arábia Saudita: http://lobelog.com/reimagining-the-middle-east-2/

Quatro conflitos (Nigéria, Sudão do Sul, Iémen e Somália) que põem 20 milhões em risco de morrer à fome: https://www.washingtonpost.com/graphics/world/2017-famines/?utm_term=.75345009f187
 


 



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