Os
acasos que se dão nas arenas políticas nacionais e internacionais não existem.
As
coisas em si, mesmo que num enquadramento Platónico ou Hegeliano, ou dos outros
quinhentos autores que vislumbram na História um progresso constante num
racional que caminha para a felicidade suprema da Humanidade, são como
pareidolias que julgamos encontrar nas nuvens.
A
fascinação ora com estruturas históricas e sociais ora com a negação das mesmas
apostando antes na agência individual e a discussão em torno da importância que
a Filosofia da Ciência atribui a estes significados, fazem-nos esquecer os
inúmeros “game changers” a que
estamos sujeitos, e que não se sujeitam a construções académicas que tentam
captar sistematicamente toda a realidade em teorias parcimoniosas.
…
Assim
e na sequência do muito que se tem escrito sobre Trump, convém esclarecer um
tema que não tem merecido atenção suficiente nas milhentas abordagens que se
fazem em torno do actual Presidente dos EUA.
Se
já anteriormente tentámos identificar o percurso intelectual do multimilionário
e a agenda que visa implementar, antagonizando algum do consenso que faz do
inquilino da Casa Branca um mero vilão acéfalo, faltou-nos contudo responder a
algo que é imprescindível para continuarmos este exercício de compreensão
trumpiano.
…
O
que levou um homem de 70 anos,
multimilionário e cosmopolita a candidatar-se à Presidência da República?
Em
16 de Junho de 2015, dia desse anúncio em discurso na Trump Tower (profetizado
anos antes num episódio dos “Simpsons”) foram avançadas várias hipóteses.
Um
abraçar radical do discurso do Tea Party,
um chamamento da América profunda e escondida que detesta Washington como
escreveu Levin, a resposta ao declínio internacional dos anos Obama, uma irascível
resposta ao politicamente correcto ou a oportunidade única de derrotar uma
mulher elitista liberal.
…
Lamentamos
mais uma vez desagradar quer aos que ainda procuram respostas para a vitória
Trumpiana (sociológica, económica, estatística) quer aqueles que tentam e
desejam uma resistência instrumental face aos factos, como se a actual
administração fosse cair devido a uma eventual delação de Mike Flynn (que não
vai existir), a um levantamento popular em massa (que já se viu ninguém –
Partido Democrata - ter paciência ou talento para executar) ou à evidencia e
confrontação da “realidade” (e que tal como as anteriores não se deu).
…
Donald
Trump candidatou-se de forma efectiva em 2016 porque nunca teria oportunidades
concretas de ganhar antes.
Esta
é a resposta factual, e axiomaticamente simples, à questão efectuada.
Mas
dissequemos os pontos que validam esta asserção.
…
O
multimilionário de Nova Iorque ensaiou concorrer a primárias em 2000 pelo
Partido Reformista (um dos inúmeros “terceiros partidos” que pululam nos EUA) e
várias “brincadeiras” prospectivas em 1988, 2004 e 2012.
Em
todas estas promessas políticas Trump surgiu com boas sondagens e significativa
capacidade económica para concretizar essas intenções em qualquer embrião partidário
com um relativo grau de sucesso, pelo menos para aparecer nos boletins de voto.
Mas
ao contrário do que se julga, Trump não é um desequilibrado cata-vento, antes
um poderoso avaliador dos momentos, sejam económicos ou políticos.
Consideremos
então os contextos e percebamos mais um pouco de como funciona a cabeça do
Presidente.
…
Nos últimos 40 anos, a única anomalia que surgiu nas
eleições presidenciais norte-americanas foi a vitória do Democrata Bill
Clinton, quando se confrontou com a recandidatura de um presidente em
exercício, George Bush, em 1992.
Essa irregularidade deveu-se aos números conseguidos por Ross
Perot que “roubaram” votos ao ex-vice de Reagan.
Exceptuando este episódio sísmico o tempo demonstra à
saciedade uma estratégia de apresentar recandidaturas com sucesso (Reagan,
Clinton, Bush filho e Obama) ou não (Carter) e adversários que ora foram vices
das administrações anteriores (Mondale, Bush pai, Gore) ora saídos do “establishment” (Dukakis, Dole, Kerry,
Romney e McCain).
…
Donald Trump teve intenções exploratórias em 1988, 2000,
2004 e 2012.
Em 1988, quem concorreu pelos Republicanos foi George Bush
pai, vice-presidente cinzento em dois mandatos do expansivo e mítico Reagan, a
quem se adivinhou desde cedo a vitória face ao liberal do Massachusetts,
Michael Dukakis, que foi esmagado em 40 Estados.
Em 2000, Trump tentou descobrir se o ambiente que Perot havia
lançado em 1996 teria alguma onda que lhe permitisse cavalgar em 2002, onde se digladiariam
Bush filho e Al Gore.
Nessa candidatura, Trump chegou a desejar Oprah Winfrey como
Vice e fez comparações entre Hitler e o seu rival interno nas primárias do
Reform Party, o paleoconservador Pat Buchanan que anos antes tinha emulado um
discurso ao estilo de Enoch Powell em plena Convenção Republicana.
No entanto, os campos Republicano e Democrata estavam unidos
em torno dos seus candidatos “institucionais”, um Bush filho que com toda a
estrutura partidária e de “foreign policy” derrotou na altura um “maverick”
chamado John McCain e um vice-presidente de Clinton, sem charme nem graça, Al
Gore, interessado em salvar o mundo e o universo e apaixonado pelas novas
tecnologias, mas incapaz de dar um beijo com convicção apaixonada à mulher no
fecho da Convenção democrata, em cena que marcou de forma indelével a sua
imagem como um autêntico “stiff”.
…
Em 2004 e 2012, quer George W. Bush quer Barack Obama
recandidataram-se.
Nos respectivos campos rivais surgiram figuras que em seu
torno exibiam o pleno interno concordando com a sua agenda, demonstrando que
desde Clinton, o poder estava de facto concentrado num campo muito delimitado
de escolhas e alternativas, inibindo qualquer tentativa agencial de disrupção,
como apenas podemos encontrar na vitória de Obama face a Hillary Clinton, nas
primárias dos Democratas em 2008.
…
Chegamos então a 2016.
Joe Biden, vice-presidente de Obama, não apresentou por razões
pessoais a sua candidatura, e o partido da “esquerda” norte-americana ficou
dividido em duas frentes.
Uma liberal-institucional representada por Hillary Clinton e
outra populista-progressista do veterano senador socialista Bernie Sanders.
O campo republicano era então a única e a última hipótese
que Trump tinha efectivamente de se candidatar a Presidente dos EUA.
E de o fazer com sucesso.
…
O Partido Republicano após a derrota de 2012, realizou um
estudo em jeito de “autópsia política” para perceber o que motivou a derrota em
duas eleições presidenciais e como desmanchar uma narrativa consolidada na qual
o GOP estaria inexoravelmente entrincheirado em perdas sucessivas e constantes,
devido à mudança demográfica nacional.
Esse plano previa mudanças estruturais na abordagem política
promovendo apelos às minorias étnicas, deixar de marginalizar como anátemas os
temas sociais fracturantes, e reformular a imagem eterna de “country club” que a elite republicana representava.
…
Mas o Partido Republicano que existia em 2016 tinha no seu “bas-fond” figuras como o senador
conservador Jeff Sessions e o padrinho da tenebrosa “alt-right” Steve Bannon
que em várias sessões de “brain storming”
perspectivaram a marcha fúnebre para o relatório que patrocinava um GOP mais
distendido e inclusivo.
A captação do voto branco (ausente em 2012 e apto a ser
articulado face aos descontentamentos económicos, sociais e culturais de vastas
comunidades que inclusive votaram em Obama) e a construção de um enredo que
agregasse o apogeu de um excepcionalismo norte-americano de cariz exclusivista
e o reconhecimento de uma degradação do papel dos EUA no mundo (reforçando o
papel dos “neocon” da administração Bush) adicionados ao ódio visceral que a
população (dividindo até o eleitorado Democrata) tinha para com Hillary,
esperavam um candidato no partido que já fora de Abraham Lincoln e Ronald
Reagan.
…
O campo republicano acentuava uma clara viragem do “compassionate conservatism” de Bush
filho e liquidou toda e qualquer herança da sobrextensão imperial (mesmo que em
jeito de promoção democrática universal e “regime
change”) que Cheney e Rumsfeld desenharam, permitindo que uma vasta gama de
candidatos surgisse.
Nessa
amálgama que exibiu republicanos de todos os quadrantes feitios, o momento era
propício para Trump dilacerar o “status
quo”, derrotar um frágil Jeb Bush (“o” candidato) ou promessas como Rubio e
Cruz, cuidando de impedir que os sucessivos desistentes atassem uma resistência
conjunta tais as feridas que se abriam, além de beneficiar dos milhões e
recursos científicos de Bob Mercer.
…
Não foi necessária uma extensa leitura política nem
estragarmos a nossa reputação para a posteridade (como o fez Maquiavel,
escrevendo sobre absolutas verdades) de forma a considerar na candidatura de
Trump uma junção de avaliação do momento e critério de oportunidade.
Não existe grande mistério, nem decerto (embora plausível,
duvidamos) “empurrão” russo, menos ainda uma adaptação ideológica ao contexto
nacional (Trump teve os mesmos, de forma heterodoxa durante décadas).
A verdade é lamentavelmente, menos atraente.
Mas melhor compreendida para quem vive e vê o mundo como um
negócio.
Momento e oportunidade.
Nada mais.
...
Links da Semana
Coreia do Norte
John Feffer sobre o que quer (ou pode) Kim Jong Un: http://lobelog.com/what-does-kim-jong-un-want/#more-38841
França
As escolhas e decisões em matéria de Defesa para o próximo
presidente Francês:
Populismo
Uri Friedman, É Donald Trump um Nativista?: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/04/what-is-nativist-trump/521355
A morte não anunciada da
Democracia, Carothers e Youngs na Foreign Affairs:
Rússia
Entrevista de Putin à MIR: http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/54271
O papel que Kadyrov desempenha para Putin: http://intersectionproject.eu/article/security/ramzan-kadyrov-russias-top-diplomat
O “classicismo” Russo: http://intersectionproject.eu/article/russia-europe/new-russian-renaissance
Síria
A família Assad e a sua relação com 9 presidentes dos EUA:
Trump
Administração
“Fact-checking” da entrevista de
Trump à Fox News: https://www.washingtonpost.com/news/fact-checker/wp/2017/04/12/president-trumps-bushel-of-false-claims-in-his-fox-business-interview/
Timothy Snyder e o “lapso” de Spicer sobre o Holocausto: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/apr/11/sean-spicers-hitler-holocaust-speak-volumes
Defesa e Política Externa
Steven Walt adverte para os perigos de uma intervenção na Síria:
http://foreignpolicy.com/2017/04/07/tom-friedman-is-calling-for-an-invasion-of-syria-trump-should-run-the-other-way
Trump foi vencido pelo Establshiment. Porquê?, Dan Drezner: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2017/04/13/trump-fought-the-blob-and-the-blob-won-why
Graham Allison, Podem os EUA e a China escapar à “armadilha tucidideana”:
http://nationalinterest.org/feature/how-america-china-could-stumble-war-20150
Tiago Moreira de Sá e o que pode a administração Trump fazer
face à ameaça da Coreia do Norte: https://www.publico.pt/2017/04/14/mundo/noticia/coreia-do-norte-o-rato-que-ruge-1768697
Gideon Rachman no Finantial Times, como a “bolha” de
Washington engoliu Trump: https://www.ft.com/content/633daa7a-1dc5-11e7-b7d3-163f5a7f229c
(ver em janela privada no browser)
Paul Pillar e a intervenção de Trump na Siria: http://lobelog.com/syria-and-the-call-of-the-quagmire/#more-38754
A acção de Trump na Síria visa silenciar críticas internas: https://www.thenation.com/article/six-thoughts-on-the-us-bombing-of-syria/
Liberais anti-Trump elogiam-no agora pelo ataque na Síria: https://www.thenation.com/article/too-many-of-trumps-liberal-critics-are-praising-his-strike-on-syria/
7 notas sobre o ataque de Trump à Síria, por David Frum,
ex-speechwriter de W. Bush: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/seven-lessons-from-trumps-syria-strike/522327/
Fareed Zakaria, A Síria e a ausência de estratégia de Trump:
https://www.washingtonpost.com/opinions/global-opinions/one-airstrike-is-not-a-strategy/2017/04/07/b072f9ca-1be6-11e7-bcc2-7d1a0973e7b2_story.html
Elisabeth Saunders, 8 questões sobre Trump e a acção na
Síria: https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2017/04/07/trump-had-his-first-big-foreign-policy-challenge-so-what-did-we-learn/
Assessor de Trump defende partição da Líbia em três regiões:
https://www.theguardian.com/world/2017/apr/10/libya-partition-trump-administration-sebastian-gorka
Fyodor Lukyanov e o cada vez mais expectável conflito entre
os Estados Unidos e a Rússia na Síria: http://www.huffingtonpost.com/entry/us-russia-conflict-syria_us_58ebfeafe4b0df7e2044a210?al§ion=us_world
Os Balcãs serão a próxima confrontação entre os EUA
e Putin: http://nationalinterest.org/feature/the-balkans-will-be-america-russias-next-virtual-battlefield-20088
A política externa imprevisível (incoerente para os aliados)
de Trump:
Report do Bipartisan Policy Center, “Princípios para uma
nova estratégia dos EUA no Médio Oriente”: https://bipartisanpolicy.org/wp-content/uploads/2017/04/Seeking-Stability-at-Sustainable-Cost.pdf
Turquia
A junção na Turquia de Erdogan entre o AKP, o Governo e o
Estado turco: http://internacional.elpais.com/internacional/2017/04/06/actualidad/1491491612_518593.html
União Europeia
Moravcsik acredita e
tenta evidenciar que a Europa ainda é uma superpotência: http://foreignpolicy.com/2017/04/13/europe-is-still-a-superpower
White paper do Atlantic Council sobre os cenários possíveis
para a Europa em 2022: http://www.css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/Atlantic_Council_Europe_in_2022_web_0329.pdf
TRI/CP
As RI não dão importância às questões ambientais: http://duckofminerva.com/2017/04/why-ir-needs-the-environment-and-the-environment-needs-ir.html
Reimaginar o Médio Oriente, por Chas Freeman ex-embaixador
na Arábia Saudita: http://lobelog.com/reimagining-the-middle-east-2/
Quatro conflitos (Nigéria, Sudão do Sul, Iémen e Somália) que
põem 20 milhões em risco de morrer à fome: https://www.washingtonpost.com/graphics/world/2017-famines/?utm_term=.75345009f187
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