quarta-feira, 12 de abril de 2017

Trump e a teoria do actor racional



Façamos dois exercícios.
Ignoremos que em três meses, desde a sua eleição, o actual Presidente dos EUA já foi e disse tudo e o seu contrário e afastemos a preocupação com a (eventual) agenda interna.
Centramos assim atenções para o que sucede actualmente no plano internacional.


Os EUA são a maior potência global, com uma situação geográfica que oferece uma protecção natural invulgar.
Militar, económica, demográfica e culturalmente têm hegemonia face a qualquer outro país, mesmo considerando a expansão chinesa, dependente que é do comércio internacional para manter níveis de crescimento adequados para a população, mantendo-a satisfeita com a “prestação de serviços” do regime.

No discurso da União de 2002 (meses após o 11.09) George W. Bush enunciou as ameaças aos EUA como o “Eixo do Mal”, do qual faziam parte Iraque, Irão e a Coreia do Norte.
A primeira parte dessa equação (em conjunto com o Afeganistão e a Líbia) foi “resolvida” com a messiânica oferta do remédio da “democratização”, com os trágicos resultados que se sabem.
As “inimizades” norte-americanas têm merecido actualizações constantes.
Políticos, intelectuais e think-tanks, neoconservadores e “falcões” em termos de política externa, além do habitual “aliado” israelita, comungam particular e comum atenção à Síria e Irão.


Obama deixou uma “confusão” espalhada pelo mundo, segundo Trump.
E como pretende o multimilionário arrumar a problemática arena internacional?
Elenquemos factos.
Trump recebe Xi Jinping e apresenta à sobremesa um ataque aos sírios motivado por um (ainda não investigado) ataque químico atribuído às forças de Assad, além de “tweetar” que eventuais acordos comerciais dependem das contrapartidas e acções de Pequim para com a Coreia do Norte.
Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, referiu hoje que Pyongyang não tem sequer capacidades ou tecnologia disponíveis para se tomarem como sérias as suas ameaças nucleares.
O Secretário de Estado, Rex Tillerson, considera indispensável a saída de Assad do poder (ainda há dias dizia o oposto) e constrange a Rússia a aceitar este axioma, além da imprudente continuação da expansão da NATO a Leste, agora com o Montenegro, o que só contribui para ampliar a histórica paranóia de Moscovo.


Será racional pressionar a Rússia na sua periferia e na Síria, aliado com raízes históricas e razões geoestratégicas óbvias?
Ou envolver a China num diálogo que não respeita a sua cosmovisão ancestral e a forma conservadora como vislumbra os negócios internacionais?
Nem a Síria nem a Coreia do Norte são ameaças existenciais aos Estados Unidos da América, enquanto que Moscovo e Pequim têm capacidades militares efectivas para tal.
A MAD (Destruição Mútua Assegurada) que garantiu em derradeira instância, pela irreversibilidade do fim, a “continuidade” do mundo na bipolaridade, parece agora, nesta “unipolaridade versátil”, ser um “elefante” na sala, que todos fingem não dar conta.


A tomada de decisão em política (externa) incide sobre uma multiplicidade de factores que a academia tem tratado, embora exista um debate “aberto” em torno dos modelos que tentam explicar o crucial: porque o actor x toma a posição y?
Das várias teorizações a este propósito, a do “actor racional” parece a mais atendível à personalidade e carreira de Trump.
Nessa concepção, o decisor colocado perante determinada questão e face a um conjunto de soluções possíveis, equaciona cada uma delas de acordo com a sua eficácia, escolhendo depois a que visa, expectavelmente, maximizar benefícios e minimização de prejuízos.


Equacionemos então os problemas.
Um Médio Oriente revolto e enredado em conflitos com consequências humanas devastadoras e uma Coreia do Norte de cariz Estalinista neurótico com o maior exército do mundo e armamento nuclear.
As situações no Médio Oriente não são resolúveis com o afastamento da Rússia, nem se encontram respostas para a crise coreana marginalizando os chineses.
Já as operações de “regime change”, resultaram na desestabilização regional, destruição do aparato institucional e estatal e dos tecidos produtivos e económicos nacionais, além da deslocalização forçada de milhões de pessoas.
É igualmente impossível conter o terrorismo à escala global sem integrar Moscovo e Pequim.
A hipotética adopção de uma espécie de orquestração Nixoniana de “Mad Man” seria lógica (mas perigosa) com uma linha condutora da política externa (ausente) e em ambiente de bipolaridade estável (inexistente).
Mais grave do que estas lamentáveis asserções é a constatação da passagem abrupta de enunciados isolacionistas (errados) para a cedência (intelectualmente ainda inexplicável) de uma agenda anunciada há décadas.


Em qualquer decisão política é imperioso deixar saídas abertas para recuos estratégicos ou diplomáticos.
Trump caminha por um trilho que parece esquecer isso.

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