Façamos
dois exercícios.
Ignoremos
que em três meses, desde a sua eleição, o actual Presidente dos EUA já foi e
disse tudo e o seu contrário e afastemos a preocupação com a (eventual) agenda
interna.
Centramos
assim atenções para o que sucede actualmente no plano internacional.
…
Os EUA
são a maior potência global, com uma situação geográfica que oferece uma
protecção natural invulgar.
Militar,
económica, demográfica e culturalmente têm hegemonia face a qualquer outro
país, mesmo considerando a expansão chinesa, dependente que é do comércio
internacional para manter níveis de crescimento adequados para a população, mantendo-a
satisfeita com a “prestação de serviços” do regime.
No
discurso da União de 2002 (meses após o 11.09) George W. Bush enunciou as
ameaças aos EUA como o “Eixo do Mal”, do qual faziam parte Iraque, Irão e a
Coreia do Norte.
A primeira
parte dessa equação (em conjunto com o Afeganistão e a Líbia) foi “resolvida”
com a messiânica oferta do remédio da “democratização”, com os trágicos resultados
que se sabem.
As “inimizades”
norte-americanas têm merecido actualizações constantes.
Políticos,
intelectuais e think-tanks, neoconservadores e “falcões” em termos de política
externa, além do habitual “aliado” israelita, comungam particular e comum atenção
à Síria e Irão.
…
Obama
deixou uma “confusão” espalhada pelo mundo, segundo Trump.
E
como pretende o multimilionário arrumar a problemática arena internacional?
Elenquemos
factos.
Trump
recebe Xi Jinping e apresenta à sobremesa um ataque aos sírios motivado por um (ainda
não investigado) ataque químico atribuído às forças de Assad, além de “tweetar”
que eventuais acordos comerciais dependem das contrapartidas e acções de Pequim
para com a Coreia do Norte.
Sean
Spicer, o porta-voz da Casa Branca, referiu hoje que Pyongyang não tem sequer capacidades
ou tecnologia disponíveis para se tomarem como sérias as suas ameaças
nucleares.
O Secretário
de Estado, Rex Tillerson, considera indispensável a saída de Assad do poder (ainda
há dias dizia o oposto) e constrange a Rússia a aceitar este axioma, além da
imprudente continuação da expansão da NATO a Leste, agora com o Montenegro, o
que só contribui para ampliar a histórica paranóia de Moscovo.
…
Será
racional pressionar a Rússia na sua periferia e na Síria, aliado com raízes
históricas e razões geoestratégicas óbvias?
Ou envolver
a China num diálogo que não respeita a sua cosmovisão ancestral e a forma
conservadora como vislumbra os negócios internacionais?
Nem
a Síria nem a Coreia do Norte são ameaças existenciais aos Estados Unidos da
América, enquanto que Moscovo e Pequim têm capacidades militares efectivas para
tal.
A MAD
(Destruição Mútua Assegurada) que garantiu em derradeira instância, pela
irreversibilidade do fim, a “continuidade”
do mundo na bipolaridade, parece agora, nesta “unipolaridade versátil”, ser um
“elefante” na sala, que todos fingem não dar conta.
…
A
tomada de decisão em política (externa) incide sobre uma multiplicidade de
factores que a academia tem tratado, embora exista um debate “aberto” em torno
dos modelos que tentam explicar o crucial: porque o actor x toma a posição y?
Das
várias teorizações a este propósito, a do “actor racional” parece a mais atendível
à personalidade e carreira de Trump.
Nessa
concepção, o decisor colocado perante determinada questão e face a um conjunto
de soluções possíveis, equaciona cada uma delas de acordo com a sua eficácia,
escolhendo depois a que visa, expectavelmente, maximizar benefícios e
minimização de prejuízos.
…
Equacionemos
então os problemas.
Um
Médio Oriente revolto e enredado em conflitos com consequências humanas
devastadoras e uma Coreia do Norte de cariz Estalinista neurótico com o maior
exército do mundo e armamento nuclear.
As situações
no Médio Oriente não são resolúveis com o afastamento da Rússia, nem se
encontram respostas para a crise coreana marginalizando os chineses.
Já as
operações de “regime change”, resultaram
na desestabilização regional, destruição do aparato institucional e estatal e
dos tecidos produtivos e económicos nacionais, além da deslocalização forçada
de milhões de pessoas.
É
igualmente impossível conter o terrorismo à escala global sem integrar Moscovo
e Pequim.
A
hipotética adopção de uma espécie de orquestração Nixoniana de “Mad Man” seria lógica (mas perigosa) com
uma linha condutora da política externa (ausente) e em ambiente de bipolaridade
estável (inexistente).
Mais
grave do que estas lamentáveis asserções é a constatação da passagem abrupta de
enunciados isolacionistas (errados) para a cedência (intelectualmente ainda
inexplicável) de uma agenda anunciada há décadas.
…
Em
qualquer decisão política é imperioso deixar saídas abertas para recuos estratégicos
ou diplomáticos.
Trump
caminha por um trilho que parece esquecer isso.
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