terça-feira, 11 de abril de 2017

O mito da psicopatologia do terrorismo



Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL

O terrorismo é um produto de diversos fatores interelacionados e que variam contextualmente. Apesar da miscelânea de motivos ou categorizações, podemos dividir as causas do terrorismo em dois grupos gerais.
Os fatores contextuais (relativos ao contexto político, económico ou social em que determinado grupo ou indivíduo se insere) e os fatores individuais (aqueles do foro psíquico, respeitantes ao carácter e personalidade de um indivíduo).

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São os segundos que nos merecem aqui pormenor e detalhe.
Do ponto de vista psicológico, quais são as causas do terrorismo? Diversas, não consensuais, mutáveis, personalistas.
Frustrante? Sim, especialmente para os principais atores em matéria de contraterrorismo como as forças de segurança e serviços de intelligence. Todavia, podemos identificar alguns aspetos relativamente comuns entre os “terroristas”.

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Mas atendemos à história. 
O início das primeiras investigações psicológicas sobre este tema remonta a finais de 1960 estendendo-se até meados da década de 80 onde as alegadas causas do fenómeno se sustentavam na ciência da “psicopatologia do terrorismo”.
Com base em especulações clínicas e nas teorias da Psicologia como a Psicánalise freudiana, a privação relativa de Ted Robert Gurr (relação entre frustração e agressão) ou o narcisismo, a violência terrorista era essencialmente um produto de um comportamento desviante, “por motivos inconscientes e impulsivos, que teriam as suas origens na infância” (Borum, 2004).
Mais do que um foreign fighter (os anos 60 legitimavam o uso desse rótulo pela importância da luta anticolonialista), o terrorista era sobretudo - aos olhos dos psicólogos e criminalistas - um “psicopata”.

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Com base neste panorama, várias foram as tentativas de elaborar “tipologias” de classificação.
Como pioneiros nesta matéria aparecem os nomes dos psiquiatras Frederick Hacker (1976) e também do ex-agente da CIA, Jerrold Post (1980).
Entre “cruzados”, “crazies”, “anarquista-ideológico”, “nacionalista secessionista” ou “criminais”, as designações pareciam relevar alguma lógica dadas as investigações prévias.
Similarmente, vários analistas e psiquiatras tentaram formular um “perfil de terrorista”.
Um dos estudos mais conhecidos para o propósito é o de Russel e Miller (1977) onde pela análise do cadastro de mais de 350 indivíduos com ligaçoes a organizações terroristas ativas entre 1966-1976 de 18 países diferentes, delinearam um protótipo: “young (22-25), unmarried male who is an urban resident, from a middle-upper class family, has some university education and probably held an extremist political philosophy”.

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Todavia nem as propostas dos psiquiatras nem os esforços para esboçar um determinado “perfil”, obtiveram o sucesso desejado, sendo rejeitados pela comunidade científica e académica.
A psicopatologia é hoje uma ideia largamente desacreditada, sendo encarada como um mito.
Embora os “terroristas” cometam atos supostamente típicos de um “psicopata”, as investigações científicas posteriores demonstraram não existirem indícios que o confirmem.
Entre outros aspetos, enquanto os terroristas têm vínculos a uma determinada ideologia (estando dispostos a sacrificar-se por tal) ou a outros indivíduos que partilhem dos mesmos princípios, os psicopatas não possuem as mesmas disposições.
O terrorista é racional, faz uma escolha deliberada e intencional e as suas personalidades são consideráveis estáveis, não existindo indícios (empíricos) de abuso de substâncias ou tentativa de suicídio prévio.

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Atualmente, os conceitos chave para entender os fatores individuais (isto é, que levam indivíduos a juntar-se a determinados grupos ou a desenvolver atos de natureza terrorista) são o “motivo” (emoção, desejo, necessidade psicológica ou impulso) e a “vulnerabilidade” (suscetibilidade, tentação).
A literatura aponta três fatores proeminentes: (1) a perceção de injustiça ou humilhação; (2) a necessidade de ter uma identidade estável ou desejo de status-quo e (3) a necessidade de pertença.
Martha Crenshaw (1985) acrescenta também “a oportunidade para a ação” e a “aquisição de uma recompensa material”

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Sem surpresa, atualmente preferem-se abordagens multidimensionais, que combinem elementos psicológicos e contextuais.
Tendo em conta as evidências científicas, a ideia da psicopatologia – apesar de muito tentadora - deve ser afastada.
Se eventualmente considerada, deverá requer um olhar mais atento e prudente, devendo ser sustentada ou completada com uma análise contextual.
As causas do uso da violência são personalistas e nem todos os indivíduos que têm intenção em perpetrar atos terroristas ou afetos a ideologias extremas levam a cabo esses atos.
Assim, é também prudente afastar ideias fatalistas como a de Ayaan Hirsi Ali para a qual a adesão à jihad é sempre antecedida pela dawa (um processo de radicalização não violento mas tóxico que transforma um criminoso banal num zelota).

A autora adota o Acordo Ortográfico.

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