Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL
O
terrorismo é um produto de diversos fatores interelacionados e que variam
contextualmente. Apesar da miscelânea de motivos ou categorizações, podemos
dividir as causas do terrorismo em dois grupos gerais.
Os fatores
contextuais (relativos ao contexto político, económico ou social em que
determinado grupo ou indivíduo se insere) e os fatores individuais
(aqueles do foro psíquico, respeitantes ao carácter e personalidade de um
indivíduo).
...
São
os segundos que nos merecem aqui pormenor e detalhe.
Do
ponto de vista psicológico, quais são as causas do terrorismo? Diversas, não
consensuais, mutáveis, personalistas.
Frustrante?
Sim, especialmente para os principais atores em matéria de contraterrorismo
como as forças de segurança e serviços de intelligence. Todavia, podemos
identificar alguns aspetos relativamente comuns entre os “terroristas”.
...
Mas
atendemos à história.
O
início das primeiras investigações psicológicas sobre este tema remonta a
finais de 1960 estendendo-se até meados da década de 80 onde as alegadas causas
do fenómeno se sustentavam na ciência da “psicopatologia do terrorismo”.
Com
base em especulações clínicas e nas teorias da Psicologia como a Psicánalise
freudiana, a privação relativa de Ted Robert Gurr (relação entre frustração e
agressão) ou o narcisismo, a violência terrorista era essencialmente um produto
de um comportamento desviante, “por motivos inconscientes e impulsivos, que
teriam as suas origens na infância” (Borum, 2004).
Mais
do que um foreign fighter (os anos 60 legitimavam o uso desse rótulo
pela importância da luta anticolonialista), o terrorista era sobretudo - aos
olhos dos psicólogos e criminalistas - um “psicopata”.
...
Com
base neste panorama, várias foram as tentativas de elaborar “tipologias” de
classificação.
Como
pioneiros nesta matéria aparecem os nomes dos psiquiatras Frederick Hacker
(1976) e também do ex-agente da CIA, Jerrold Post (1980).
Entre
“cruzados”, “crazies”, “anarquista-ideológico”, “nacionalista
secessionista” ou “criminais”, as designações pareciam relevar alguma lógica
dadas as investigações prévias.
Similarmente,
vários analistas e psiquiatras tentaram formular um “perfil de terrorista”.
Um
dos estudos mais conhecidos para o propósito é o de Russel e Miller (1977) onde
pela análise do cadastro de mais de 350 indivíduos com ligaçoes a organizações
terroristas ativas entre 1966-1976 de 18 países diferentes, delinearam um
protótipo: “young (22-25), unmarried male who is an urban resident, from a
middle-upper class family, has some university education and probably held an
extremist political philosophy”.
...
Todavia
nem as propostas dos psiquiatras nem os esforços para esboçar um determinado
“perfil”, obtiveram o sucesso desejado, sendo rejeitados pela comunidade
científica e académica.
A
psicopatologia é hoje uma ideia largamente desacreditada, sendo encarada como
um mito.
Embora
os “terroristas” cometam atos supostamente típicos de um “psicopata”, as
investigações científicas posteriores demonstraram não existirem indícios que o
confirmem.
Entre
outros aspetos, enquanto os terroristas têm vínculos a uma determinada
ideologia (estando dispostos a sacrificar-se por tal) ou a outros indivíduos
que partilhem dos mesmos princípios, os psicopatas não possuem as mesmas
disposições.
O
terrorista é racional, faz uma escolha deliberada e intencional e as suas
personalidades são consideráveis estáveis, não existindo indícios (empíricos)
de abuso de substâncias ou tentativa de suicídio prévio.
...
Atualmente,
os conceitos chave para entender os fatores individuais (isto é, que levam
indivíduos a juntar-se a determinados grupos ou a desenvolver atos de natureza
terrorista) são o “motivo” (emoção, desejo, necessidade psicológica ou
impulso) e a “vulnerabilidade” (suscetibilidade, tentação).
A
literatura aponta três fatores proeminentes: (1) a perceção de injustiça ou
humilhação; (2) a necessidade de ter uma identidade estável ou desejo de status-quo
e (3) a necessidade de pertença.
Martha
Crenshaw (1985) acrescenta também “a oportunidade para a ação” e a “aquisição
de uma recompensa material”
...
Sem
surpresa, atualmente preferem-se abordagens multidimensionais, que combinem
elementos psicológicos e contextuais.
Tendo
em conta as evidências científicas, a ideia da psicopatologia – apesar de muito
tentadora - deve ser afastada.
Se
eventualmente considerada, deverá requer um olhar mais atento e prudente,
devendo ser sustentada ou completada com uma análise contextual.
As
causas do uso da violência são personalistas e nem todos os indivíduos que têm
intenção em perpetrar atos terroristas ou afetos a ideologias extremas levam a
cabo esses atos.
Assim,
é também prudente afastar ideias fatalistas como a de Ayaan Hirsi Ali para a
qual a adesão à jihad é sempre antecedida pela dawa (um processo
de radicalização não violento mas tóxico que transforma um criminoso banal num
zelota).
A
autora adota o Acordo Ortográfico.
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