Um Presidente paranóico.
Depois
de “aceitar” a demissão do seu “National Security Adviser” Mike
Flynn, Trump afirmou ser “muito injusta a forma como o militar foi tratado”
pela imprensa.
Para o Presidente as fugas de informação ("ilegais") que conduziram à saída de Flynn são o principal assunto, e a responsabilidade cabe às “fake
news” que assolam a comunicação social liberal e progressista.
Esqueçamos pois as trapalhadas com os processos de audição repletos de
situações confrangedoras para vários membros da equipa de Trump, a postura
conflituosa face a países como o Irão ou o México, o volte-face em situações
delicadas como o reconhecimento da política “One China” ou o compromisso com a
OTAN, a possível nomeação para a UE de um embaixador que profetiza o fim do projecto europeu, a confrontação com o poder judicial devido a legislação
inconstitucional e uma administração com múltiplas polaridades e lutas
intestinas pelo poder.
Dispensemos de elencar nesta lista mais séria, as delirantes respostas
que Trump fornece ao mundo sobre tudo o que lhe apraz, ou as supostas
conferências de imprensa realizadas pelo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer,
que ultrapassa o célebre ministro da informação de Saddam pelo lado da comédia,
parecendo querer rivalizar com Goebbels no campo da manipulação insidiosa.
Escrevia há dias Daniel Kato ainda não ser claro se Trump é fascista,
um demagogo populista, alguém que tenta ampliar uma “presidência imperial” ou
um simples idiota com um estratega (Steve Bannon) “malvado”.
Lamentavelmente, a sequência de disparates recente parece fazer-nos
esquecer toda a série de peripécias, incoerências e cabotinices que Trump tem
vindo a desempenhar desde as Primárias do GOP, numa época em que sorríamos com as
suas momices, enquanto prevíamos que a criatura cairia derrotada pelo
“establishment” republicano.
Nem isso sucedeu, nem a senhora Clinton foi capaz de fazer o que até o
“Rato Mickey” conseguiria, como disse certo dia Maria José Nogueira Pinto, ou
seja, ganhar eleições a uma luminária saída da sarjeta da “reality TV”, com um
imenso negócio consolidado na trapaça e na divida, e uma personalidade crónica
e comprovadamente sexista, xenófoba e mal-criada.
Contudo, para grandes males grandes remédios, e nada como um sistema
eleitoral anacrónico, criado de forma desigual e alvo de frequentes
manipulações políticas e partidárias permitir a eleição de Trump por 100 mil votos em três
estados chave, oferecendo às cinzas da História a sua derrota na votação popular
nacional por quase três milhões de votos.
Menos de um mês depois da sua tomada de posse, a presidência de Trump
parece um estilhaçar de confusão, ignorância, prepotência e vazio.
Confusão porque no 1600 da Pennsylvannia Avenue, o poder ainda cheira
a fresco e reúne legisladores republicanos que necessitam de ser reeleitos,
“ultras” oriundos da “alt-right” de Bannon e Miller, uma quota parte do
“establishment” representado pelo Vice-Presidente Pence e o chefe de gabinete
de Trump, Rience Priebus, facções militares que integram os “falcões” habituais
do Pentágono e que sonham com o recrudescimento do “complexo
militar-industrial” e até o genro, Jared Kushner, que (arrepiemo-nos) é o
predestinado a conseguir a paz duradoura no Médio Oriente.
Ignorância verificada a cada medida que produz alçapões
regulamentares, seja na Habitação, Educação, Segurança Interna, Segurança
Social, Saúde, Justiça ou Comércio, comprovando a inabilidade e dificuldade de
captação de gente séria, habilitada e capaz para preencher os lugares medianos
da estrutura governativa.
Prepotência com a responsabilidade dos fracassos ou dos
“inconseguimentos” a repousar sempre na figura do “outro”, sejam os “bad
hombres” do outro lado da fronteira, as notícias maldosas assentes na verdade
(essa meretriz), os refugos dos mandatos Obama, Hollywood, ou o bode expiatório
preferido da narrativa redundante e pleonástica trumpiana: “o terrorismo
radical islâmico”.
Vazio, porque a figura do “Commander-in-chief” deve ser, além de
eticamente irrepreensível, um símbolo de ponderação e pundonor, e qualquer
destes atributos é algo que a criação não atribuiu a Trump na sua génese.
Richard Nixon deixou-se embrenhar em casos devido a uma sensação de
paranóia que o corroía, fazendo-o desconfiar de qualquer sombra na Casa Branca,
a certa altura do seu 2º mandato.
Por isso, o seu comité de reeleição (“CREEP”) e a equipa de
inteligência paralela e oficiosa que lhe estava anexa, criou uma unidade (“canalizadores”)
que invadiu escritórios de políticos e jornalistas, e colocava em circulação “fake
news” de forma a denegrir qualquer obstáculo pessoal ou institucional que Nixon
considerasse existir ao seu exercício do poder.
Um caso nunca devidamente esclarecido (“Watergate”) afundou o Titanic
em que Nixon navegava, obrigando o presidente a resignar para não ser afastado.
O também republicano, tinha duas mais-valias diferenciadoras face a
Trump: era inteligente e leitor de História.
Capaz de sórdidas manipulações (como a sabotagem da negociação do
processo de paz do Vietname em 1968) Nixon sabia que o poder absoluto pode e
deve ser exercido numa democracia, sendo que a recompensa é a reeleição e a
imortalidade nos livros, e a derrota é a maldição, com o consequente
afastamento e exílio para onde a memória não apareça.
Trump oferece-nos dois problemas.
O primeiro, estrutural, passa pela simples assunção de que não
respeita a democracia, despreza os mecanismos institucionais, o diálogo de
compromisso, os procedimentos legais ou figuras como a cooperação e a
estabilidade internacional, por mais interpretações que possam existir.
Um segundo, de cariz individual, que nos reporta ao facto de Trump
nunca reconhecer em si qualquer falha, omissão ou pecado. A sua arrogância
paranóica impede-o de conceber tal.
Se
Nixon abandonou e se confinou à sua “ilha de Santa Helena”, Trump quando nos
deixar, fará questão de não ir sozinho, mesmo que leve parte do mundo com ele.
Comparado
com isto, qualquer conluio com Putin, é uma picuinhice com a relevância de um grão.
Links da semana
Report da Conferência de Segurança de Munique: "Post-Truth, Post-West, Post-Order?": http://report2017.securityconference.de/
Trump
Na Foreign Policy: Quer Trump uma ordem internacional como
no século 19?: http://foreignpolicy.com/2017/02/09/does-trump-want-a-19th-century-world-order/
Trump: extremar de posição ou adaptação institucional?: http://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2017/02/08/political-philosophy-suggests-that-trump-will-either-double-down-on-his-behaviour-or-eventually-give-in-to-institutional-opposition
Joseph Nye, Trump e o Twitter: https://www.aspistrategist.org.au/donald-trumps-dark-art-tweet/
Fukuyama preocupado com a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2017/02/09/the-man-who-declared-the-end-of-history-fears-for-democracys-future
Fareed
Zakaria sobre Steve Bannon: https://www.washingtonpost.com/opinions/stephen-bannons-words-and-actions-dont-add-up/2017/02/09/33010a94-ef19-11e6-9973-c5efb7ccfb0d_story.html?utm_term=.72687bd8e51e
Anataol Lieven, Trump pode estar certo sobre a Rússia: https://www.nytimes.com/2017/02/14/opinion/why-trump-is-right-on-russia.html?smid=tw-share
Paul Krugman, o vácuo intelectual da liderança Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/ignorance-is-strength.html
Trump pode ser um Presidente que transforme os EUA: http://www.huffingtonpost.com/entry/trump-obama-reconstructive-president_us_589c8d4be4b04061313beb33
As normas e instituiçoes permitem que Trump seja
autoritario?: https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2017/02/10/is-trump-an-authoritarian-at-heart-it-matters-less-than-you-think/
São os países que os americanos pensam ser seus “amigos”, realmente
“amigos”?:
Um ex-MNE polaco sobre Bannon e Trump: https://www.project-syndicate.org/commentary/trump-stephen-bannon-ideology-by-jacek-rostowski-2017-02
Kenneth Rogoff sobre o facto dos EUA não ganharem uma guerra
comercial com a China: https://www.project-syndicate.org/commentary/trump-trade-war-china-by-kenneth-rogoff-2017-02
Anne Marie Slaughter e a defesa do multilateralismo: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2017/02/10/putting-america-first-isnt-the-problem-trumps-version-of-it-is
“Trumphalia” substitui Westefália: https://intpolicydigest.org/2017/02/13/trumphalia-u-s-foreign-policy/
John McCain fala de Vladimir Kara-Murza, diz que os EUA
devem apoiar os dissidentes russos e acusa Putin de ser um “criminoso
autoritário”: http://www.usatoday.com/story/opinion/2017/02/13/trump-gets-it-wrong-on-putin-russia-moral-equals-john-mccain-column/97822770/
Michael Fuchs, ex-membro da administração Obama sobre a política
externa imprevisível (se existente) de Trump: http://democracyjournal.org/arguments/trumps-doctrine-of-unpredictability/
Bob Corker, presidente da comissão do Senado sobre Política
Externa, e a presidência de Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/bob-corker-committee-foreign-relations-trump-214773
Eliot Cohen e a administração à deriva: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/02/no-one-at-the-helm-of-the-ship-of-state/516591/
No Brookings escreve-se sobre as consequências na divisão
demográfica e politica dos EUA face às acções de Trump: https://www.brookings.edu/opinions/trumps-early-actions-will-widen-americas-political-demographic-divide
No NY Times Profissionais de saúde mental avisam que Trump é
incapaz: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/mental-health-professionals-warn-about-trump.html?_r=0
Richard Evans sobre a “verdade”:
Brief da ESPC (Comissão Europeia) sobre a presidência Trump e “cenários e implicaçoes para a Europa”: https://ec.europa.eu/epsc/sites/epsc/files/epsc-brief-the-trump-presidency.pdf
Garry Kasparov sobre o crescendo autoritário: https://www.washingtonpost.com/news/democracy-post/wp/2017/02/13/why-the-rise-of-authoritarianism-is-a-global-catastrophe/
O muro entre o Bangladesh e a India, lições para Trump: http://thediplomat.com/2017/02/the-india-bangladesh-wall-lessons-for-trump/
Mark Galleoti sobre a noticia do NY Times que liga a
administração Trump ao Kremlin: https://inmoscowsshadows.wordpress.com/2017/02/15/the-nyt-story-on-trump-associates-and-russian-spooks-some-questions/
David Rothkopf na Foreign Policy e as múltiplas e sucessivas
crises de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/02/14/the-fog-of-trump
As “teorias conspiratórias” são mais aceites pelos liberais
desde as eleições:
Europa
Encomendado pelo MNE holandês, um estudo do CEPS sobre a
politica europeia de vizinhança (PEV): https://www.ceps.eu/publications/assessing-european-neighbourhood-policy-perspectives-literature
A actual situação nos Balcãs: http://www.worldaffairsjournal.org/article/perilous-european-crisis-looms-balkans
Islão
O nº23 do POMEPS sobre “os novos Media Islâmicos”: https://pomeps.org/wp-content/uploads/2017/02/POMEPS_Studies_23_Media_Web.pdf
Israel
A Israel Iliberal, por Shlomo
Ben-Ami, ex MNE israelita: https://www.aspistrategist.org.au/illiberal-israel/
“Extrema-direita”/Populismo
Relatório do DEMOS sobre a presença ou ausência da “direita
radical populista” em 6 países (França, Reino Unido, Alemanha, Espanha,
Polónia, Suécia): https://www.demos.co.uk/wp-content/uploads/2017/02/Demos-Nothing-To-Fear-But-Fear-Itself.pdf
A politica externa da Frente
Nacional: https://jean-jaures.org/sites/default/files/politique_etrangere_fn_radicalites_5_0.pdf
Cas Mudde, Geert Wilders e a
vitoria de Trump: http://www.progressivepost.eu/sorcerer-apprentice-geert-wilders-wake-trumps-victory/
Iluminismo 2.0: http://yaleglobal.yale.edu/content/increasingly-authoritarian-world-can-people-embrace-enlightenment-20
Análise de política comparada sobre o sucesso de diferentes
partidos nacionalistas europeus: http://blogs.lse.ac.uk/europpblog/2017/02/10/europe-new-nationalism/
O futuro da Democracia: http://eng.globalaffairs.ru/number/The-Future-of-Democracy-18582
Uma reportagem sobre o encontro dos nacionalistas em
Koblenz: http://www.macleans.ca/news/world/inside-a-meeting-of-the-minds-of-europes-most-powerful-nationalists/
Cas Mudde sobre a direita radical europeia e osa questao dos
refugiados: http://bangordailynews.com/2017/02/14/opinion/contributors/europes-radical-right-artificially-extends-the-shadow-of-the-refugee-crisis/
O fim do neoliberalismo progressista: https://www.dissentmagazine.org/online_articles/progressive-neoliberalism-reactionary-populism-nancy-fraser
Vídeos
Debate na Carnegie sobre a “Revolta Populista”, com Ian
Bremmer, Roger Cohen e Pippa Norris
Rússia
Na Politico, como a Rússia se tornou a líder da “religious
right” à escala global: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/how-russia-became-a-leader-of-the-worldwide-christian-right-214755
O “pivot” filipino para com a Rússia: http://www.worldaffairsjournal.org/content/dutertes-pivot-putin
“Handbook
of Russian Information Warfare” do NATO Defense College: http://www.ndc.nato.int/download/downloads.php?icode=506
George Soros: Putin é uma ameaça maior para a Europa que o ISIS:
https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/feb/11/putin-threat-europe-islamic-state?CMP=share_btn_tw
Relatório
da conferência do RUSI sobre “Is the West Thinking Strategically
Rússia-China
“Chaillot paper” do ISS, Rússia e China uma nova parceria
oriental?: http://www.iss.europa.eu/uploads/media/CP_140_Russia_China.pdf
Rússia-Turquia
No Kennan Institute, como a Rússia e a Turquia se aproximam:
http://www.kennan-russiafile.org/2017/02/10/why-russia-and-turkey-are-drifting-closer-to-each-other/
EUA-Rússia
Relatório da Carnegie sobre 25 anos de relações dos EUA com
a Rússia, Ucrânia e Eurásia: http://carnegieendowment.org/files/CP_300_Rumer_Sokolsky_Weiss_Task_Force_Final_Web.pdf
Entrevista (em áudio, com resumo escrito) com o
ex-embaixador EUA na Rússia: http://www.wbur.org/onpoint/2017/02/09/mcfaul-trump-putin-russia
EUA-Canadá
O relacionamento entre os dois países: https://d3n8a8pro7vhmx.cloudfront.net/cdfai/pages/1489/attachments/original/1486752350/Canada-US_relations_on_the_eve_of_Prime_Minister_Trudeaus_visit_to_Washington.pdf?1486752350
Europa-Rússia
Relatório do PE sobre o conceito estratégico de Defesa russo
e implicações para com a Europa: http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2017/578016/EXPO_IDA(2017)578016_EN.pdf
Alemanha
Entrevista de Martin Schulz ao Der Spiegel: http://www.spiegel.de/international/germany/interview-with-german-chancellor-candidate-martin-schulz-a-1133475.html#ref=rss
Ciberataques
Moisés Naim sobre os ciberataques em Democracia : https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/02/democracy-cyber-war/516351/?utm_source=twb
Ambiente
Uma visão conservadora para um “carbon tax” nos EUA: https://www.clcouncil.org/wp-content/uploads/2017/02/TheConservativeCaseforCarbonDividends.pdf
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