quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Titanic de Trump


Um Presidente paranóico.

Depois de “aceitar” a demissão do seu “National Security Adviser” Mike Flynn, Trump afirmou ser “muito injusta a forma como o militar foi tratado” pela imprensa.
Para o Presidente as fugas de informação ("ilegais") que conduziram à saída de Flynn são o principal assunto, e a responsabilidade cabe às “fake news” que assolam a comunicação social liberal e progressista.
 
Esqueçamos pois as trapalhadas com os processos de audição repletos de situações confrangedoras para vários membros da equipa de Trump, a postura conflituosa face a países como o Irão ou o México, o volte-face em situações delicadas como o reconhecimento da política “One China” ou o compromisso com a OTAN, a possível nomeação para a UE de um embaixador que profetiza o fim do projecto europeu, a confrontação com o poder judicial devido a legislação inconstitucional e uma administração com múltiplas polaridades e lutas intestinas pelo poder.

Dispensemos de elencar nesta lista mais séria, as delirantes respostas que Trump fornece ao mundo sobre tudo o que lhe apraz, ou as supostas conferências de imprensa realizadas pelo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, que ultrapassa o célebre ministro da informação de Saddam pelo lado da comédia, parecendo querer rivalizar com Goebbels no campo da manipulação insidiosa.

Escrevia há dias Daniel Kato ainda não ser claro se Trump é fascista, um demagogo populista, alguém que tenta ampliar uma “presidência imperial” ou um simples idiota com um estratega (Steve Bannon) “malvado”.

Lamentavelmente, a sequência de disparates recente parece fazer-nos esquecer toda a série de peripécias, incoerências e cabotinices que Trump tem vindo a desempenhar desde as Primárias do GOP, numa época em que sorríamos com as suas momices, enquanto prevíamos que a criatura cairia derrotada pelo “establishment” republicano.

Nem isso sucedeu, nem a senhora Clinton foi capaz de fazer o que até o “Rato Mickey” conseguiria, como disse certo dia Maria José Nogueira Pinto, ou seja, ganhar eleições a uma luminária saída da sarjeta da “reality TV”, com um imenso negócio consolidado na trapaça e na divida, e uma personalidade crónica e comprovadamente sexista, xenófoba e mal-criada.

Contudo, para grandes males grandes remédios, e nada como um sistema eleitoral anacrónico, criado de forma desigual e alvo de frequentes manipulações políticas e partidárias permitir a eleição de Trump por 100 mil votos em três estados chave, oferecendo às cinzas da História a sua derrota na votação popular nacional por quase três milhões de votos.

Menos de um mês depois da sua tomada de posse, a presidência de Trump parece um estilhaçar de confusão, ignorância, prepotência e vazio.

Confusão porque no 1600 da Pennsylvannia Avenue, o poder ainda cheira a fresco e reúne legisladores republicanos que necessitam de ser reeleitos, “ultras” oriundos da “alt-right” de Bannon e Miller, uma quota parte do “establishment” representado pelo Vice-Presidente Pence e o chefe de gabinete de Trump, Rience Priebus, facções militares que integram os “falcões” habituais do Pentágono e que sonham com o recrudescimento do “complexo militar-industrial” e até o genro, Jared Kushner, que (arrepiemo-nos) é o predestinado a conseguir a paz duradoura no Médio Oriente.

Ignorância verificada a cada medida que produz alçapões regulamentares, seja na Habitação, Educação, Segurança Interna, Segurança Social, Saúde, Justiça ou Comércio, comprovando a inabilidade e dificuldade de captação de gente séria, habilitada e capaz para preencher os lugares medianos da estrutura governativa.

Prepotência com a responsabilidade dos fracassos ou dos “inconseguimentos” a repousar sempre na figura do “outro”, sejam os “bad hombres” do outro lado da fronteira, as notícias maldosas assentes na verdade (essa meretriz), os refugos dos mandatos Obama, Hollywood, ou o bode expiatório preferido da narrativa redundante e pleonástica trumpiana: “o terrorismo radical islâmico”.

Vazio, porque a figura do “Commander-in-chief” deve ser, além de eticamente irrepreensível, um símbolo de ponderação e pundonor, e qualquer destes atributos é algo que a criação não atribuiu a Trump na sua génese.

Richard Nixon deixou-se embrenhar em casos devido a uma sensação de paranóia que o corroía, fazendo-o desconfiar de qualquer sombra na Casa Branca, a certa altura do seu 2º mandato.

Por isso, o seu comité de reeleição (“CREEP”) e a equipa de inteligência paralela e oficiosa que lhe estava anexa, criou uma unidade (“canalizadores”) que invadiu escritórios de políticos e jornalistas, e colocava em circulação “fake news” de forma a denegrir qualquer obstáculo pessoal ou institucional que Nixon considerasse existir ao seu exercício do poder.

Um caso nunca devidamente esclarecido (“Watergate”) afundou o Titanic em que Nixon navegava, obrigando o presidente a resignar para não ser afastado.

O também republicano, tinha duas mais-valias diferenciadoras face a Trump: era inteligente e leitor de História.

Capaz de sórdidas manipulações (como a sabotagem da negociação do processo de paz do Vietname em 1968) Nixon sabia que o poder absoluto pode e deve ser exercido numa democracia, sendo que a recompensa é a reeleição e a imortalidade nos livros, e a derrota é a maldição, com o consequente afastamento e exílio para onde a memória não apareça.

Trump oferece-nos dois problemas.

O primeiro, estrutural, passa pela simples assunção de que não respeita a democracia, despreza os mecanismos institucionais, o diálogo de compromisso, os procedimentos legais ou figuras como a cooperação e a estabilidade internacional, por mais interpretações que possam existir.

Um segundo, de cariz individual, que nos reporta ao facto de Trump nunca reconhecer em si qualquer falha, omissão ou pecado. A sua arrogância paranóica impede-o de conceber tal.

Se Nixon abandonou e se confinou à sua “ilha de Santa Helena”, Trump quando nos deixar, fará questão de não ir sozinho, mesmo que leve parte do mundo com ele.
Comparado com isto, qualquer conluio com Putin, é uma picuinhice com a relevância de um grão.



Links da semana



Report da Conferência de Segurança de Munique: "Post-Truth, Post-West, Post-Order?": http://report2017.securityconference.de/



Trump

Na Foreign Policy: Quer Trump uma ordem internacional como no século 19?: http://foreignpolicy.com/2017/02/09/does-trump-want-a-19th-century-world-order/






Paul Krugman, o vácuo intelectual da liderança Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/ignorance-is-strength.html



São os países que os americanos pensam ser seus “amigos”, realmente “amigos”?:



Kenneth Rogoff sobre o facto dos EUA não ganharem uma guerra comercial com a China: https://www.project-syndicate.org/commentary/trump-trade-war-china-by-kenneth-rogoff-2017-02



John McCain fala de Vladimir Kara-Murza, diz que os EUA devem apoiar os dissidentes russos e acusa Putin de ser um “criminoso autoritário”: http://www.usatoday.com/story/opinion/2017/02/13/trump-gets-it-wrong-on-putin-russia-moral-equals-john-mccain-column/97822770/

Michael Fuchs, ex-membro da administração Obama sobre a política externa imprevisível (se existente) de Trump: http://democracyjournal.org/arguments/trumps-doctrine-of-unpredictability/

Bob Corker, presidente da comissão do Senado sobre Política Externa, e a presidência de Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/bob-corker-committee-foreign-relations-trump-214773


No Brookings escreve-se sobre as consequências na divisão demográfica e politica dos EUA face às acções de Trump: https://www.brookings.edu/opinions/trumps-early-actions-will-widen-americas-political-demographic-divide

No NY Times Profissionais de saúde mental avisam que Trump é incapaz: https://www.nytimes.com/2017/02/13/opinion/mental-health-professionals-warn-about-trump.html?_r=0

Richard Evans sobre a “verdade”:


Brief da ESPC (Comissão Europeia) sobre a presidência Trump e “cenários e implicaçoes para a Europa”: https://ec.europa.eu/epsc/sites/epsc/files/epsc-brief-the-trump-presidency.pdf



O muro entre o Bangladesh e a India, lições para Trump: http://thediplomat.com/2017/02/the-india-bangladesh-wall-lessons-for-trump/

Mark Galleoti sobre a noticia do NY Times que liga a administração Trump ao Kremlin: https://inmoscowsshadows.wordpress.com/2017/02/15/the-nyt-story-on-trump-associates-and-russian-spooks-some-questions/

David Rothkopf na Foreign Policy e as múltiplas e sucessivas crises de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/02/14/the-fog-of-trump

As “teorias conspiratórias” são mais aceites pelos liberais desde as eleições:




Europa

Encomendado pelo MNE holandês, um estudo do CEPS sobre a politica europeia de vizinhança (PEV): https://www.ceps.eu/publications/assessing-european-neighbourhood-policy-perspectives-literature




Islão

O nº23 do POMEPS sobre “os novos Media Islâmicos”: https://pomeps.org/wp-content/uploads/2017/02/POMEPS_Studies_23_Media_Web.pdf



Israel

A Israel Iliberal, por Shlomo Ben-Ami, ex MNE israelita: https://www.aspistrategist.org.au/illiberal-israel/



“Extrema-direita”/Populismo

Relatório do DEMOS sobre a presença ou ausência da “direita radical populista” em 6 países (França, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Polónia, Suécia): https://www.demos.co.uk/wp-content/uploads/2017/02/Demos-Nothing-To-Fear-But-Fear-Itself.pdf




Análise de política comparada sobre o sucesso de diferentes partidos nacionalistas europeus: http://blogs.lse.ac.uk/europpblog/2017/02/10/europe-new-nationalism/





Vídeos

Debate na Carnegie sobre a “Revolta Populista”, com Ian Bremmer, Roger Cohen e Pippa Norris




Rússia

Na Politico, como a Rússia se tornou a líder da “religious right” à escala global: http://www.politico.com/magazine/story/2017/02/how-russia-became-a-leader-of-the-worldwide-christian-right-214755

O “pivot” filipino para com a Rússia: http://www.worldaffairsjournal.org/content/dutertes-pivot-putin

“Handbook of Russian Information Warfare” do NATO Defense College: http://www.ndc.nato.int/download/downloads.php?icode=506

Para Ivan Krastev e Stephen Holmes, Putin já não é o único “imprevisível” e Moscovo não gosta: http://foreignpolicy.com/2017/02/13/the-kremlin-is-starting-to-worry-about-trump


Relatório da conferência do RUSI sobre “Is the West Thinking Strategically




Rússia-China

“Chaillot paper” do ISS, Rússia e China uma nova parceria oriental?: http://www.iss.europa.eu/uploads/media/CP_140_Russia_China.pdf



Rússia-Turquia




EUA-Rússia

Relatório da Carnegie sobre 25 anos de relações dos EUA com a Rússia, Ucrânia e Eurásia: http://carnegieendowment.org/files/CP_300_Rumer_Sokolsky_Weiss_Task_Force_Final_Web.pdf

Entrevista (em áudio, com resumo escrito) com o ex-embaixador EUA na Rússia: http://www.wbur.org/onpoint/2017/02/09/mcfaul-trump-putin-russia



EUA-Canadá




Europa-Rússia

Relatório do PE sobre o conceito estratégico de Defesa russo e implicações para com a Europa: http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2017/578016/EXPO_IDA(2017)578016_EN.pdf



Alemanha




Ciberataques




Ambiente

 

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