quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dissecação do Terror




O terrorismo e a réstia de esperança

Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL
 
Sejamos nós realistas, liberais ou construtivistas do ponto de vista das Relações Internacionais e tenhamos uma visão optimista ou pessimista do “futuro”, urge evidenciar algumas questões e clarificar alguns mitos sobre o terrorismo.

1. O terrorismo é um fenómeno milenar (com mais de dois mil anos) cuja história é difícil de mapear.
No good history of terrorism exists” (Rappoport): não existe consensualidade na literatura que lhe é dedicada, seja no rastrear da sua evolução, ou nas diversas “timelines” que diferem na forma de a organizar cronologicamente.
É um fenómeno intersubjectivo, necessariamente dependente dos contextos sociais e políticos, não podendo ser desvinculado dessa matriz.

2. O estudo do terrorismo, na forma de disciplina académica (os Estudos do Terrorismo), data da década de 1960.
Não existe consenso internacional sobre a sua definição (em 1977, Walter Laqueur listava mais de 100) ou causas principais.
Porém, há um traço comum: o uso indiscriminado e sistemático da violência a fim de criar um clima de medo, apreensão, pânico ou ansiedade.
Existe discordância se essa violência tem ou não fins políticos, contudo a maioria da literatura e as definições operacionais a nível internacional (salientemos a do “State Departament” dos EUA) sublinha a motivação política.

3. O 11 de Setembro de 2001 (11/9) desencadeou um interesse excepcional sobre o fenómeno.
Cresceu exponencialmente a literatura sobre o tema.
Se antes dos atentados a produção estava confinada a um pequeno conjunto de investigadores, e se constituia como assunto marginalizado na academia e nas agendas políticas internacionais, no pós 11/9 o terrorismo é alvo de particular atenção tornando-se “a principal preocupação securitária a nível mundial”.
Falha-se em reconhecer, contudo, que o verdadeiro “take off” da disciplina terá acontecido entre 1970 e 1978, em virtude das vagas do terrorismo e da cobertura mediática, e que as duas maiores publicações académicas especializadas no terrorismo, “Terrorism & Political Violence” e “Studies in Conflict and Terrorism”, já contribuíam para a sua investigação há quase duas décadas.

4. O 11/9 (e a posterior declaração da “guerra contra o terror” pela administração de Bush em 2002) gerou uma intensa discussão quanto a um possível momento de “viragem” nas agendas das Relações Internacionais e da segurança internacional.
Contudo, o debate é controverso e complexo.
Enquanto uns o interpretaram como um acontecimento “revolucionário” na política internacional, outros mostraram-se relutantes em tomar categoricamente uma parte pelo todo, seja atenuando a sua suposta importância ou não dando particular atenção ao acontecimento.
Por isso, é prudente não admitir acriticamente o 11/9 como data de referência para a emergência de “um novo mundo”.

5. O 11/9 acentuou um contexto de múltiplos desafios já notórios na década de 1990.
Falamos da radicalização, a migração ou os Estados falhados (“rogue states”) que, aliados ao aparecimento de novos actores (movimentos e redes internacionais como a Al-Qaeda), deu origem a um processo de novas mudanças e práticas securitárias contraterroristas, particularmente desencadeadas pelos EUA e organizações como a ONU e União Europeia.

Esta última teve uma resposta “tardia”, com uma actuação mais acentuada somente após os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid.
Nas palavras do antigo Presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma, “A União Europeia está a substituir a cortina de ferro por uma cortina de papel...”

6. No entanto, o 11/9 inaugurou um “novo tipo” de terrorismo.
Desde 2001, têm aparecido novos rótulos como “novo terrorismo” ou “terrorismo global” para caracterizar o fenómeno.
São designações contestadas, mas argumentadas em torno da mudança de natureza:
Enquanto os terroristas “tradicionais” tinham objetivos concisos, estrategicamente definidos (i.e. assassínio de um determinado líder), os “novos terroristas” têm objectivos mais abrangentes visando transformar as relações civilizacionais à escala global.
Uma das principais características do "novo terrorismo" prende-se com as suas motivações, outrora seculares - sobretudo no período pós 1945 com os movimentos nacionalistas e de independência - são agora religiosas.

7. O terrorismo religioso, todavia, não é um fenómeno moderno.
Até ao século XIX, data do início da primeira “verdadeira” fase do terrorismo (pelos anarquistas russos) a religião era o único motivo “aceitável” para justificar o uso do terror ou da violência.

Nos primórdios do terrorismo, os actos perpetrados pelos seus principais grupos (Thugs, Assassinos, Sicários e Zelotas) eram maioritariamente motivados por fins sagrados ou religiosos.
Qualquer destes grupos reflectem características de outros grupos desviantes dentro da religião a que estão associados, nomeadamente o Hinduísmo, o Islamismo e o Judaísmo.

No século XX, é a partir de 1980 que a religião se torna uma das principais motivações para o uso da violência política (ou terrorismo).
O que hoje se assiste é uma espécie de confirmação do "mito do retorno" mas com um contorno exacerbado e potencialmente muito mais mortífero (sobretudo pelo progresso tecnológico, efeito dos “mass media” e temível acesso a ADM).

8. "Terrorismo islâmico" é uma expressão falaciosa e altamente estereotipada.
Apesar do vulgarmente percepcionado, existem vários estudos (i.e. Pape, 2005) que demonstram uma fraca correlação entre fundamentalismo islâmico e o terrorismo ou até outra qualquer religião.
Utilizar o termo "terrorismo islâmico" é reforçar inadvertidamente a propaganda da própria Al-Qaeda e ISIS.

Terrorismo islamista ou islamita é o termo a adoptar.

As interpretações fundamentalistas são uma pseudo justificação ética para a prática da violência.
A maioria dos terroristas são radicalizados pela raiva e frustração que já possuem, antes de se “converterem” a qualquer religião.

9. Os terroristas não são psicopatas nem analfabetos.

Pelo contrário e no dizer de Horgan, “most of terrorists are dangerously normal”.
Os relatos de antigos jihadistas radicais como Manwar Ali ou de Maajid Nawaz sobre os processos de recrutamento e radicalização confirmam-no.
Não é possível traçar um “perfil de terrorista”, existindo uma pluralidade de factores: por norma, a literatura académica distingue dois grupos, os individuais (aqueles do foro psíquico, respeitantes ao caracter e personalidade) e os contextuais (relacionados com a conjuntura política, económica ou social em que o indivíduo está inserido).

Assim, os motivos abrangem desde sentimentos de exclusão e marginalização face à comunidade a problemas relativos a uma infância problemática, estando os indivíduos expostos a cenas de violência e privados de proteção das figuras parentais.
Quanto à educação: muitos dos potenciais recrutas da Al-Qaeda - treinados no Afeganistão na década de 1990 - são descritos como “oriundos da classe média e alta, quase todos de famílias “intactas”…maioritariamente com educação universitária com uma forte inclinação para a engenharia e ciências naturais…poucos são o produto de escolas religiosas”. (Gambetta apud Hobsbawn, 2008).

A violência e a barbárie são constantes na história da Humanidade.
Não esquecemos também as lições sobre a natureza humana de Thomas Hobbes, Schopenhauer, Nietzsche ou até Hannah Arendt.
Mas, a sobrevivência da réstia de esperança depende necessariamente da rejeição da pós-verdade, investindo sempre e todos os dias num conhecimento que seja crítico de tudo o que exploramos.
Esta “lista” de nove pontos é uma tentativa de contribuir para essa sobrevivência.


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