O terrorismo e a réstia
de esperança
Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL
Sejamos nós realistas,
liberais ou construtivistas do ponto de vista das Relações Internacionais e
tenhamos uma visão optimista ou pessimista do “futuro”, urge evidenciar algumas questões e clarificar alguns mitos sobre o terrorismo.
1. O terrorismo é um
fenómeno milenar (com mais de dois mil anos) cuja história é difícil de mapear.
“No good history of terrorism exists” (Rappoport): não existe
consensualidade na literatura que lhe é dedicada, seja no rastrear da sua evolução,
ou nas diversas “timelines” que
diferem na forma de a organizar cronologicamente.
É um fenómeno intersubjectivo,
necessariamente dependente dos contextos sociais e políticos, não podendo ser
desvinculado dessa matriz.
2. O estudo do
terrorismo, na forma de disciplina académica (os Estudos do Terrorismo), data
da década de 1960.
Não existe consenso
internacional sobre a sua definição (em 1977, Walter Laqueur listava mais de
100) ou causas principais.
Porém, há um traço
comum: o uso indiscriminado e sistemático da violência a fim de criar um clima
de medo, apreensão, pânico ou ansiedade.
Existe discordância se
essa violência tem ou não fins políticos, contudo a maioria da literatura e as
definições operacionais a nível internacional (salientemos a do “State
Departament” dos EUA) sublinha a motivação política.
3. O 11 de Setembro de
2001 (11/9) desencadeou um interesse excepcional sobre o fenómeno.
Cresceu exponencialmente
a literatura sobre o tema.
Se antes dos atentados a
produção estava confinada a um pequeno conjunto de investigadores, e se
constituia como assunto marginalizado na academia e nas agendas políticas
internacionais, no pós 11/9 o terrorismo é alvo de particular atenção
tornando-se “a principal preocupação securitária a nível mundial”.
Falha-se em reconhecer,
contudo, que o verdadeiro “take off”
da disciplina terá acontecido entre 1970 e 1978, em virtude das vagas do
terrorismo e da cobertura mediática, e que as duas maiores publicações
académicas especializadas no terrorismo, “Terrorism
& Political Violence” e “Studies
in Conflict and Terrorism”, já contribuíam para a sua investigação há quase
duas décadas.
4. O 11/9 (e a posterior
declaração da “guerra contra o terror” pela administração de Bush em 2002)
gerou uma intensa discussão quanto a um possível momento de “viragem” nas
agendas das Relações Internacionais e da segurança internacional.
Contudo, o debate é
controverso e complexo.
Enquanto uns o
interpretaram como um acontecimento “revolucionário” na política internacional,
outros mostraram-se relutantes em tomar categoricamente uma parte pelo todo, seja
atenuando a sua suposta importância ou não dando particular atenção ao
acontecimento.
Por isso, é prudente não
admitir acriticamente o 11/9 como data de referência para a emergência de “um
novo mundo”.
5. O 11/9 acentuou um
contexto de múltiplos desafios já notórios na década de 1990.
Falamos da radicalização,
a migração ou os Estados falhados (“rogue
states”) que, aliados ao aparecimento de novos actores (movimentos e redes
internacionais como a Al-Qaeda), deu origem a um processo de novas mudanças e
práticas securitárias contraterroristas, particularmente desencadeadas pelos
EUA e organizações como a ONU e União Europeia.
Esta última teve uma
resposta “tardia”, com uma actuação mais acentuada somente após os atentados de
11 de Março de 2004 em Madrid.
Nas palavras do antigo
Presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma, “A União Europeia está a substituir a
cortina de ferro por uma cortina de papel...”
6. No entanto, o 11/9
inaugurou um “novo tipo” de terrorismo.
Desde 2001, têm
aparecido novos rótulos como “novo
terrorismo” ou “terrorismo global”
para caracterizar o fenómeno.
São designações
contestadas, mas argumentadas em torno da mudança de natureza:
Enquanto os terroristas “tradicionais” tinham objetivos
concisos, estrategicamente definidos (i.e. assassínio de um determinado líder),
os “novos terroristas” têm objectivos
mais abrangentes visando transformar as relações civilizacionais à escala
global.
Uma das principais características
do "novo terrorismo" prende-se
com as suas motivações, outrora seculares - sobretudo no período pós 1945 com
os movimentos nacionalistas e de independência - são agora religiosas.
7. O terrorismo
religioso, todavia, não é um fenómeno moderno.
Até ao século XIX, data
do início da primeira “verdadeira” fase do terrorismo (pelos anarquistas
russos) a religião era o único motivo “aceitável” para justificar o uso do
terror ou da violência.
Nos primórdios do
terrorismo, os actos perpetrados pelos seus principais grupos (Thugs, Assassinos, Sicários e Zelotas)
eram maioritariamente motivados por fins sagrados ou religiosos.
Qualquer destes grupos
reflectem características de outros grupos desviantes dentro da religião a que
estão associados, nomeadamente o Hinduísmo, o Islamismo e o Judaísmo.
No século XX, é a partir
de 1980 que a religião se torna uma das principais motivações para o uso da
violência política (ou terrorismo).
O que hoje se assiste é
uma espécie de confirmação do "mito
do retorno" mas com um contorno exacerbado e potencialmente muito mais
mortífero (sobretudo pelo progresso tecnológico, efeito dos “mass media” e temível acesso a ADM).
8. "Terrorismo
islâmico" é uma expressão falaciosa e altamente estereotipada.
Apesar do vulgarmente percepcionado,
existem vários estudos (i.e. Pape, 2005) que demonstram uma fraca correlação
entre fundamentalismo islâmico e o terrorismo ou até outra qualquer religião.
Utilizar o termo
"terrorismo islâmico" é reforçar inadvertidamente a propaganda da
própria Al-Qaeda e ISIS.
Terrorismo
islamista ou islamita é o termo a adoptar.
As interpretações
fundamentalistas são uma pseudo justificação ética para a prática da violência.
A maioria dos
terroristas são radicalizados pela raiva e frustração que já possuem, antes de
se “converterem” a qualquer religião.
9. Os terroristas não
são psicopatas nem analfabetos.
Pelo contrário e no
dizer de Horgan, “most of terrorists are
dangerously normal”.
Os relatos de antigos
jihadistas radicais como Manwar Ali ou de Maajid Nawaz sobre os processos de
recrutamento e radicalização confirmam-no.
Não é possível traçar um
“perfil de terrorista”, existindo uma pluralidade de factores: por norma, a
literatura académica distingue dois grupos, os individuais (aqueles do foro psíquico, respeitantes ao caracter e
personalidade) e os contextuais
(relacionados com a conjuntura política, económica ou social em que o indivíduo
está inserido).
Assim, os motivos
abrangem desde sentimentos de exclusão e marginalização face à comunidade a
problemas relativos a uma infância problemática, estando os indivíduos expostos
a cenas de violência e privados de proteção das figuras parentais.
Quanto à educação:
muitos dos potenciais recrutas da Al-Qaeda - treinados no Afeganistão na década
de 1990 - são descritos como “oriundos da classe média e alta, quase todos de
famílias “intactas”…maioritariamente com educação universitária com uma forte
inclinação para a engenharia e ciências naturais…poucos são o produto de
escolas religiosas”. (Gambetta apud Hobsbawn, 2008).
A violência e a barbárie
são constantes na história da Humanidade.
Não esquecemos também as
lições sobre a natureza humana de Thomas Hobbes, Schopenhauer, Nietzsche ou até
Hannah Arendt.
Mas, a sobrevivência da
réstia de esperança depende necessariamente da rejeição da pós-verdade, investindo sempre e todos os dias num conhecimento que
seja crítico de tudo o que exploramos.
Esta “lista” de nove
pontos é uma tentativa de contribuir para essa sobrevivência.
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