O Pós-Fascismo
Trump,
segundo a maioria dos pensadores do fenómeno, pode encaixar na ideologia
populista.
O pensamento académico sobre o populismo é heterodoxo, mas
pode-se resumir na definição do investigador holandês Cas Mudde, como a
separação da sociedade em dois grupos antagónicos homogéneos, onde o “povo
puro” se confronta com a “elite corrupta” e a virtuosa vontade popular deve sair
vitoriosa face à corrupção moral dos actores da elite.
Para o dito povo cristalino, os dias de fúria traduzidos em ordens
executivas sucessivas e o discurso radical contra o “establishment”, são a demonstração inequívoca que o actual
Presidente é o “herói” que luta contra Washington e toda a onda iluminista que
corroía os EUA.
A turba que vocifera contra Trump, não passa para o universo
de “deploráveis” que idolatra o Presidente dos EUA, de uma minoria receosa pela
perda de privilégios históricos.
David Frum, o “speechwriter”
de George W. Bush que cunhou o termo “eixo do mal”, escreve esta semana na “The Atlantic” que os míticos “checks and balances” que o mundo
civilizado confia serem suficientes para deter os ímpetos de Trump, são uma metáfora
e não um mecanismo.
Tem razão.
Ainda para Frum, muitos dos constrangimentos que impendem
sobre o inquilino da Casa Branca passam pela ética do próprio titular do cargo,
não se podendo entender a chegada à Sala Oval de alguém a quem radicalmente
faltem tais qualidades, sendo que no caso de Trump existe até a franca
possibilidade de beneficiar pessoal e patrimonialmente da sua posição.
O autor argui que os “mass
media”, a opinião, o escrutínio e a pressão públicas são essenciais para
evitar uma queda na autocracia, não deixando de notar que a hipótese é patente.
A imprevisibilidade que Trump veio introduzir no sistema
político dos EUA, e consequentemente à escala global, merece contudo uma
atenção mais particular, dispensando alguns comentários ou análises supérfluas sobre
as suas eventuais perturbações psiquiátricas, que fazem agora o gáudio da
plateia ansiosa.
O problema último embora nuclear na apreciação ao Presidente
norte-americano assenta em algumas características pessoais e políticas que
podem extravasar o mero conceito populista.
Hannah Arendt em as “Origens do Totalitarismo”, trabalhando
sobre o Nazismo e o Comunismo Estalinista, salienta o reforço do manancial de
propaganda, a aversão à verdade e o uso do “terror” como fundamentais para
erigir tais regimes.
Resumidamente, enquanto que numa concepção populista o
objectivo é o domínio absoluto do jogo político, o totalitarismo pretende
invadir cada aspecto da vida individual e colectiva.
Bastante
criticismo já foi elaborado sobre o rigor da obra de Arendt, mas destaquemos
recentemente no “The Guardian” a
advertência da académica Griselda Pollock, especialista na obra da autora, sobre
o perigo de traçar paralelismos com a situação actual nos EUA.
Há contudo que introduzir uma outra fenomenologia que talvez
explique melhor como Trump pode tornar-se perigoso, a muito breve trecho.
Fala-se do Fascismo.
Seguindo os necessários cânones académicos, encontramos
novamente uma multiplicidade de definições, desde a sua genealogia, a sua
doutrina concreta ou as suas aplicações regionais.
Autores como Umberto Eco, Stanley Payne, Robert Paxton, Emílio
Gentile, Michael Mann, Roger Griffin ou Ernst Nolte apresentam um vasto
repertório argumentativo que discute e analisa a temática, expondo inúmeras características
do que podemos consensualizar como Fascismo.
Não sendo possível por economia de escrita perorar sobre
todos, nem fazer uma resenha genericamente aceitável, centremo-nos naquilo que
identificamos mais facilmente com Trump, e que pode ser encontrado em todos
estes autores.
A criação de um movimento de massas que aprecie o culto da
acção, um hiper-nacionalismo, o ódio à “diferença”, o apelo às frustrações
sociais, um “machismo” disciplinador, viril, intolerante e condenatório de
hábitos sexuais “desviantes”, um vocabulário limitado, um aparato policial que
reprima a dissidência, a figura do líder como “chefe” carismático, uma politica
externa baseada somente no interesse nacional e com laivos imperialistas, o elaborar
de um processo de purificação e renascimento que visa livrar a sociedade da “decadência”,
uma ligação quase espiritual com uma “verdade” só ao alcance dos privilegiados
são pontos em comum em algumas das definições.
Claro que é necessário e imprescindível o desaparecimento (ou
controle) de todos os mecanismos e estruturas (partidos políticos, imprensa,
sindicatos, universidades, entre outros) que nos EUA constituem a vasta gama de
freios que impediu até hoje qualquer degenerescência democrática a nível
nacional.
Todavia, só quem não sabe, ou não quer saber, é que pode
omitir o Populismo estatal que durante séculos imperou no Sul dos EUA,
permitindo e mantendo a segregação racial e privando milhões de cidadãos dos
benefícios de um Estado de direito.
A diferença agora é que Trump, com um “movimento” e um
projecto que se caracteriza com a tipologia atrás tipificada, é o Presidente
dos EUA e reúne maioria nas 2 câmaras legislativas.
Senão, vejamos:
Trump efectuou um discurso inaugural de cunho egocêntrico,
onde marginaliza as instituições, elege o slogan do adepto Nazi Charles
Lindbergh “America First”, clama pelo
patriotismo económico mas reúne com as maiores corporações, propõe o isolacionismo
(mas intenta determinar obrigações à Austrália ou ao México, e coloca o Irão “on notice”, enquanto ameaça comercial e
militarmente a China) sabendo-se hegemónico e visando alianças com potencias
tidas como revisionistas, e fala de uma verdade e de uma visão que só ele pode concretizar.
Há que contextualizar toda a personagem Trump, bem como a
eventual implosão institucional que não é aparentemente visível, mas não é um
salto quântico assim tão exagerado, nem um mero diletantismo intelectual preconizarmos
que esta patologia fascista está patente em Trump, até pela forma com que olha
qualquer tipo de dissensão, a que devemos adicionar o uso e repercussão
incomensurável das novas tecnologias, que permitem a construção de uma máquina
de propaganda incomparavelmente superior à que Arendt alguma vez tenha
ponderado e onde a factualidade é diariamente abolida.
Espera-se que as instituições (e o cariz excepcional de que
falava Tocqueville) e a própria percepção da necessidade de exercer o poder em
democracia sejam factores suficientes para evitar a máxima de Mussolini, “tudo
no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”.
No entanto, é fácil
percepcionar que nas democracias liberais, uma receita conjugada de
isolacionismo, proteccionismo e medidas de exclusão social não têm resultados
económicos, nem produzirão pacificação ou amparo social e institucional.
E sem respaldo económico, social ou institucional, não há
politico que se reeleja em democracia.
Orwell escreveu que “dizer a verdade em tempos de mentira
universal é um acto revolucionário”.
Se a pós-modernidade, a pós-democracia e a pós-verdade
entraram em força no nosso vocabulário diário, anseia-se que uma qualquer
espécie de pós-fascismo (sobre este tema em particular apenas o académico
húngaro Gáspár Tamás tem elaboração teórica) não se constitua como narrativa ganhadora
sob pena da nossa desgraça colectiva, mesmo que por cuidados múltiplos,
racionais ou supersticiosos, não se queira quase nunca falar do Diabo.
Não houve até hoje nenhum ditador a quem mentes esclarecidas
não tivessem vaticinado curta duração.
Os lamentos posteriores cuidam de perceber que foram demasiado
tarde para evitar que conquistassem o poder.
Todo o Poder.
Links da semana
Trump
Fareed
Zakaria, e os momentos para discordar e concordar com Trump: https://www.washingtonpost.com/opinions/sorry-president-trump-i-agree-with-you/2017/02/02/95ab9daa-e98b-11e6-bf6f-301b6b443624_story.html
A
“American Interest” entende que Andrew Jackson é o “vencedor” destas eleições: http://www.the-american-interest.com/2017/01/30/andrew-jackson-so-much-winning/
Já
na Politico, contradiz-se este argumento: http://www.politico.com/magazine/story/2017/01/andrew-jackson-donald-trump-populist-president-history-214705
Stephen
Walt, Trump e a revolta na política externa: http://foreignpolicy.com/2017/02/03/trump-has-already-blown-it/
Washington
e o GOP começam a mostrar como se faz “política” a Trump: https://www.washingtonpost.com/politics/behind-closed-doors-republican-lawmakers-fret-about-how-to-repeal-obamacare/2017/01/27/deabdafa-e491-11e6-a547-5fb9411d332c_story.html?tid=pm_politics_pop&utm_term=.18e346d661b7
Autores
como Joschka Fischer, Joseph Nye e outros sobre a actual desordem
internacional: https://www.project-syndicate.org/onpoint/the-god-of-carnage-2017-01
A
“Politico” analisa a 1ª semana de Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/01/president-trump-week-one-first-administration-214699
Dani
Rodrik na “Foreign Policy” sobre o Comércio Livre e os populistas:
Bernard-Henri Levy acompanhou a inauguração de Trump com Philip Roth:
http://www.thedailybeast.com/articles/2017/01/27/donald-trump-s-plot-against-america-watching-the-inauguration-with-philip-roth.html
O
ex-embaixador Holandês Justus deVissier defende a causa da Ordem Liberal: http://lobelog.com/in-defense-of-a-liberal-order/
O
eclipse do Ocidente, do historiador John Bew, no “The New Statesman”: http://www.newstatesman.com/world/2017/01/eclipse-west
“A
Internacional Nacionalista”: http://www.huffingtonpost.com/entry/the-nationalist-international_us_58862761e4b0111ea60b9885
Jonah
Goldberg no AEI contra o “America First”: http://www.aei.org/publication/what-trump-means-when-he-says-america-first/
Richard
Stengel, na “The Atlantic”, o Fim do Século Americano: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/01/end-of-the-american-century/514526/
O
estilo de liderança de Trump, “paper” realizado por um psicólogo: http://digitalcommons.csbsju.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1109&context=psychology_pubs
Segundo
a Brookings, com Trump a percepção dos norte-americanos para com os Muçulmanos
e o Islão tem-se alterado (para melhor): https://www.brookings.edu/blog/markaz/2017/01/28/how-trump-changed-americans-view-of-islam-for-the-better/
Os
hábitos “twiteiros” de Trump: https://theconversation.com/everything-you-wanted-to-know-about-realdonaldtrumps-twitter-habit-72387
O
anti-secularismo é uma corrente profunda no pensamento “conservador”
norte-americano: https://theconversation.com/how-distrust-of-unbelievers-runs-deep-in-american-history-71776
Mais
de 1/3 dos Nobel norte-americanos são de imigrantes ou nascidos fora dos EUA: https://theconversation.com/americas-nobel-success-is-the-story-of-immigrants-67219
Historicamente,
sempre que os EUA baniram imigrantes, colocam em risco alianças e aumentam o
perigo de criarem novos inimigos: https://theconversation.com/trumps-immigration-order-is-bad-foreign-policy-72053
David
Milliband em opinião no NY Times, e a tragédia dos EUA fugirem ao seu papel de
liderança global: https://www.nytimes.com/2017/01/27/opinion/donald-trumps-un-american-refugee-policy.html
Até
a Fundação dos irmãos Koch está contra a ordem executiva anti-imigração de
Trump: https://www.washingtonpost.com/news/post-politics/wp/2017/01/29/koch-network-condemns-trump-ban-on-refugees-and-immigrants
Eliot
Cohen e o momento especial da História norte-americana, inclusive para os
conservadores: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/01/a-clarifying-moment-in-american-history/514868
Richard
Lachmann no Valdai, o dia em que a Hegemonia norte-americana morreu: http://valdaiclub.com/a/highlights/the-day-american-hegemony-died/
No
Brookings, explica-se o porquê de mudar a embaixada para Jerusalém não ser
sensato:
Niall
Ferguson no Boston Globe sobre a natureza do Poder: https://www.bostonglobe.com/opinion/2017/01/30/the-nature-power-networked-age/tbPNgHahpJ63a6e0Eueu2H/story.html
A
restrição aos imigrantes causará impacto no “soft power” norte-americano?: https://theconversation.com/trumps-immigration-ban-will-it-undercut-american-soft-power-72156
David
Frum, “speechwriter” de George W. Bush (creditado com a expressão “eixo do
mal”), sobre a possibilidade de uma autocracia sobre Trump: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2017/03/how-to-build-an-autocracy/513872/
Como
Trump é visto na Russia: http://www.huffingtonpost.com/entry/russia-media-putin-trump_us_58812eafe4b096b4a230b3cf
Donald
Tusk em carta aos 27 chefes de Estado, nas vésperas da cimeira de Malta, sobre
o futuro da EU e a ameaça nacionalista e populista: http://dsms.consilium.europa.eu/952/Actions/Newsletter.aspx?messageid=10352&customerid=28737&password=enc_4137374533454435_enc
A
liderança de Trump tem um “padrinho” intelectual, Jeff Sessions: https://www.washingtonpost.com/politics/trumps-hard-line-actions-have-an-intellectual-godfather-jeff-sessions/2017/01/30/ac393f66-e4d4-11e6-ba11-63c4b4fb5a63_story.html
Paul
Wolfowitz no NT Times e os funcionários de carreira do State Departament que
discordam de Trump: https://www.nytimes.com/2017/01/31/opinion/a-diplomats-proper-channel-of-dissent.html?_r=2
O
pensamento “apocalíptico” na época de Trump: https://www.foreignaffairs.com/articles/2016-11-20/apocalyptic-thought-age-trump
Obama
assinou mais ordens executivos nos 12 primeiros dias: https://qz.com/899741/how-many-executive-orders-has-donald-trump-signed-compared-to-barack-obama/
O
“peculiar” populismo de Trump: https://www.nytimes.com/2017/02/02/opinion/the-peculiar-populism-of-donald-trump.html
Dan Drezner, Trump terminará com o “excepcionalismo” Americano: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2017/02/01/america-the-unexceptional/
Conselheiro
de Trump acusa Alemanha de “explorar” EUA com Euro forte: http://foreignpolicy.com/2017/02/02/trumps-currency-war-against-germany-could-destroy-the-european-union/
Vários
Brexit
white paper: https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/588948/The_United_Kingdoms_exit_from_and_partnership_with_the_EU_Web.pdf
A
Alemanha e as (im)possibilidades face à Ordem Liberal:
https://www.foreignaffairs.com/articles/germany/2017-01-29/looking-germany
O International
Crisis Group analisa o estado do Acordo nuclear com o Irão: http://www.css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/ICG-Implementing%20the%20Iran%20Nuclear%20Deal,%20A%20Status%20Report.pdf
A
“cultura europeia”: uma tradição inventada?: https://aeon.co/ideas/european-culture-is-an-invented-tradition
Jeffrey
Sachs e a necessária “Idade da cooperação” no “Século Global”: http://www.bostonglobe.com/opinion/2017/01/22/the-shifting-global-landscape/O844Wwn9EYsB5yXGSVPkLK/story.html?event=event25
Tucídides
e o ciberespaço: http://blogs.cfr.org/cyber/2017/01/30/4582/
Estudo da RAND sobre a contenção regional do ISIS: http://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/perspectives/PE200/PE228/RAND_PE228.pdf
A
lei internacional aplica-se ao ISIS?: http://www.gcsp.ch/download/6501/152083
Do INSS, “World without order”
(Outubro 2016): http://www.css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/INSS-Beyond%20Convergence,%20World%20Without%20Order%20.pdf
Indexes
Estatísticas
globais do INSS (Israel) sobre ataques terroristas em 2016: http://www.inss.org.il/uploadImages/systemFiles/No.%20887%20-%20Terrorism%202016%20report_website.pdf
Videos
O
AEI debate a “Presidência Imperial” de Trump: http://www.aei.org/publication/will-trump-continue-the-imperial-presidency-trend/
Madeleine
Allbright no CSIS sobre o papel da América no Mundo: https://www.youtube.com/watch?v=SWdQQbayiYk
China
O
fim do TPP é o que de melhor podia acontecer à China: http://nationalinterest.org/feature/the-death-tpp-the-best-thing-ever-happened-china-19232?page=show
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