segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Trump e o "Pós-Fascismo"



O Pós-Fascismo

Trump, segundo a maioria dos pensadores do fenómeno, pode encaixar na ideologia populista.

O pensamento académico sobre o populismo é heterodoxo, mas pode-se resumir na definição do investigador holandês Cas Mudde, como a separação da sociedade em dois grupos antagónicos homogéneos, onde o “povo puro” se confronta com a “elite corrupta” e a virtuosa vontade popular deve sair vitoriosa face à corrupção moral dos actores da elite.

Para o dito povo cristalino, os dias de fúria traduzidos em ordens executivas sucessivas e o discurso radical contra o “establishment”, são a demonstração inequívoca que o actual Presidente é o “herói” que luta contra Washington e toda a onda iluminista que corroía os EUA.

A turba que vocifera contra Trump, não passa para o universo de “deploráveis” que idolatra o Presidente dos EUA, de uma minoria receosa pela perda de privilégios históricos.

David Frum, o “speechwriter” de George W. Bush que cunhou o termo “eixo do mal”, escreve esta semana na “The Atlantic” que os míticos “checks and balances” que o mundo civilizado confia serem suficientes para deter os ímpetos de Trump, são uma metáfora e não um mecanismo.

Tem razão.

Ainda para Frum, muitos dos constrangimentos que impendem sobre o inquilino da Casa Branca passam pela ética do próprio titular do cargo, não se podendo entender a chegada à Sala Oval de alguém a quem radicalmente faltem tais qualidades, sendo que no caso de Trump existe até a franca possibilidade de beneficiar pessoal e patrimonialmente da sua posição.

O autor argui que os “mass media”, a opinião, o escrutínio e a pressão públicas são essenciais para evitar uma queda na autocracia, não deixando de notar que a hipótese é patente.

A imprevisibilidade que Trump veio introduzir no sistema político dos EUA, e consequentemente à escala global, merece contudo uma atenção mais particular, dispensando alguns comentários ou análises supérfluas sobre as suas eventuais perturbações psiquiátricas, que fazem agora o gáudio da plateia ansiosa.

O problema último embora nuclear na apreciação ao Presidente norte-americano assenta em algumas características pessoais e políticas que podem extravasar o mero conceito populista.

Hannah Arendt em as “Origens do Totalitarismo”, trabalhando sobre o Nazismo e o Comunismo Estalinista, salienta o reforço do manancial de propaganda, a aversão à verdade e o uso do “terror” como fundamentais para erigir tais regimes.
Resumidamente, enquanto que numa concepção populista o objectivo é o domínio absoluto do jogo político, o totalitarismo pretende invadir cada aspecto da vida individual e colectiva.

Bastante criticismo já foi elaborado sobre o rigor da obra de Arendt, mas destaquemos recentemente no “The Guardian” a advertência da académica Griselda Pollock, especialista na obra da autora, sobre o perigo de traçar paralelismos com a situação actual nos EUA.

Há contudo que introduzir uma outra fenomenologia que talvez explique melhor como Trump pode tornar-se perigoso, a muito breve trecho.

Fala-se do Fascismo.

Seguindo os necessários cânones académicos, encontramos novamente uma multiplicidade de definições, desde a sua genealogia, a sua doutrina concreta ou as suas aplicações regionais.

Autores como Umberto Eco, Stanley Payne, Robert Paxton, Emílio Gentile, Michael Mann, Roger Griffin ou Ernst Nolte apresentam um vasto repertório argumentativo que discute e analisa a temática, expondo inúmeras características do que podemos consensualizar como Fascismo.

Não sendo possível por economia de escrita perorar sobre todos, nem fazer uma resenha genericamente aceitável, centremo-nos naquilo que identificamos mais facilmente com Trump, e que pode ser encontrado em todos estes autores.

A criação de um movimento de massas que aprecie o culto da acção, um hiper-nacionalismo, o ódio à “diferença”, o apelo às frustrações sociais, um “machismo” disciplinador, viril, intolerante e condenatório de hábitos sexuais “desviantes”, um vocabulário limitado, um aparato policial que reprima a dissidência, a figura do líder como “chefe” carismático, uma politica externa baseada somente no interesse nacional e com laivos imperialistas, o elaborar de um processo de purificação e renascimento que visa livrar a sociedade da “decadência”, uma ligação quase espiritual com uma “verdade” só ao alcance dos privilegiados são pontos em comum em algumas das definições.

Claro que é necessário e imprescindível o desaparecimento (ou controle) de todos os mecanismos e estruturas (partidos políticos, imprensa, sindicatos, universidades, entre outros) que nos EUA constituem a vasta gama de freios que impediu até hoje qualquer degenerescência democrática a nível nacional.

Todavia, só quem não sabe, ou não quer saber, é que pode omitir o Populismo estatal que durante séculos imperou no Sul dos EUA, permitindo e mantendo a segregação racial e privando milhões de cidadãos dos benefícios de um Estado de direito.

A diferença agora é que Trump, com um “movimento” e um projecto que se caracteriza com a tipologia atrás tipificada, é o Presidente dos EUA e reúne maioria nas 2 câmaras legislativas.

Senão, vejamos:
Trump efectuou um discurso inaugural de cunho egocêntrico, onde marginaliza as instituições, elege o slogan do adepto Nazi Charles Lindbergh “America First”, clama pelo patriotismo económico mas reúne com as maiores corporações, propõe o isolacionismo (mas intenta determinar obrigações à Austrália ou ao México, e coloca o Irão “on notice”, enquanto ameaça comercial e militarmente a China) sabendo-se hegemónico e visando alianças com potencias tidas como revisionistas, e fala de uma verdade e de uma visão que só ele pode concretizar.

Há que contextualizar toda a personagem Trump, bem como a eventual implosão institucional que não é aparentemente visível, mas não é um salto quântico assim tão exagerado, nem um mero diletantismo intelectual preconizarmos que esta patologia fascista está patente em Trump, até pela forma com que olha qualquer tipo de dissensão, a que devemos adicionar o uso e repercussão incomensurável das novas tecnologias, que permitem a construção de uma máquina de propaganda incomparavelmente superior à que Arendt alguma vez tenha ponderado e onde a factualidade é diariamente abolida.

Espera-se que as instituições (e o cariz excepcional de que falava Tocqueville) e a própria percepção da necessidade de exercer o poder em democracia sejam factores suficientes para evitar a máxima de Mussolini, “tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”.
No entanto, é fácil percepcionar que nas democracias liberais, uma receita conjugada de isolacionismo, proteccionismo e medidas de exclusão social não têm resultados económicos, nem produzirão pacificação ou amparo social e institucional.
E sem respaldo económico, social ou institucional, não há politico que se reeleja em democracia.
Orwell escreveu que “dizer a verdade em tempos de mentira universal é um acto revolucionário”.

Se a pós-modernidade, a pós-democracia e a pós-verdade entraram em força no nosso vocabulário diário, anseia-se que uma qualquer espécie de pós-fascismo (sobre este tema em particular apenas o académico húngaro Gáspár Tamás tem elaboração teórica) não se constitua como narrativa ganhadora sob pena da nossa desgraça colectiva, mesmo que por cuidados múltiplos, racionais ou supersticiosos, não se queira quase nunca falar do Diabo.

Não houve até hoje nenhum ditador a quem mentes esclarecidas não tivessem vaticinado curta duração.

Os lamentos posteriores cuidam de perceber que foram demasiado tarde para evitar que conquistassem o poder.

Todo o Poder.





Links da semana

Trump
A “American Interest” entende que Andrew Jackson é o “vencedor” destas eleições: http://www.the-american-interest.com/2017/01/30/andrew-jackson-so-much-winning/
Stephen Walt, Trump e a revolta na política externa: http://foreignpolicy.com/2017/02/03/trump-has-already-blown-it/
Autores como Joschka Fischer, Joseph Nye e outros sobre a actual desordem internacional: https://www.project-syndicate.org/onpoint/the-god-of-carnage-2017-01
Dani Rodrik na “Foreign Policy” sobre o Comércio Livre e os populistas:

Bernard-Henri Levy acompanhou a inauguração de Trump com Philip Roth:

http://www.thedailybeast.com/articles/2017/01/27/donald-trump-s-plot-against-america-watching-the-inauguration-with-philip-roth.html

O ex-embaixador Holandês Justus deVissier defende a causa da Ordem Liberal: http://lobelog.com/in-defense-of-a-liberal-order/
O eclipse do Ocidente, do historiador John Bew, no “The New Statesman”: http://www.newstatesman.com/world/2017/01/eclipse-west
Jonah Goldberg no AEI contra o “America First”: http://www.aei.org/publication/what-trump-means-when-he-says-america-first/
Richard Stengel, na “The Atlantic”, o Fim do Século Americano: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/01/end-of-the-american-century/514526/
O estilo de liderança de Trump, “paper” realizado por um psicólogo: http://digitalcommons.csbsju.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1109&context=psychology_pubs
Segundo a Brookings, com Trump a percepção dos norte-americanos para com os Muçulmanos e o Islão tem-se alterado (para melhor): https://www.brookings.edu/blog/markaz/2017/01/28/how-trump-changed-americans-view-of-islam-for-the-better/
O anti-secularismo é uma corrente profunda no pensamento “conservador” norte-americano: https://theconversation.com/how-distrust-of-unbelievers-runs-deep-in-american-history-71776
Mais de 1/3 dos Nobel norte-americanos são de imigrantes ou nascidos fora dos EUA: https://theconversation.com/americas-nobel-success-is-the-story-of-immigrants-67219
Historicamente, sempre que os EUA baniram imigrantes, colocam em risco alianças e aumentam o perigo de criarem novos inimigos: https://theconversation.com/trumps-immigration-order-is-bad-foreign-policy-72053
David Milliband em opinião no NY Times, e a tragédia dos EUA fugirem ao seu papel de liderança global: https://www.nytimes.com/2017/01/27/opinion/donald-trumps-un-american-refugee-policy.html
Até a Fundação dos irmãos Koch está contra a ordem executiva anti-imigração de Trump: https://www.washingtonpost.com/news/post-politics/wp/2017/01/29/koch-network-condemns-trump-ban-on-refugees-and-immigrants
Eliot Cohen e o momento especial da História norte-americana, inclusive para os conservadores: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/01/a-clarifying-moment-in-american-history/514868
Richard Lachmann no Valdai, o dia em que a Hegemonia norte-americana morreu: http://valdaiclub.com/a/highlights/the-day-american-hegemony-died/
No Brookings, explica-se o porquê de mudar a embaixada para Jerusalém não ser sensato:
A restrição aos imigrantes causará impacto no “soft power” norte-americano?: https://theconversation.com/trumps-immigration-ban-will-it-undercut-american-soft-power-72156
David Frum, “speechwriter” de George W. Bush (creditado com a expressão “eixo do mal”), sobre a possibilidade de uma autocracia sobre Trump: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2017/03/how-to-build-an-autocracy/513872/
Donald Tusk em carta aos 27 chefes de Estado, nas vésperas da cimeira de Malta, sobre o futuro da EU e a ameaça nacionalista e populista: http://dsms.consilium.europa.eu/952/Actions/Newsletter.aspx?messageid=10352&customerid=28737&password=enc_4137374533454435_enc
Paul Wolfowitz no NT Times e os funcionários de carreira do State Departament que discordam de Trump: https://www.nytimes.com/2017/01/31/opinion/a-diplomats-proper-channel-of-dissent.html?_r=2
O pensamento “apocalíptico” na época de Trump: https://www.foreignaffairs.com/articles/2016-11-20/apocalyptic-thought-age-trump

Dan Drezner, Trump terminará com o “excepcionalismo” Americano: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2017/02/01/america-the-unexceptional/

Conselheiro de Trump acusa Alemanha de “explorar” EUA com Euro forte: http://foreignpolicy.com/2017/02/02/trumps-currency-war-against-germany-could-destroy-the-european-union/

Vários
A Alemanha e as (im)possibilidades face à Ordem Liberal: https://www.foreignaffairs.com/articles/germany/2017-01-29/looking-germany
A “cultura europeia”: uma tradição inventada?: https://aeon.co/ideas/european-culture-is-an-invented-tradition
Jeffrey Sachs e a necessária “Idade da cooperação” no “Século Global”: http://www.bostonglobe.com/opinion/2017/01/22/the-shifting-global-landscape/O844Wwn9EYsB5yXGSVPkLK/story.html?event=event25
Tucídides e o ciberespaço: http://blogs.cfr.org/cyber/2017/01/30/4582/

Estudo da RAND sobre a contenção regional do ISIS: http://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/perspectives/PE200/PE228/RAND_PE228.pdf

A lei internacional aplica-se ao ISIS?: http://www.gcsp.ch/download/6501/152083

Indexes
Estatísticas globais do INSS (Israel) sobre ataques terroristas em 2016: http://www.inss.org.il/uploadImages/systemFiles/No.%20887%20-%20Terrorism%202016%20report_website.pdf

Videos
O AEI debate a “Presidência Imperial” de Trump: http://www.aei.org/publication/will-trump-continue-the-imperial-presidency-trend/
Madeleine Allbright no CSIS sobre o papel da América no Mundo: https://www.youtube.com/watch?v=SWdQQbayiYk

China

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