segunda-feira, 29 de maio de 2017

O (in)sucesso do terrorismo depende de ti



Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL



Em 2008, no auge da crise económica e financeira, o historiador britânico Tony Judt em “O Século XX Esquecido” afirmava: “O medo está a ressurgir como ingrediente ativo na vida política das democracias ocidentais. Medo do terrorismo, decerto; mas também e talvez de forma mais insidiosa, medo da rapidez incontrolável da mudança (…), medo de que já não sejamos só nós que já não conseguimos moldar as nossas vidas, mas que também as autoridades tenham perdido o controlo, para forças fora do seu alcance.”

Em 2017, a perceção não se alterou. Na expressão do uruguaio Eduardo Galeano, o medo aparece como o “gás paralisante” que simultaneamente conduz e (tem) condicionado a nossa ação. A estatística e o mundo real comprovam-no.

Estatisticamente, o último Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre as perceções de ameaça e segurança na Europa, revela-nos que a principal preocupação em 2015 era ocupada pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).

Empiricamente, assim que um ataque terrorista é perpetrado – seja na Nigéria, Turquia, Egipto, Paris, Londres, Berlim ou Manchester – o mundo apressa-se a elaborar um rol de discursos de pesar e, com mais ou menos atenção mediática, ouvem-se diversas condenações acompanhadas por abraços inter-religiosos. Os líderes estatais prontificam-se a sublinhar uma retórica assertiva contra a ameaça e os Estados edificam as suas magnânimas operações securitárias como é o caso do Reino Unido, Bélgica e França.

Estes discursos e ações contra o terrorismo são importantíssimos e necessários, sem dúvida, mas têm-se relevado uma contínua tentativa falhada de acertar no alvo a abater. Impulsionadas pelo medo generalizado e aliadas ao desconhecimento sobre o fenómeno ou à ignorância quanto ao trabalho das forças de segurança, as reações estatais e os vários discursos têm gerado um manancial de visões fatalistas na esteira das palavras de Judt. O que está em causa é a alegada impossibilidade de conter a ameaça do terrorismo.

Estas posições ultrapessimistas e erróneas nada servem senão para contribuir e reforçar o perigo da ameaça.

Para Bruce Hoffman, um dos mais conceituados analistas políticos na área do terrorismo, a capacidade dos grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS aprenderem com outros semelhantes (amigos ou inimigos), entre outros aspetos, imprime ao terrorismo um carácter de "intratabilidade". No entanto, pese embora a possível veracidade desse aspeto, defender explícita ou implicitamente que o terrorismo é inevitável, é uma forma de descredibilizar a ação das forças de segurança, potenciar a frustração de determinados esforços e, sobretudo, contribuir para alimentar o sentimento de insegurança nas populações.

Ninguém nega as mortes devastadoras e a natureza descentralizada e  aleatória do fenómeno. O terrorismo é uma ameaça séria, com resultados muito eficazes, por demais visíveis, horrendos e temíveis. Mas, é imperioso não cair em fatalismos pois isso é radicalizar o próprio problema, abrindo caminho para o sucesso do terrorismo.

Independentemente da ideologia associada, a chave estratégica das narrativas extremistas como a jihadista assenta em três objetivos centrais: encontrar, explorar e criar o caos.

Pretende-se fomentar sociedades polarizadas, criar antagonismos que potencialmente alimentem o extremismo violento, a radicalização e o terrorismo. A essência da sobrevivência de qualquer grupo terrorista baseia-se em conseguir perpetuar a sua existência através da intensa publicidade, exposição e coação psicológica sobre um determinado governo ou população a fim de, em última instância, alcançar determinados objetivos geralmente políticos. Tal como numa guerra de guerrilha, “they aim for the hearts and minds”, pois o terrorismo é sobretudo uma estratégia psicológica que se alimenta do pânico generalizado e do medo irracional.

O depoimento de vários jihadistas via online, atuais combatentes na Síria e no Iraque, comprovam esta lógica. O académico norte-americano Amarnath Amarasingam argumenta que: “[T]hese groups’ goal [is] (...) about weakening the social fabric of the country, chipping away at civil liberties and exacerbating tensions that lie just below the surface. (...) Jihadist groups were never naive enough to think that they could defeat the U.S. militarily on the battlefield. Rather, the point was to draw Americans into a war of attrition, let them punch themselves out, make American Muslims aware of their insecure place in the country, and make American citizens afraid of each other”.

Ora, as reações exageradas, quer por parte dos Estados, líderes políticos ou académicos (aliadas ao mediatismo consumista) apenas contribuem paradoxalmente para a difusão desses propósitos. Ao invés de se fomentar a segurança e uma política de apaziguamento, damos azo justamente ao contrário, ao efeito perverso. Nós, indivíduos, sociedades e estados, ao dar continuidade ao espetáculo teatral do terrorismo quer a nível operacional ou intelectual, estamos a contribuir inadvertidamente para o seu reforço, alimentando a potencial frustração de quaisquer esforços contraterroristas em curso como as detenções de indivíduos.

Os mass media (e aparentemente também as mentes ocas do FBI) divulgam material que deveria ser classificado e continuam a explorar o drama coletivo; os serviços de informações aparentemente ignoram avisos prévios de outros semelhantes e padecem de recursos para manter sob vigilância todos os referenciados (só a França tem 15000 suspeitos na sua watchlist); o cidadão comum coloca-se em punho com o telemóvel na mão pronto a gravar tudo o que estiver a seu alcance. Deste modo, perdem-se as noções de confiança nas autoridades e a de sigilo.

Ainda assim, “no one gives a damn” sobre as detenções feitas ou quantas redes já foram desmanteladas. As pessoas não percecionam as medidas das Forças de Segurança como eficazes porque o que vêm é apenas a morte física. O impacto visual dos ataques é o maior inimigo do sucesso contraterrorista pelo medo que provoca. E é justamente no medo causado e percecionado que reside o maior perigo do terrorismo: quando massificado, é irracional e rapidamente contagioso. Este medo é o que, por sua vez, alimenta a ideia da suposta inoperância das forças de segurança e gera opiniões fatalistas.

Em última instância e com o nosso aval, caímos na “ditadura do medo” como Galeano designou.
Somos voluntariamente reféns de um pânico, fazendo eco das ideias fundamentalistas, criando barreiras e alimentando estereótipos e antagonismos sem sentido.
O insucesso do terrorismo depende de ti, de nós. De não sermos cativos do propósito último de qualquer terrorista: a tentativa de alterar o quotidiano rotineiro, de mudar formas de pensar, agir e sentir.

A autora adota o Acordo Ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário