Por: Joana A. Lopes, Mestranda em RI, FCSH-UNL
Em
2008, no auge da crise económica e financeira, o historiador britânico Tony
Judt em “O Século XX Esquecido” afirmava: “O medo está a ressurgir como
ingrediente ativo na vida política das democracias ocidentais. Medo do
terrorismo, decerto; mas também e talvez de forma mais insidiosa, medo da
rapidez incontrolável da mudança (…), medo de que já não sejamos só nós que já
não conseguimos moldar as nossas vidas, mas que também as autoridades tenham
perdido o controlo, para forças fora do seu alcance.”
Em
2017, a perceção não se alterou. Na expressão do uruguaio Eduardo Galeano, o
medo aparece como o “gás paralisante” que simultaneamente conduz e (tem)
condicionado a nossa ação. A estatística e o mundo real comprovam-no.
Estatisticamente,
o último Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre as perceções de ameaça e
segurança na Europa, revela-nos que a principal preocupação em 2015 era ocupada
pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).
Empiricamente,
assim que um ataque terrorista é perpetrado – seja na Nigéria, Turquia, Egipto,
Paris, Londres, Berlim ou Manchester – o mundo apressa-se a elaborar um rol de
discursos de pesar e, com mais ou menos atenção mediática, ouvem-se diversas condenações
acompanhadas por abraços inter-religiosos. Os líderes estatais prontificam-se a
sublinhar uma retórica assertiva contra a ameaça e os Estados edificam as suas
magnânimas operações securitárias como é o caso do Reino Unido, Bélgica e França.
Estes
discursos e ações contra o terrorismo são importantíssimos e necessários, sem
dúvida, mas têm-se relevado uma contínua tentativa falhada de acertar no alvo a
abater. Impulsionadas pelo medo generalizado e aliadas ao desconhecimento sobre
o fenómeno ou à ignorância quanto ao trabalho das forças de segurança, as
reações estatais e os vários discursos têm gerado um manancial de visões
fatalistas na esteira das palavras de Judt. O que está em causa é a alegada
impossibilidade de conter a ameaça do terrorismo.
Estas
posições ultrapessimistas e erróneas nada servem senão para contribuir e
reforçar o perigo da ameaça.
Para
Bruce Hoffman, um dos mais conceituados analistas políticos na área do
terrorismo, a capacidade dos grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o ISIS
aprenderem com outros semelhantes (amigos ou inimigos), entre outros aspetos,
imprime ao terrorismo um carácter de "intratabilidade". No entanto,
pese embora a possível veracidade desse aspeto, defender explícita ou
implicitamente que o terrorismo é inevitável, é uma forma de descredibilizar a
ação das forças de segurança, potenciar a frustração de determinados esforços
e, sobretudo, contribuir para alimentar o sentimento de insegurança nas
populações.
Ninguém nega
as mortes devastadoras e a natureza descentralizada e aleatória do
fenómeno. O terrorismo é uma ameaça séria, com resultados muito eficazes, por
demais visíveis, horrendos e temíveis. Mas, é imperioso não cair em fatalismos
pois isso é radicalizar o próprio problema, abrindo caminho para o sucesso
do terrorismo.
Independentemente
da ideologia associada, a chave estratégica das narrativas extremistas como a
jihadista assenta em três objetivos centrais: encontrar, explorar e criar o
caos.
Pretende-se
fomentar sociedades polarizadas, criar antagonismos que potencialmente
alimentem o extremismo violento, a radicalização e o terrorismo. A essência da
sobrevivência de qualquer grupo terrorista baseia-se em conseguir perpetuar a
sua existência através da intensa publicidade, exposição e coação psicológica
sobre um determinado governo ou população a fim de, em última instância,
alcançar determinados objetivos geralmente políticos. Tal como numa guerra de
guerrilha, “they aim for the hearts and minds”, pois o terrorismo é sobretudo
uma estratégia psicológica que se alimenta do pânico generalizado e do medo
irracional.
O depoimento
de vários jihadistas via online, atuais combatentes na Síria e no Iraque,
comprovam esta lógica. O académico norte-americano Amarnath Amarasingam
argumenta que: “[T]hese groups’ goal [is] (...) about weakening the social
fabric of the country, chipping away at civil liberties and exacerbating
tensions that lie just below the surface. (...) Jihadist groups were never
naive enough to think that they could defeat the U.S. militarily on the
battlefield. Rather, the point was to draw Americans into a war of attrition,
let them punch themselves out, make American Muslims aware of their insecure
place in the country, and make American citizens afraid of each other”.
Ora, as
reações exageradas, quer por parte dos Estados, líderes políticos ou académicos
(aliadas ao mediatismo consumista) apenas contribuem paradoxalmente para a
difusão desses propósitos. Ao invés de se fomentar a segurança e uma política
de apaziguamento, damos azo justamente ao contrário, ao efeito perverso. Nós,
indivíduos, sociedades e estados, ao dar continuidade ao espetáculo teatral do
terrorismo quer a nível operacional ou intelectual, estamos a contribuir
inadvertidamente para o seu reforço, alimentando a potencial frustração de
quaisquer esforços contraterroristas em curso como as detenções de indivíduos.
Os mass
media (e aparentemente também as mentes ocas do FBI) divulgam material que
deveria ser classificado e continuam a explorar o drama coletivo; os serviços
de informações aparentemente ignoram avisos prévios de outros semelhantes e
padecem de recursos para manter sob vigilância todos os referenciados (só a
França tem 15000 suspeitos na sua watchlist); o cidadão comum coloca-se em punho
com o telemóvel na mão pronto a gravar tudo o que estiver a seu alcance. Deste
modo, perdem-se as noções de confiança nas autoridades e a de sigilo.
Ainda
assim, “no one gives a damn” sobre as detenções feitas ou quantas
redes já foram desmanteladas. As pessoas não percecionam as medidas
das Forças de Segurança como eficazes porque o que vêm é apenas a morte física.
O impacto visual dos ataques é o maior inimigo do sucesso contraterrorista pelo
medo que provoca. E é justamente no medo causado e percecionado que reside o
maior perigo do terrorismo: quando massificado, é irracional e rapidamente
contagioso. Este medo é o que, por sua vez, alimenta a ideia da suposta
inoperância das forças de segurança e gera opiniões fatalistas.
Em
última instância e com o nosso aval, caímos na “ditadura do medo” como Galeano
designou.
Somos voluntariamente
reféns de um pânico, fazendo eco das ideias fundamentalistas, criando barreiras
e alimentando estereótipos e antagonismos sem sentido.
O
insucesso do terrorismo depende de ti, de nós. De não sermos cativos do
propósito último de qualquer terrorista: a tentativa de alterar o quotidiano
rotineiro, de mudar formas de pensar, agir e sentir.
A
autora adota o Acordo Ortográfico.

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