quinta-feira, 4 de maio de 2017

A França irrelevante, A essência de Trump e Hillary Clinton como rodapé





As eleições francesas

Quando o senhor Macron jurar como Presidente da República Francesa, iniciar-se-á o mandato Hollande 2.0.

São inúteis exercícios estatísticos, leituras ou cálculos de projecções de votos, sendo relevante a conjugação de duas considerações que urgem ser ponderadas.

Uma, que nos remete para o papel internacional da França.
A discussão que paira sobre o suposto digladiar globalização – nacionalismo reflectido nas escolhas entre a criatura saída da geringonça “En Marche” ou a dilecta filha do pai negacionista do Holocausto é estéril.
Tal interpretação teria acuidade se os franceses contassem para algo no panorama global, algo que não se verifica – dando certo beneficio histórico aos gauleses – desde a crise do Suez em 1956, por alturas em que ainda sobrevivia a III Republica.

Já a segunda assenta nas próprias dinâmicas internas da nação gaulesa.
A decadência francesa é resultado da ausência de reformas estruturais na economia e no sistema político e num confronto social e cultural daí resultante que tem acendalha permanente nos meios urbanos.

Miterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande foram incapazes de resolver a paralisação sistémica francesa, Macron sofrerá das mesmas agruras no Eliseu.
O futuro Presidente vincará somente a vertigem declinante traçada há mais de uma década, que coincide quase em simultâneo com a chegada ao poder da senhora Merkel e a consolidação da hegemonia alemã.


Trump, a “Coisa”

Existe um pequeno filão na Ciência Política e nas Relações Internacionais que tenta traçar paralelos com algumas obras e géneros cinematográficos e casos específicos das ditas Ciências Sociais.

Após o sucesso de “Alien, o 8º passageiro” em 1979 realizado por Ridley Scott surgiram vários filmes que mesclam ficção científica e terror, do qual destaco “The Thing”, de 1982 e dirigido pela mestria de John Carpenter.

O filme de Carpenter aborda a capacidade de um organismo extraterrestre eliminar e assimilar vítimas humanas, replicando a sua aparência, gerando um frenesim paranóico entre os integrantes da estação científica onde se passa a acção (na Antárctica), e que são aniquilados sequencialmente, salvo duas personagens que na cena final se confrontam expectantes sobre qual deles é o “hóspede” do predador alienígena.

Esta parábola serve a propósito do actual Presidente dos EUA, Donald Trump.

Na época que vivemos, continuamos a não resistir ao hábito cultural e “ocidental” de classificação e catalogação num confronto de oposições binárias como Jacques Derrida falava já há décadas: bom/mau; branco/preto; inocente/culpado.

Trump que perfez 100 dias da existência da sua administração já foi rotulado de “populista”, “fascista”, “autoritário”, “nacionalista”, “isolacionista”, “imperialista”, “jacksoniano”, “proteccionista”, “jeffersoniano”, “neo-conservador”, “militarista” e outras coisas.

Os Liberais já o assolaram com argumentação “ad hitlerum” embora depois o incensassem pela revisão da sua “foreign policy” (Síria, Coreia do Norte e Rússia) enquanto que os Conservadores tremem agora com parte da sua agenda de previsíveis excessos fiscais internos e internacionalismo interventivo.

Ler entrevistas de Trump é um desafio constante à imaginação e a algum rigor científico que permita sistematizar o seu pensamento.

Criaturas de pena leve têm ultimamente pugnado pela plasticidade e versatilidade de Trump em adaptar recursos pós-modernistas à sua retórica e acção, dado que não sendo plausível conhecer toda a realidade que habitamos, cada um a pode interpretar e plasmar, contrastando com os ancestrais ditames do que se supõe ser a “verdade”.

Em 1982, John Carpenter apresenta-nos uma “coisa” extraterrestre letal que além de aniquilar, reproduz a forma humana que ocupa, permitindo-se viver no novo corpo sem que ninguém se aperceba.

Em 2017, Donald Trump tem a capacidade de emular múltiplas personagens, sem nunca se comprometer, transformando ignorância em política de imprevisibilidade e a cedência ao aparelho militar-industrial numa espécie de estratégia.
Consegue em simultâneo ser um internacionalista nacionalista, extorsionário diplomata, liberal reaccionário, pacifista militarista, proteccionista mercantilista ou um exibicionista tímido.

Perceber Trump requer antes de mais a tarefa de não dispersarmos a nossa compreensão no que é essencial, ou seja, naquela cabeça a separação e fiscalização dos poderes, os direitos e as garantias legais são dispensáveis.

Não se conclui tal necessitando de grande elaboração académica, mas antes verificando que estas premissas foram e são constantes e indissociáveis da sua natureza pessoal, profissional e política.

E isso diz-nos tudo acerca da criatura, assumindo Trump qualquer morfologia que o momento se encarregue de lhe ditar.


Hillary Clinton como nota de rodapé

A senhora Clinton voltou ao reino dos vivos numa entrevista/conferência de 35 minutos com a jornalista da CNN, Christiane Amanpour, perante uma plateia deliciada e a vivenciar uma espécie de história contrafactual.

Compartilhou com as extasiadas almas que a aplaudiam estar a concluir um livro onde abordará a derrota eleitoral com Trump, dizendo “ser a única responsável” pelo resultado final. Mas a lucidez da ex-Secretária de Estado foi efémera. Decretou que a vitória era “certa”, salvo uns aborrecimentos que fez questão de elencar.

O preconceito e misoginia que grassam na sociedade, a ausência de rigor político nos debates, a interferência de Putin, a história eleitoral norte-americana, a carta do director do FBI e as denúncias do senhor Assange.

A senhora Clinton não gasta dois segundos a falar de Bernie Sanders, das primárias armadilhadas, do desaparecimento político dos Democratas e parece que continua sem um pingo de consciência sobre o que a sua figura representa no eleitor americano médio.




Links da Semana

Alemanha
Henry Kissinger recupera a figura de Konrad Adenauer como o homem que salvou a Alemanha Federal e consolidou a sua ligação com os EUA:

China

Coreia do Norte
RAND: Preparar a elite norte coreana para a reunificação: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1900/RR1985/RAND_RR1985.pdf

Israel-Palestina
Carta aberta de 2 académicos (Falk e Tilley) a Nikki Haley sobre uma investigação de ambos relativa ao apartheid em Israel: https://www.thenation.com/article/open-letter-to-un-ambassador-nikki-haley-on-our-report-on-apartheid-in-israel/

Populismo
Paper do Instituto Delors sobre as redes sociais e o sucesso do populismo: http://www.delorsinstitut.de/2015/wp-content/uploads/2017/04/20170419_SocialNetworksandPopulism-Dittrich.pdf

Rússia

O capitalismo neo-feudalista Russo: https://www.project-syndicate.org/commentary/russia-neofeudal-capitalism-putin-by-anders-aslund-2017-04


Trump

Administração
O ex-nº 2 da Goldman Sachs é a “estrela em ascensão” na administração Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/04/22/gary-cohn-financial-crisis-trump-215059
Fareed Zakaria e a “educação” de Trump:
A Atlantic verifica o cumprimento das promessas que Trump fez na campanha: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/trump-promises-cheat-sheet/507347/
Donald Trump Jr e os 100 primeiros dias da administração do seu pai: http://www.foxnews.com/opinion/2017/04/29/donald-trump-jr-my-fathers-first-100-days.html

Defesa e Política Externa
Walter Russell Mead defende a junção do Jacksonianismo com o Hamiltonianismo, um nacionalismo benigno e um internacionalismo liberal: https://www.wsj.com/articles/nationalist-shouldnt-be-a-dirty-word-1493678981
Stephen Walt e os erros de Trump nos 1ºs 100 dias
Hal Brands e a doutrina da incompetência: https://warontherocks.com/2017/05/the-incompetence-doctrine/
Rex Tillerson traça as directrizes da Política Externa dos EUA: https://www.theatlantic.com/news/archive/2017/05/rex-tillerson-america-first-foreign-policy/525309/
A estratégia dos EUA no Afeganistão é um modelo para transformar a região: https://warontherocks.com/2017/04/its-much-bigger-than-afghanistan-u-s-strategy-for-a-transformed-region/
Entrevista do Secretário de Estado Rex Tillerson:
James Kirchick na American Interest questiona as responsabilidades sobre quem “matou” a Ordem internacional Liberal: https://www.the-american-interest.com/2017/05/03/who-killed-the-liberal-world-order/
Trump renegoceia NAFTA:

Respostas a Trump

Hillary Clinton em entrevista a Christiane Amanpour sobre as eleições de 2016: http://www.refinery29.com/2017/05/152592/hillary-clinton-christiane-amanpour-live-interview

“Trumpismo”
As questões sobre a liberdade de expressão em redor do confronto globalismo-nacionalismo: https://www.the-american-interest.com/2017/04/27/free-speech-and-the-nationalist-globalist-divide/

Timothy Snyder acredita que Trump estará tentado a fazer um Golpe de forma a derrubar a democracia: http://www.salon.com/2017/05/01/historian-timothy-snyder-its-pretty-much-inevitable-that-trump-will-try-to-stage-a-coup-and-overthrow-democracy

O nepotismo da administração Trump assemelha-se aos exemplos dos países mais corruptos do mundo: http://www.huffingtonpost.com/entry/trump-administration-nepotism_us_58fa746de4b06b9cb916f736
No NY Times, Pankaj Mishra traça a caminhada do natural excepcionalismo optimista para a actual consagração do nihilismo norte-americano:  https://www.nytimes.com/2017/04/28/opinion/america-from-exceptionalism-to-nihilism.html

TRI/CP
No Boston Globe, Niall Ferguson e Zakaria discutem se a ordem internacional como a conhecemos terminou?: http://www.theglobeandmail.com/news/world/goodbye-to-all-that-is-the-international-order-as-we-know-itover/article34826488
Hans Kundnani, do GMF, O que é a Ordem Internacional Liberal: http://www.gmfus.org/file/10159/download

União Europeia
Ferdinando Giugliano e o próximo problema europeu, a Itália: https://www.bloomberg.com/view/articles/2017-05-02/italy-is-europe-s-next-big-problem





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