As eleições francesas
Quando
o senhor Macron jurar como Presidente da República Francesa, iniciar-se-á o
mandato Hollande 2.0.
São
inúteis exercícios estatísticos, leituras ou cálculos de projecções de votos, sendo
relevante a conjugação de duas considerações que urgem ser ponderadas.
Uma,
que nos remete para o papel internacional da França.
A
discussão que paira sobre o suposto digladiar globalização – nacionalismo reflectido
nas escolhas entre a criatura saída da geringonça “En Marche” ou a dilecta filha
do pai negacionista do Holocausto é estéril.
Tal interpretação
teria acuidade se os franceses contassem para algo no panorama global, algo que
não se verifica – dando certo beneficio histórico aos gauleses – desde a crise
do Suez em 1956, por alturas em que ainda sobrevivia a III Republica.
Já a
segunda assenta nas próprias dinâmicas internas da nação gaulesa.
A
decadência francesa é resultado da ausência de reformas estruturais na economia
e no sistema político e num confronto social e cultural daí resultante que tem
acendalha permanente nos meios urbanos.
Miterrand,
Chirac, Sarkozy e Hollande foram incapazes de resolver a paralisação sistémica
francesa, Macron sofrerá das mesmas agruras no Eliseu.
O
futuro Presidente vincará somente a vertigem declinante traçada há mais de uma
década, que coincide quase em simultâneo com a chegada ao poder da senhora
Merkel e a consolidação da hegemonia alemã.
Trump, a “Coisa”
Existe
um pequeno filão na Ciência Política e nas Relações Internacionais que tenta
traçar paralelos com algumas obras e géneros cinematográficos e casos específicos
das ditas Ciências Sociais.
Após
o sucesso de “Alien, o 8º passageiro” em 1979 realizado por Ridley Scott surgiram
vários filmes que mesclam ficção científica e terror, do qual destaco “The
Thing”, de 1982 e dirigido pela mestria de John Carpenter.
O
filme de Carpenter aborda a capacidade de um organismo extraterrestre eliminar e
assimilar vítimas humanas, replicando a sua aparência, gerando um frenesim
paranóico entre os integrantes da estação científica onde se passa a acção (na
Antárctica), e que são aniquilados sequencialmente, salvo duas personagens que na
cena final se confrontam expectantes sobre qual deles é o “hóspede” do predador
alienígena.
Esta
parábola serve a propósito do actual Presidente dos EUA, Donald Trump.
Na
época que vivemos, continuamos a não resistir ao hábito cultural e “ocidental”
de classificação e catalogação num confronto de oposições binárias como Jacques
Derrida falava já há décadas: bom/mau; branco/preto; inocente/culpado.
Trump
que perfez 100 dias da existência da sua administração já foi rotulado de
“populista”, “fascista”, “autoritário”, “nacionalista”, “isolacionista”,
“imperialista”, “jacksoniano”, “proteccionista”, “jeffersoniano”, “neo-conservador”,
“militarista” e outras coisas.
Os
Liberais já o assolaram com argumentação “ad hitlerum” embora depois o
incensassem pela revisão da sua “foreign policy” (Síria, Coreia do Norte e
Rússia) enquanto que os Conservadores tremem agora com parte da sua agenda de previsíveis
excessos fiscais internos e internacionalismo interventivo.
Ler
entrevistas de Trump é um desafio constante à imaginação e a algum rigor
científico que permita sistematizar o seu pensamento.
Criaturas
de pena leve têm ultimamente pugnado pela plasticidade e versatilidade de Trump
em adaptar recursos pós-modernistas à sua retórica e acção, dado que não sendo
plausível conhecer toda a realidade que habitamos, cada um a pode interpretar e
plasmar, contrastando com os ancestrais ditames do que se supõe ser a
“verdade”.
Em
1982, John Carpenter apresenta-nos uma “coisa” extraterrestre letal que além de
aniquilar, reproduz a forma humana que ocupa, permitindo-se viver no novo corpo
sem que ninguém se aperceba.
Em
2017, Donald Trump tem a capacidade de emular múltiplas personagens, sem nunca
se comprometer, transformando ignorância em política de imprevisibilidade e a
cedência ao aparelho militar-industrial numa espécie de estratégia.
Consegue
em simultâneo ser um internacionalista nacionalista, extorsionário diplomata,
liberal reaccionário, pacifista militarista, proteccionista mercantilista ou um
exibicionista tímido.
Perceber
Trump requer antes de mais a tarefa de não dispersarmos a nossa compreensão no
que é essencial, ou seja, naquela cabeça a separação e fiscalização dos
poderes, os direitos e as garantias legais são dispensáveis.
Não
se conclui tal necessitando de grande elaboração académica, mas antes
verificando que estas premissas foram e são constantes e indissociáveis da sua
natureza pessoal, profissional e política.
E
isso diz-nos tudo acerca da criatura, assumindo Trump qualquer morfologia que o
momento se encarregue de lhe ditar.
Hillary Clinton como
nota de rodapé
A senhora Clinton voltou ao reino dos vivos numa entrevista/conferência
de 35 minutos com a jornalista da CNN, Christiane Amanpour, perante uma plateia
deliciada e a vivenciar uma espécie de história contrafactual.
Compartilhou com as extasiadas almas que a aplaudiam estar a
concluir um livro onde abordará a derrota eleitoral com Trump, dizendo “ser a
única responsável” pelo resultado final. Mas a lucidez da ex-Secretária de
Estado foi efémera. Decretou que a vitória era “certa”, salvo uns
aborrecimentos que fez questão de elencar.
O preconceito e misoginia que grassam na sociedade, a ausência
de rigor político nos debates, a interferência de Putin, a história eleitoral
norte-americana, a carta do director do FBI e as denúncias do senhor Assange.
A senhora Clinton não gasta dois
segundos a falar de Bernie Sanders, das primárias armadilhadas, do
desaparecimento político dos Democratas e parece que continua sem um pingo de
consciência sobre o que a sua figura representa no eleitor americano médio.
Links da Semana
Alemanha
Henry Kissinger recupera a figura de Konrad Adenauer como o
homem que salvou a Alemanha Federal e consolidou a sua ligação com os EUA:
China
O primeiro porta-aviões construído inteiramente na China: https://www.theguardian.com/world/2017/apr/26/china-launches-second-aircraft-carrier-that-is-first-built-at-home
Coreia do Norte
RAND: Preparar a elite norte coreana para a reunificação: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1900/RR1985/RAND_RR1985.pdf
Israel-Palestina
Carta aberta de 2 académicos (Falk e Tilley) a Nikki Haley sobre
uma investigação de ambos relativa ao apartheid em Israel: https://www.thenation.com/article/open-letter-to-un-ambassador-nikki-haley-on-our-report-on-apartheid-in-israel/
Hamas aceita fronteiras de 1967 (sem reconhecer Israel): https://www.theguardian.com/world/2017/may/01/hamas-new-charter-palestine-israel-1967-borders
O problema de Orbán é com Soros, não com a EU: http://www.euractiv.com/section/central-europe/news/orban-hungary-has-no-big-issue-with-eu-it-has-a-problem-with-soros
Paper do Instituto Delors sobre as redes sociais e o sucesso
do populismo: http://www.delorsinstitut.de/2015/wp-content/uploads/2017/04/20170419_SocialNetworksandPopulism-Dittrich.pdf
Rússia
O capitalismo neo-feudalista Russo: https://www.project-syndicate.org/commentary/russia-neofeudal-capitalism-putin-by-anders-aslund-2017-04
Trump
Administração
O ex-nº 2 da Goldman Sachs é a “estrela em ascensão” na
administração Trump: http://www.politico.com/magazine/story/2017/04/22/gary-cohn-financial-crisis-trump-215059
O plano fiscal de Trump: https://www.theatlantic.com/business/archive/2017/04/a-comprehensive-guide-to-donald-trumps-tax-proposal/524451/
Destaques da entrevista de Trump à Reuters: http://www.reuters.com/article/us-usa-trump-interview-highlights-idUSKBN17U0D4?mod=related&channelName=worldNews
Fareed Zakaria e a “educação” de Trump:
A Atlantic verifica o cumprimento das promessas que Trump
fez na campanha: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/04/trump-promises-cheat-sheet/507347/
Donald Trump Jr e os 100 primeiros dias da administração do
seu pai: http://www.foxnews.com/opinion/2017/04/29/donald-trump-jr-my-fathers-first-100-days.html
Defesa e Política Externa
Walter Russell Mead defende a junção
do Jacksonianismo com o Hamiltonianismo, um nacionalismo benigno e um
internacionalismo liberal: https://www.wsj.com/articles/nationalist-shouldnt-be-a-dirty-word-1493678981
Stephen Walt e os erros de Trump nos 1ºs 100 dias
Hal Brands e a doutrina da incompetência: https://warontherocks.com/2017/05/the-incompetence-doctrine/
Rex Tillerson traça as directrizes da Política Externa dos
EUA: https://www.theatlantic.com/news/archive/2017/05/rex-tillerson-america-first-foreign-policy/525309/
A estratégia dos EUA no Afeganistão é um
modelo para transformar a região: https://warontherocks.com/2017/04/its-much-bigger-than-afghanistan-u-s-strategy-for-a-transformed-region/
Porque Trump arrisca uma Guerra comercial com o Canadá?: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/04/why-is-trump-starting-a-trade-war-with-canada/524265/
Entrevista do Secretário de Estado Rex Tillerson:
James Kirchick na American Interest
questiona as responsabilidades sobre quem “matou” a Ordem internacional
Liberal: https://www.the-american-interest.com/2017/05/03/who-killed-the-liberal-world-order/
Trump renegoceia NAFTA:
Respostas a Trump
Hillary Clinton em
entrevista a Christiane Amanpour sobre as eleições de 2016: http://www.refinery29.com/2017/05/152592/hillary-clinton-christiane-amanpour-live-interview
“Trumpismo”
Francis Fukuyama e o legado negativo que Trump começa a
construir: https://www.washingtonpost.com/opinions/trump-has-already-started-building-a-legacy-its-highly-negative/2017/04/28/4260bb9a-25e9-11e7-bb9d-8cd6118e1409_story.html
As questões sobre a liberdade de expressão em redor do
confronto globalismo-nacionalismo: https://www.the-american-interest.com/2017/04/27/free-speech-and-the-nationalist-globalist-divide/
Timothy Snyder acredita que Trump estará tentado a fazer um Golpe de forma a derrubar a democracia: http://www.salon.com/2017/05/01/historian-timothy-snyder-its-pretty-much-inevitable-that-trump-will-try-to-stage-a-coup-and-overthrow-democracy
O nepotismo da administração Trump assemelha-se aos exemplos
dos países mais corruptos do mundo: http://www.huffingtonpost.com/entry/trump-administration-nepotism_us_58fa746de4b06b9cb916f736
No NY Times, Pankaj Mishra traça a caminhada do natural
excepcionalismo optimista para a actual consagração do nihilismo
norte-americano: https://www.nytimes.com/2017/04/28/opinion/america-from-exceptionalism-to-nihilism.html
“Golpe” na Heritage depõe Jim DeMint: http://www.thedailybeast.com/articles/2017/05/02/demint-loyalists-brace-for-heritage-bloodletting
Sete teorias sobre as ligações entre Trump e Putin: https://lawfareblog.com/seven-theories-case-what-do-we-really-know-about-laffaire-russe-and-what-could-it-all-mean
TRI/CP
No Boston Globe, Niall Ferguson e Zakaria discutem se a
ordem internacional como a conhecemos terminou?: http://www.theglobeandmail.com/news/world/goodbye-to-all-that-is-the-international-order-as-we-know-itover/article34826488
CSBA, Hal
Brands entre outros, Critical Assumptions and American Grand Strategy: http://www.css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/CSBA-Critical_Planning_Assumptions.pdf
Hans Kundnani, do GMF, O que é a Ordem Internacional
Liberal: http://www.gmfus.org/file/10159/download
A máquina de propaganda da Administração Wilson: https://theconversation.com/how-woodrow-wilsons-propaganda-machine-changed-american-journalism-76270
União Europeia
Ferdinando Giugliano e o próximo problema europeu, a Itália:
https://www.bloomberg.com/view/articles/2017-05-02/italy-is-europe-s-next-big-problem
Relatório da Comissão Europeia sobre a dimensão social da
Europa: https://ec.europa.eu/commission/sites/beta-political/files/reflection-paper-social-dimension-europe_en.pdf
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