Nos
últimos tempos, figuras distintas têm proliferado comentários sobre a natureza
e futuro da Ordem e do Sistema Internacional, não raras vezes confundido ambas.
Antes
de comentarmos este frenesim de certos personagens, sumarizemos os conceitos
falados.
O
Sistema Internacional deriva da conceptualização “vitoriosa” do neo-realismo de
Kenneth Waltz (1979) que possibilitou uma leitura asséptica e meramente
sistémica e estrutural, caracterizando o “espaço” onde os Estados interagem
como anárquico, existindo diferenciação com as unidades (estatais) a terem recursos
distintos, sobrevivendo numa lógica de auto–ajuda, dada a ausência de um
qualquer “112” global.
Já a
Ordem Internacional é o conjunto de normas, valores e instituições que
possibilitam e balizam o relacionamento inter-estatal e que (de novo, numa
visão neo-realista) premeia os cumpridores e pune os infractores, sendo
apanágio dos vencedores das grandes guerras ditar a sua consequente composição,
o que no caso e dada a vitória dos EUA (associada à perda de estatuto britânica
e francesa) ficou marcada pela matiz washingtoniana consubstanciada num padrão
democrático-liberal.
Passemos
agora ao modo como certas luminárias têm perorado sobre estas temáticas.
Na
sua investidura presidencial, Macron não se inibiu e “urbi et orbi” fez saber
que a França “necessita recuperar a confiança” pois a Europa e o Mundo precisam
dela “forte e segura”, para desempenhar o seu papel “imenso, na correcção de excessos
e no velar pela defesa da liberdade”.
Em
Pequim, Xi ao promover a “nova rota da seda” rodeado de lideranças mundiais,
apelou à rejeição do proteccionismo e ao abraçar da globalização, equiparando
as nações a um “bando de gansos que devem confrontar em conjunto tempestades”.
Já António
Guterres, secretário-geral da ONU, referiu que o mundo actual “multipolar” necessita
de uma governação e instituições igualmente multipolares, alertando e comparando
a actual situação mundial à de vésperas da guerra de 14-18.
Tentemos
então introduzir factos relevantes para melhor compreender as narrativas das
personagens.
64,8%
do voto na 1ª volta das presidenciais foi confiado a políticos anti-sistema,
onde se inclui o próprio Macron e os radicais Le Pen e Melanchon.
A
França tem um sistema económico, político e social irreformável, sendo
irrelevante no panorama internacional e quase dependente da importância que
Merkel e Schauble lhe queiram atribuir (por questões internas, históricas e
políticas alemãs) no panorama europeu.
A
China está rodeada por um dispositivo de alianças que os Estados Unidos
paulatinamente construíram na região, além de historicamente ter bastante
“anti-corpos” pela sua visão imperial de dominação. A tão propalada expansão
comercial não passa da necessidade indispensável que Pequim tem de recursos
energéticos, de manutenção de mercados abertos para escoar os seus produtos,
sendo estes dois critérios axiomáticos para permitir alguma pacificação interna.
Adicionalmente, Pequim tem que travar o terrorismo regional que pode encontrar
em algumas geografias internas uma base confortável, além de estar,
surpreendentemente, associado a Trump para resolver a questiúncula
norte-coreana, embora aqui lhe seja favorável a “jogada” do Presidente
norte-americana, dada a imprevisibilidade que pode ser introduzida na região.
Quanto
a Guterres, parece querer fazer prova de vida pessoal e da sua instituição. A
irrelevância que qualquer das potências globais ou regionais atribui à
organização e a incapacidade factual de sequer resolver questões menores
relembra à saciedade o texto de John Mearsheimer sobre a “falsa promessa” das
instituições internacionais que apenas reflectem a distribuição real dos
poderes e onde os Estados lêem nada mais que o seu interesse nacional.
Em
suma, o senhor Macron diz no Eliseu que a Europa e o Mundo querem e precisam de
Paris (não se sabe bem porquê), Xi Jinping faz metáforas poéticas animais com a
globalização renovada que se quer conduzida pelo “Império do Meio” e o nosso
engenheiro em Nova Iorque faz questão que reparem nele e na sua “alegre
casinha”, aludindo a comparações históricas descontextualizadas.
Lamentavelmente,
a leitura, quer do Sistema ou da Ordem Internacional, não resistem a nenhum
“teste de stress” teórico ou empírico.
As
três “imagens” sistémicas e convencionais na disciplina das Relações
Internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo) são descendentes de um
positivismo científico que não nega o essencial do que é o mundo.
As
restantes narrativas da disciplina são díspares, oscilando da aceitação da
“Escola Inglesa” até ao quase estatuto de delinquente do pós-modernismo, embora
se encontrem na sua maioria em margens residuais académicas.
O
mundo, apesar da tentativa de “diabolização” da administração Trump, é pelo
menos há três séculos, uma dominação hegemónica “ocidental”.
Relendo
Maquiavel, Gramsci e Cox consideram que um Estado dominante consegue fazer
ascender e expandir a nível internacional um sistema económico e político, que
tem capacidade de atracção, assimilação e naturalização por consenso e se
necessário inibe ou constrange pela força os eventuais prevaricadores.
Não
são possíveis discernir resistências ao bloco hegemónico “ocidental”, pois
económica, militar, cultural e politicamente a conjugação dos vários poderes
entre Washington e a União Europeia (apesar das suas vicissitudes) e a
interdependência de ambos torna impraticável a obstaculização do modelo
internacional liberal.
Macron
será o que Merkel quiser, Xi necessita de Trump e da União Europeia e Guterres
necessita que o ouçam para continuar a existir.
Antes
de lavar as mãos, Pilatos perguntou “o que é a verdade”.
Na
época da pós-verdade (construída intelectualmente por reacções
anti-positivistas) a “realidade” pode ser encontrada de forma serena na leitura
qualificada e conjunta da História, das estatísticas e das narrativas, mesmo
que esteja na moda a multiplicação das “verdades” hoje atomizadas ou encenadas
para sobrevivência de certos actores políticos.
Links da Semana
China
Relatório da LSE sobre as reformas económicas da China, de
Deng a Xi: https://www.lse.ac.uk/IDEAS/publications/reports/pdf/LSE-IDEAS-From-Deng-to-Xi.pdf
França
Schäuble em entrevista ao Der
Spiegel sobre Macron: http://www.spiegel.de/international/germany/interview-with-wolfgang-schaeuble-we-all-wish-macron-success-a-1147461.html
Islão
Relatório da
Carnegie sobre as múltiplas disputa pela autoridade religiosa: http://carnegieendowment.org/files/CP306_Brown_Religious_Institutions_Final_Web.pdf
Israel-Palestina
Porque ainda não foi feita a Paz entre Israel e Palestina, segundo o Guardian: https://www.theguardian.com/world/2017/may/16/the-real-reason-the-israel-palestine-peace-process-always-fails
Para a Economist, Israel precisa de um Estado Palestiniano
para reforçar a sua democracia: http://www.economist.com/news/leaders/21722162-more-ever-land-peace-also-means-land-democracy-why-israel-needs-palestinian-state
Populismo
Pranab Bardhan professor de
Economia de Berkeley sobre os desafios populistas à ordem liberal: http://bostonreview.net/class-inequality/pranab-bardhan-understanding-populist-challenges-liberal-order
Reino Unido
Manifestos Eleitorais:
Para o Guardian o director do Daily Mail é o homem “mais
perigoso” de Inglaterra: https://www.theguardian.com/media/2017/may/14/is-paul-dacre-most-dangerous-man-in-britain-daily-mail?
Rússia
Relatório da RAND, como a Rússia vê a ordem mundial: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1800/RR1826/RAND_RR1826.pdf
Trump
Administração
Paul Krugman e as propostas económicas de Trump: https://www.nytimes.com/2017/05/15/opinion/trump-tax-cuts-deficit.html
Trump contra o “estado burocrático”: https://harpers.org/archive/2017/06/security-breach/?single=1
Defesa e Política Externa
Stephen Walt analisa a situação no
Afeganistão e as acções de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/05/17/whats-the-point-of-donald-trumps-afghan-surge-taliban-afghanistan/
Como a intervenção na Bósnia foi uma oportunidade perdida
para os EUA: http://www.realclearworld.com/articles/2017/05/12/how_us_meddling_in_the_bosnia_conflict_changed_the_face_of_nato_112341.html
Emma Green na The Atlantic e a prioridade da administração
Trump em defender a liberdade religiosa como forma de derrotar o Islão: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/05/religious-freedom-trump-administration/526320/
Entrevista de Condolleza Rice à Politico (na integra): http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/15/condoleezza-rice-the-full-transcript-215133
Entrevista de Condolleza Rice à Politico (condensada): http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/15/condoleezza-rice-on-trump-words-do-matter-215136
Os vizinhos da China receiam a perda de credibilidade dos
EUA e viram-se para Pequim: https://www.the-american-interest.com/2017/05/16/toward-detente-in-the-south-china-sea/
“Trumpismo”
Não é tirania, é “Trump”,
Niall Ferguson:
O PPRI (Public Religion Research Institute) e
a The Atlantic analisam as causas da vitória de Trump: questões culturais mais
valorizadas que as económicas: https://www.prri.org/research/white-working-class-attitudes-economy-trade-immigration-election-donald-trump/
Artigos sobre a manipulação do eleitorado e a empresa de Robert
Mercer, a Cambridge Analytica:
TRI/CP
Robert Kaplan, os EUA num mundo Euroasiático de heranças
imperiais:
Joseph Nye e uma resposta ao ensaio de Kaplan: http://stories.cnas.org/an-essay-response-to-marco-polos-world
Relatório anual da V-Dem sobre o estado da Democracia: https://www.v-dem.net/media/filer_public/91/14/9114ff4a-357e-4296-911a-6bb57bcc6827/v-dem_annualreport2017.pdf
Klaus
Larres (Institute for Advanced Study in Princeton), Donald Trump and America’s
Grand Strategy: U.S. foreign policy toward Europe, Russia and China: http://transatlanticrelations.org/wp-content/uploads/2017/05/Larres-Donald-Trump-and-America%E2%80%99s-Grand-Strategy-U.S.-foreign-policy-toward-Europe-Russia-and-China-Global-Policy-May-2017.pdf
Hal Brands e Peter Feaver, Was the
Rise of ISIS Inevitable?:
DOI:
10.1080/00396338.2017.1325595
Zbigniew
Brzezinski, How To Address Strategic Insecurity In A Turbulent Age:
DOI: 10.1111/npqu.12079
Hal Brands questiona se o Internacionalismo norte-americano
está “morto”?: https://warontherocks.com/2017/05/is-american-internationalism-dead-reading-the-national-mood-in-the-age-of-trump/
Porque estão os Economistas contra
Piketty: http://bostonreview.net/class-inequality/marshall-steinbaum-why-are-economists-giving-piketty-cold-shoulder
Entrevista a Daniel Ziblatt, sobre a importância dos
partidos Conservadores para a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2017/05/17/why-liberal-democracy-only-dies-when-conservatives-help

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