quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Ordem e o Sistema Internacional no tempo da “pós-verdade”





Nos últimos tempos, figuras distintas têm proliferado comentários sobre a natureza e futuro da Ordem e do Sistema Internacional, não raras vezes confundido ambas.

Antes de comentarmos este frenesim de certos personagens, sumarizemos os conceitos falados.

O Sistema Internacional deriva da conceptualização “vitoriosa” do neo-realismo de Kenneth Waltz (1979) que possibilitou uma leitura asséptica e meramente sistémica e estrutural, caracterizando o “espaço” onde os Estados interagem como anárquico, existindo diferenciação com as unidades (estatais) a terem recursos distintos, sobrevivendo numa lógica de auto–ajuda, dada a ausência de um qualquer “112” global.

Já a Ordem Internacional é o conjunto de normas, valores e instituições que possibilitam e balizam o relacionamento inter-estatal e que (de novo, numa visão neo-realista) premeia os cumpridores e pune os infractores, sendo apanágio dos vencedores das grandes guerras ditar a sua consequente composição, o que no caso e dada a vitória dos EUA (associada à perda de estatuto britânica e francesa) ficou marcada pela matiz washingtoniana consubstanciada num padrão democrático-liberal.

Passemos agora ao modo como certas luminárias têm perorado sobre estas temáticas.

Na sua investidura presidencial, Macron não se inibiu e “urbi et orbi” fez saber que a França “necessita recuperar a confiança” pois a Europa e o Mundo precisam dela “forte e segura”, para desempenhar o seu papel “imenso, na correcção de excessos e no velar pela defesa da liberdade”.

Em Pequim, Xi ao promover a “nova rota da seda” rodeado de lideranças mundiais, apelou à rejeição do proteccionismo e ao abraçar da globalização, equiparando as nações a um “bando de gansos que devem confrontar em conjunto tempestades”.

Já António Guterres, secretário-geral da ONU, referiu que o mundo actual “multipolar” necessita de uma governação e instituições igualmente multipolares, alertando e comparando a actual situação mundial à de vésperas da guerra de 14-18.

Tentemos então introduzir factos relevantes para melhor compreender as narrativas das personagens.

64,8% do voto na 1ª volta das presidenciais foi confiado a políticos anti-sistema, onde se inclui o próprio Macron e os radicais Le Pen e Melanchon.
A França tem um sistema económico, político e social irreformável, sendo irrelevante no panorama internacional e quase dependente da importância que Merkel e Schauble lhe queiram atribuir (por questões internas, históricas e políticas alemãs) no panorama europeu.

A China está rodeada por um dispositivo de alianças que os Estados Unidos paulatinamente construíram na região, além de historicamente ter bastante “anti-corpos” pela sua visão imperial de dominação. A tão propalada expansão comercial não passa da necessidade indispensável que Pequim tem de recursos energéticos, de manutenção de mercados abertos para escoar os seus produtos, sendo estes dois critérios axiomáticos para permitir alguma pacificação interna. Adicionalmente, Pequim tem que travar o terrorismo regional que pode encontrar em algumas geografias internas uma base confortável, além de estar, surpreendentemente, associado a Trump para resolver a questiúncula norte-coreana, embora aqui lhe seja favorável a “jogada” do Presidente norte-americana, dada a imprevisibilidade que pode ser introduzida na região.

Quanto a Guterres, parece querer fazer prova de vida pessoal e da sua instituição. A irrelevância que qualquer das potências globais ou regionais atribui à organização e a incapacidade factual de sequer resolver questões menores relembra à saciedade o texto de John Mearsheimer sobre a “falsa promessa” das instituições internacionais que apenas reflectem a distribuição real dos poderes e onde os Estados lêem nada mais que o seu interesse nacional.

Em suma, o senhor Macron diz no Eliseu que a Europa e o Mundo querem e precisam de Paris (não se sabe bem porquê), Xi Jinping faz metáforas poéticas animais com a globalização renovada que se quer conduzida pelo “Império do Meio” e o nosso engenheiro em Nova Iorque faz questão que reparem nele e na sua “alegre casinha”, aludindo a comparações históricas descontextualizadas.

Lamentavelmente, a leitura, quer do Sistema ou da Ordem Internacional, não resistem a nenhum “teste de stress” teórico ou empírico.
As três “imagens” sistémicas e convencionais na disciplina das Relações Internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo) são descendentes de um positivismo científico que não nega o essencial do que é o mundo.
As restantes narrativas da disciplina são díspares, oscilando da aceitação da “Escola Inglesa” até ao quase estatuto de delinquente do pós-modernismo, embora se encontrem na sua maioria em margens residuais académicas.

O mundo, apesar da tentativa de “diabolização” da administração Trump, é pelo menos há três séculos, uma dominação hegemónica “ocidental”.
Relendo Maquiavel, Gramsci e Cox consideram que um Estado dominante consegue fazer ascender e expandir a nível internacional um sistema económico e político, que tem capacidade de atracção, assimilação e naturalização por consenso e se necessário inibe ou constrange pela força os eventuais prevaricadores.

Não são possíveis discernir resistências ao bloco hegemónico “ocidental”, pois económica, militar, cultural e politicamente a conjugação dos vários poderes entre Washington e a União Europeia (apesar das suas vicissitudes) e a interdependência de ambos torna impraticável a obstaculização do modelo internacional liberal.

Macron será o que Merkel quiser, Xi necessita de Trump e da União Europeia e Guterres necessita que o ouçam para continuar a existir.

Antes de lavar as mãos, Pilatos perguntou “o que é a verdade”.
Na época da pós-verdade (construída intelectualmente por reacções anti-positivistas) a “realidade” pode ser encontrada de forma serena na leitura qualificada e conjunta da História, das estatísticas e das narrativas, mesmo que esteja na moda a multiplicação das “verdades” hoje atomizadas ou encenadas para sobrevivência de certos actores políticos.


Links da Semana

China
Relatório da LSE sobre as reformas económicas da China, de Deng a Xi: https://www.lse.ac.uk/IDEAS/publications/reports/pdf/LSE-IDEAS-From-Deng-to-Xi.pdf

França

Islão
Relatório da Carnegie sobre as múltiplas disputa pela autoridade religiosa: http://carnegieendowment.org/files/CP306_Brown_Religious_Institutions_Final_Web.pdf

Israel-Palestina

Porque ainda não foi feita a Paz entre Israel e Palestina, segundo o Guardian: https://www.theguardian.com/world/2017/may/16/the-real-reason-the-israel-palestine-peace-process-always-fails

Para a Economist, Israel precisa de um Estado Palestiniano para reforçar a sua democracia: http://www.economist.com/news/leaders/21722162-more-ever-land-peace-also-means-land-democracy-why-israel-needs-palestinian-state

Populismo
Pranab Bardhan professor de Economia de Berkeley sobre os desafios populistas à ordem liberal: http://bostonreview.net/class-inequality/pranab-bardhan-understanding-populist-challenges-liberal-order

Reino Unido
Manifestos Eleitorais:
Para o Guardian o director do Daily Mail é o homem “mais perigoso” de Inglaterra: https://www.theguardian.com/media/2017/may/14/is-paul-dacre-most-dangerous-man-in-britain-daily-mail?

Rússia

Trump

Administração
Paul Krugman e as propostas económicas de Trump: https://www.nytimes.com/2017/05/15/opinion/trump-tax-cuts-deficit.html
Trump contra o “estado burocrático”: https://harpers.org/archive/2017/06/security-breach/?single=1

Defesa e Política Externa
Stephen Walt analisa a situação no Afeganistão e as acções de Trump: http://foreignpolicy.com/2017/05/17/whats-the-point-of-donald-trumps-afghan-surge-taliban-afghanistan/
Emma Green na The Atlantic e a prioridade da administração Trump em defender a liberdade religiosa como forma de derrotar o Islão: https://www.theatlantic.com/international/archive/2017/05/religious-freedom-trump-administration/526320/
Os vizinhos da China receiam a perda de credibilidade dos EUA e viram-se para Pequim: https://www.the-american-interest.com/2017/05/16/toward-detente-in-the-south-china-sea/

“Trumpismo”
Não é tirania, é “Trump”, Niall Ferguson:
O PPRI (Public Religion Research Institute) e a The Atlantic analisam as causas da vitória de Trump: questões culturais mais valorizadas que as económicas: https://www.prri.org/research/white-working-class-attitudes-economy-trade-immigration-election-donald-trump/
Artigos sobre a manipulação do eleitorado e a empresa de Robert Mercer, a Cambridge Analytica:

TRI/CP
Robert Kaplan, os EUA num mundo Euroasiático de heranças imperiais:
Joseph Nye e uma resposta ao ensaio de Kaplan: http://stories.cnas.org/an-essay-response-to-marco-polos-world
Klaus Larres (Institute for Advanced Study in Princeton), Donald Trump and America’s Grand Strategy: U.S. foreign policy toward Europe, Russia and China: http://transatlanticrelations.org/wp-content/uploads/2017/05/Larres-Donald-Trump-and-America%E2%80%99s-Grand-Strategy-U.S.-foreign-policy-toward-Europe-Russia-and-China-Global-Policy-May-2017.pdf
Hal Brands e Peter Feaver, Was the Rise of ISIS Inevitable?:
DOI: 10.1080/00396338.2017.1325595
Zbigniew Brzezinski, How To Address Strategic Insecurity In A Turbulent Age:
DOI: 10.1111/npqu.12079 
Hal Brands questiona se o Internacionalismo norte-americano está “morto”?: https://warontherocks.com/2017/05/is-american-internationalism-dead-reading-the-national-mood-in-the-age-of-trump/
Entrevista a Daniel Ziblatt, sobre a importância dos partidos Conservadores para a democracia: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2017/05/17/why-liberal-democracy-only-dies-when-conservatives-help

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