sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Cadáver Esquisito da UE







Nos inícios do século passado a trupe dos Surrealistas inaugurou um jogo literário chamado “Cadáver Esquisito” (“cadavre exquis”, no original, que é mais catita) sobre o qual existem diversas historiografias.
Sumarizando, diferentes autores iam completando uma estrutura frásica ou narrativa sem relação de causalidade.

Um exemplo com este magnífico “O Vermelho e o Verde” de João Artur Silva e Mário-Henrique Leiria (in "Antologia do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny (org.), Assírio e Alvim, 1989):

- De que cor é o vermelho?
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.

Isto tudo a propósito da União Europeia (UE) e como a mesma é percepcionada.

Almas caridosas que por aí andam, inteligentes e civilizadas acrescente-se, clamam que a UE está minada e cercada pelo colapso eminente.
No plano “continental”, somam-se crises austeritárias e uma economia em retrocesso, declínio demográfico, indecisões institucionais e políticas, aumento eleitoral dos chamados populismos de Esquerda e Direita e até a “desgraça” da saída do Reino Unido, que como é sabido era amado por gerações de europeístas.
No campo externo, embora próximo, a percepção de supostas ameaças existenciais como o “revisionismo” russo, o “terrorismo islâmico” ou a crise humanitária com milhões de refugiados à porta da Europa.
É o “arco do Caos” que pode ser suplantado com “mais” Europa e mais aprofundamento, premiando cumpridores e punindo infractores.

O outro lado da moeda é adequadamente representado pelo recente artigo do académico de Princeton Andrew Moravcsik, na Foreign Policy, onde se considera a UE como uma superpotência, estatuto esse que o autor indica permanecer para o futuro a médio-longo prazo.
Moravcsik lê a UE como um actor único, face ao seu desempenho global e faz a combinação do poderio económico, militar, educativo, cientifico e cultural “ocidental”, (agregando EUA e UE) evidenciando que de forma conjunta ou apenas interpretando a União como uma entidade única (não soberana) a China demorará no mínimo duas gerações a rivalizar com estes números.
É em suma, a perfeita construção utópica Humanista e Iluminista que apenas consagrará o melhor que há em nós e que só pode ir mais além.

Vislumbramos aqui curiosamente um código binário que se julga sofredor de dissonância cognitiva.

No entanto, quer os primeiros, que chamamos de “liberais pessimistas” quer os segundos, baptizados como “liberais utópicos” alinham num mesmo diapasão, que é a manutenção de uma coerência institucional ao abrigo de um padrão demo-liberal – como reflectido por Francis Fukuyama em “The End of History” – que derrotou  fascismo e comunismo e se apresentou como a conclusão Hegeliana da caminhada humana.

Esta versão ocidental demo-liberal tem contudo protagonizado uma típica forma de Hegemonia, onde Estados Unidos e Europa mantêm paradigmas económicos, políticos e militares.

O Liberalismo hegemónico e expansionista, com a Globalização e o projecto europeu, conseguiu elevar à dignidade social e económica centenas de milhões em pessoas, difundir conhecimento e promover avanços civilizacionais como nunca na História.
Contudo, a ausência das componentes Realista e Conservadora permitiu que a universalização do que se julgam como valores superiores (democracia, capitalismo, internacionalização) possa ser coercivamente imposto, como é o caso lamentável do Médio Oriente alargado, fonte primária dos dramas actuais.

A contestação actual a esta ordenação sistémica assume dois contornos.
Os “radicalismos” que estão fora da esfera do poder (Espanha, França) abarcam discursos populistas, nacionalistas e proteccionistas que clamam ser a “voz do povo puro”.
Já os “autoritarismos” (Rússia, China, Venezuela) regra geral são representados em estados-nação por lideranças personalistas, que mantêm a aparência democrática sob forte aparato securitário e capitalismo estatal.
Qualquer destas propostas não tem potencialidade de atracção ou sequer exerce na actualidade ameaça existencial ao que já convencionámos como “ocidente”.

No entanto, a multidão diverte-se com as peripécias da Coreia do Norte, vilaniza Putin, preocupa-se com a criminalidade organizada a que chama de terrorismo, imagina que o Exército Popular Chinês invada os cafés e as óperas europeias, enquanto que Trump (para tranquilidade do “establishment” diplomático e militar ocidental) mantém as mesmas políticas internacionais, uma por uma, aqui ou ali com ligeiros “upgrades”, depois dos momentos onde se julgava que o multimilionário iria seguir um percurso isolacionista.

Alguns Realistas e qualquer Conservador (criaturas diferentes dos “reaccionários” que vislumbram o Armagedão a cada passo do progresso) alertam há centenas de anos que o expansionismo e universalização de qualquer sistema é contraproducente, além de advertirem que as identidades e as culturas não se apagam em construções utópicas.

Claro que ninguém nos ouve, embora algumas notas de rodapé em livros de História lembrem assim que havia gente com juízo.




Links da Semana


Fenómeno da semana: Stephen Walt escreve no NY Times (!) sobre a diplomacia e a força militar na administração Trump:

Alemanha
Relatório da Transatlantic Academy sobre como melhorar a relação Trump e Merkel: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Suspicious_Minds_Final.pdf

Irão

Israel-Palestina
Aaron David Miller no Wilson Center sobre o novo manifesto do Hamas:
Seth Frantzman no Jerusalem Post: Israel nunca foi “Ocidental”
O projecto chinês da nova “Rota da Seda” pode contribuir para o desenvolvimento económico e estabilidade no Médio Oriente: http://www.jpost.com/Opinion/Chinas-New-Silk-Road-and-the-Middle-East-490157

ONU

Guterres: ONU deve reformar-se e defender valores do Iluminismo:


Populismo

Cas Mudde e o verdadeiro perigo do populismo europeu, a Hungria: http://en.zois-berlin.de/publications/zois-spotlight/the-real-populist-challenge/


Reino Unido

Rússia
Relatório do Valdai sobre as acções de Moscovo face ao futuro incerto da Europa: http://valdaiclub.com/files/14294/
Como Putin alimenta as fraquezas russas tornando-as mitos e forças, Stefan Meister: http://berlinpolicyjournal.com/the-great-russia-myth/

Terrorismo
O Islamismo radical não é uma ameaça existencial ao Ocidente: https://www.vox.com/the-big-idea/2017/5/3/15528360/islam-jihad-sharia-trump-bannon-isis-radical

Trump

Administração
A análise da The Atlantic se a demissão de Comey representa uma crise constitucional:

Defesa e Política Externa
Relatório da RAND por uma nova estratégia no Iraque e na Síria: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1500/RR1562/RAND_RR1562.pdf

“Trumpismo”
A Politico recorda os vários “casos” em que Trump tem estado envolvido: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/05/donald-trump-presidential-scandals/522468/

União Europeia
Jurgen Habermaas sobre o futuro da Europa e da cooperação: https://www.socialeurope.eu/2017/03/pulling-cart-mire-renewed-case-european-solidarity/

TRI/CP
A importância das bibliotecas presidenciais e a futura instituição de Obama: http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/07/presidential-libraries-are-a-scam-could-obama-change-that-215109
 



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