Nos
inícios do século passado a trupe dos Surrealistas inaugurou um jogo literário
chamado “Cadáver Esquisito” (“cadavre exquis”, no original, que é mais catita)
sobre o qual existem diversas historiografias.
Sumarizando,
diferentes autores iam completando uma estrutura frásica ou narrativa sem
relação de causalidade.
Um
exemplo com este magnífico “O Vermelho e o Verde” de João Artur Silva e
Mário-Henrique Leiria (in "Antologia do Cadáver Esquisito", Mário Cesariny (org.), Assírio e Alvim, 1989):
- De que cor é o vermelho?
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- É verde.
- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.
- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.
- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.
Isto
tudo a propósito da União Europeia (UE) e como a mesma é percepcionada.
Almas
caridosas que por aí andam, inteligentes e civilizadas acrescente-se, clamam que
a UE está minada e cercada pelo colapso eminente.
No
plano “continental”, somam-se crises austeritárias e uma economia em
retrocesso, declínio demográfico, indecisões institucionais e políticas,
aumento eleitoral dos chamados populismos de Esquerda e Direita e até a
“desgraça” da saída do Reino Unido, que como é sabido era amado por gerações de
europeístas.
No
campo externo, embora próximo, a percepção de supostas ameaças existenciais
como o “revisionismo” russo, o “terrorismo islâmico” ou a crise humanitária com
milhões de refugiados à porta da Europa.
É o
“arco do Caos” que pode ser suplantado com “mais” Europa e mais aprofundamento,
premiando cumpridores e punindo infractores.
O outro
lado da moeda é adequadamente representado pelo recente artigo do académico de
Princeton Andrew Moravcsik, na Foreign Policy, onde se considera a UE como uma
superpotência, estatuto esse que o autor indica permanecer para o futuro a
médio-longo prazo.
Moravcsik
lê a UE como um actor único, face ao seu desempenho global e faz a combinação
do poderio económico, militar, educativo, cientifico e cultural “ocidental”, (agregando
EUA e UE) evidenciando que de forma conjunta ou apenas interpretando a União
como uma entidade única (não soberana) a China demorará no mínimo duas gerações
a rivalizar com estes números.
É em
suma, a perfeita construção utópica Humanista e Iluminista que apenas
consagrará o melhor que há em nós e que só pode ir mais além.
Vislumbramos
aqui curiosamente um código binário que se julga sofredor de dissonância
cognitiva.
No
entanto, quer os primeiros, que chamamos de “liberais pessimistas” quer os
segundos, baptizados como “liberais utópicos” alinham num mesmo diapasão, que é
a manutenção de uma coerência institucional ao abrigo de um padrão demo-liberal
– como reflectido por Francis Fukuyama em “The End of History” – que derrotou fascismo e comunismo e se apresentou como a
conclusão Hegeliana da caminhada humana.
Esta
versão ocidental demo-liberal tem contudo protagonizado uma típica forma de
Hegemonia, onde Estados Unidos e Europa mantêm paradigmas económicos, políticos
e militares.
O
Liberalismo hegemónico e expansionista, com a Globalização e o projecto
europeu, conseguiu elevar à dignidade social e económica centenas de milhões em
pessoas, difundir conhecimento e promover avanços civilizacionais como nunca na
História.
Contudo,
a ausência das componentes Realista e Conservadora permitiu que a
universalização do que se julgam como valores superiores (democracia,
capitalismo, internacionalização) possa ser coercivamente imposto, como é o
caso lamentável do Médio Oriente alargado, fonte primária dos dramas actuais.
A
contestação actual a esta ordenação sistémica assume dois contornos.
Os
“radicalismos” que estão fora da esfera do poder (Espanha, França) abarcam
discursos populistas, nacionalistas e proteccionistas que clamam ser a “voz do
povo puro”.
Já
os “autoritarismos” (Rússia, China, Venezuela) regra geral são representados em
estados-nação por lideranças personalistas, que mantêm a aparência democrática
sob forte aparato securitário e capitalismo estatal.
Qualquer
destas propostas não tem potencialidade de atracção ou sequer exerce na
actualidade ameaça existencial ao que já convencionámos como “ocidente”.
No
entanto, a multidão diverte-se com as peripécias da Coreia do Norte, vilaniza
Putin, preocupa-se com a criminalidade organizada a que chama de terrorismo, imagina
que o Exército Popular Chinês invada os cafés e as óperas europeias, enquanto
que Trump (para tranquilidade do “establishment” diplomático e militar
ocidental) mantém as mesmas políticas internacionais, uma por uma, aqui ou ali
com ligeiros “upgrades”, depois dos momentos onde se julgava que o
multimilionário iria seguir um percurso isolacionista.
Alguns
Realistas e qualquer Conservador (criaturas diferentes dos “reaccionários” que
vislumbram o Armagedão a cada passo do progresso) alertam há centenas de anos
que o expansionismo e universalização de qualquer sistema é contraproducente,
além de advertirem que as identidades e as
culturas não se apagam em construções utópicas.
Claro que ninguém nos ouve, embora algumas notas de rodapé em livros de História lembrem assim que havia gente com juízo.
Links da Semana
Fenómeno da semana: Stephen Walt escreve no NY Times
(!) sobre a diplomacia e a força militar na administração Trump:
Alemanha
Relatório da Transatlantic Academy sobre como melhorar a
relação Trump e Merkel: http://www.transatlanticacademy.org/sites/default/files/publications/Suspicious_Minds_Final.pdf
Irão
Leitura do 2º debate presidencial no Irão: http://iranprimer.usip.org/blog/2017/may/05/race-second-presidential-debate
Israel-Palestina
Aaron David Miller no Wilson Center sobre o novo manifesto
do Hamas:
Seth Frantzman no Jerusalem Post: Israel nunca foi
“Ocidental”
O projecto chinês da nova “Rota da Seda” pode contribuir
para o desenvolvimento económico e estabilidade no Médio Oriente: http://www.jpost.com/Opinion/Chinas-New-Silk-Road-and-the-Middle-East-490157
ONU
Guterres: ONU deve reformar-se e defender valores do Iluminismo:
Populismo
Cas Mudde e o verdadeiro perigo do populismo europeu, a Hungria: http://en.zois-berlin.de/publications/zois-spotlight/the-real-populist-challenge/
Reino Unido
Como as eleições do Brexit foram condicionadas: https://www.theguardian.com/technology/2017/may/07/the-great-british-brexit-robbery-hijacked-democracy
Rússia
Os ciberconflitos e a erosão do “soft power” russo, Joseph
Nye: https://www.project-syndicate.org/commentary/cyber-warfare-weakens-russia-soft-power-by-joseph-s--nye-2017-05
Relatório do Valdai sobre as acções de Moscovo face ao
futuro incerto da Europa: http://valdaiclub.com/files/14294/
Como Putin alimenta as fraquezas russas tornando-as mitos e
forças, Stefan Meister: http://berlinpolicyjournal.com/the-great-russia-myth/
Terrorismo
O Islamismo radical não é uma ameaça existencial ao
Ocidente: https://www.vox.com/the-big-idea/2017/5/3/15528360/islam-jihad-sharia-trump-bannon-isis-radical
Trump
Administração
Porto Rico declara bancarrota: http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21721670-islands-debts-will-now-bring-protracted-legal-battle-puerto-rico-declares
A análise da The Atlantic se a demissão de Comey representa
uma crise constitucional:
Entrevista de Trump ao The Economist: http://www.economist.com/Trumptranscript?cid1=cust/ddnew/n/n/n/20170511n/owned/n/n/nwl/n/n/eu/Daily_Dispatch/email&etear=dailydispatch
Defesa e Política Externa
O “America First” explicado por Rex Tillerson: http://www.realclearworld.com/articles/2017/05/08/tillerson_defines_america_first.html
Relatório da RAND por uma nova estratégia no Iraque e na
Síria: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR1500/RR1562/RAND_RR1562.pdf
“Trumpismo”
Sofrerá
Trump de “political hubris”: http://www.newyorker.com/news/daily-comment/is-political-hubris-an-illness
Notas enviadas por Trump a jornalistas ao longo dos anos: http://www.politico.com/magazine/story/2017/04/28/donald-trump-handwritten-notes-reporters-215074
A Politico recorda os vários “casos” em que Trump tem estado
envolvido: https://www.theatlantic.com/politics/archive/2017/05/donald-trump-presidential-scandals/522468/
União Europeia
Jurgen Habermaas sobre o futuro da Europa e da cooperação: https://www.socialeurope.eu/2017/03/pulling-cart-mire-renewed-case-european-solidarity/
TRI/CP
A importância das bibliotecas presidenciais e a futura
instituição de Obama: http://www.politico.com/magazine/story/2017/05/07/presidential-libraries-are-a-scam-could-obama-change-that-215109
Niall Ferguson sobre o declínio da social-democracia: https://www.bostonglobe.com/opinion/2017/05/08/social-democracy-shattered/Wt5qsv0l5qiAEAJdIi94RI/story.html
Como as tecnologias podem derrubar presidências: https://www.theatlantic.com/technology/archive/2017/05/from-xerox-copies-and-tapes-to-emails-and-tweets/526158/

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