O discurso dos animais ao Congresso
Depois
da “normalização” do candidato e posteriormente do “presidente-eleito”, ambas
derrotadas pela realidade e carácter de Trump, temos agora a “normalização” do
primeiro discurso presidencial ao Congresso.
Gente
educada, esclarecida e de boas famílias prevê uma nova aurora na mente da
criatura que já insultou deficientes, heróis de guerra, minorias étnicas e
sexuais, mulheres e jornalistas (elogie-se a diversidade no insulto, pois ninguém
escapa).
Surgem,
no campo Republicano, comparações com Reagan, o que nos faz temer pela sanidade
mental de pessoas estimáveis, anteriormente Conservadoras e agora em profundo
estado de demência política.
Já os
Democratas, escolheram para proferir o discurso de resposta um irrelevante
antigo Governador do insignificante Kentucky, que sentado num “snack-bar”
e acompanhado de meia dúzia de pessoas, lançou uma sonolenta mensagem que veio prolongar com pesar o ocaso Democrata,
confirmado com a eleição do novo “chair”, Tom Perez.
Como
escreveu Cas Mudde, o discurso de Trump teve pedaços que preencheriam “o sonho
molhado” de qualquer adepto da direita radical.
O
enredo capilar do novo presidente norte-americano dá abrigo a um caleidoscópio ideológico
que serve de refúgio às inúmeras facções que disputam o poder na Casa Branca, e
que sob a forma de animais vários preencheram o discurso de Trump.
Raposa – Este bicho perspicaz e engenhoso
conseguiu articular uma estratégia com duas componentes.
Uma
político-militar, onde torpedeou aliados com avisos de que o “chapéu de chuva”
nuclear dos EUA custa bom dinheiro e quem o quiser terá que pagar (talvez se
chame a isso chantagem), deixando uma nota mental ao planeta: “o meu trabalho é
ser presidente dos EUA, não do mundo”, que é como quem diz: “amanhem-se”.
Consta
que em Moscovo, Putin sorriu enquanto pousava o cálice na bandeja em que lhe entregavam
a Crimeia, pela qual ninguém se quis aborrecer.
Além
deste pormenor, Trump relaciona o investimento em operações de “regime change”
no Médio Oriente com a decadência interna, o que constitui uma verdadeira lição
Realista, se excluirmos o aumento brutal do orçamento militar e o discreto apontamento
de que os EUA se chamados a um conflito (estranha ideia para um isolacionista) só
podem pensar em ganhar.
A segunda
parte da estratégia, de cariz “mercantilista”, liga a entrada da China na OMC com
a delapidação económica norte-americana, o que permite antever uma indisposição
gradual para com Pequim.
Trump
consegue ainda “utilizar” Lincoln para justificar o comércio livre, mas “justo”,
sendo que a “justiça” significa os EUA ganharem, com ameaças explicitas a
qualquer empresa que ouse sair do país.
Já o
programa de reconstrução nacional (que tudo irá resolver) terá dois princípios:
comprar e empregar americano.
Parece-nos
bem, e adiante-se que esta candura comoveu Keynesianos e Monetaristas ao ponto
de se falar em suicídios colectivos à fogueira das múltiplas edições de Samuelson
e Nordhaus.
Gorila – O Presidente tem uma
capacidade única de articular relações de causa-efeito entre a imigração ilegal
e fenómenos como o desemprego, pobreza, criminalidade e o terrorismo, que vão ao
arrepio de todos os estudos científicos e qualquer “fact-checking” sóbrio e
rigoroso.
Para
Trump a erosão e a balda fronteiriça originam e promovem o “radical islam
terrorism” (seja isso o que for) que será extirpado da face da Terra, embora não
se saiba como, quando, onde ou por quem.
Cordeiro – Trump tentou vestir uma pele
que não é a sua.
Iniciou
bem o discurso, poupando inclusive no profundo inalar que o caracteriza, e
condenou os recentes ataques anti-semitas.
Tentou
depois em vários momentos, apelar à conjugação de esforços entre Democratas e
Republicanos para se resolver matérias tão díspares como as questões familiares,
educativas (os novos “direitos civis”), ecológicas e económicas.
O
cordeiro teve alguns esgares intempestivos, descobrindo-se um réptil escondido,
sempre que no discurso aparecia a palavra “nós”.
Verme – A criação de um Departamento na
esfera da “Homeland Security” que visa quebrar o silêncio dos media e dos “interesses
especiais” (que ninguém supõe o que seja) sobre as vítimas (naturalmente, as
norte-americanas) do crime violento perpetrado por imigrantes.
Momento
particularmente rastejante foi a tentativa de piada (de inusitada grosseria)
com o tempo de aplauso à viúva do militar abatido em operação militar recente no
Iémen (“quebrou um record”, referiu Trump satisfeito).
Polvo – Constituiu um esbracejar confuso
ter que perorar em matéria de Direitos económicos e sociais.
Sobre
o Obamacare e o que substituirá a horrenda ideia de Obama (impedir que cidadãos
morram à porta de hospitais ou declarar falência por não terem um seguro) Trump
enunciou um emaranhado, onde parece sobressair que nada está pensado, como
demonstram as suas recentes declarações sobre a inesperada “complexidade” do
que é elaborar um sistema de saúde.
Termine-se
dizendo que o Presidente conseguiu ainda um magnífico exercício baseado na vetusta
ciência da Banha-da-cobra.
O que
alguns políticos tentam por vezes, Trump
fez questão de prometer, garantir e jurar a pés juntos no maior vazio de
pensamento e retórica possível.
A economia,
graças à “abençoada” desregulação, criará milhões de empregos, as forças
armadas reluzirão esplendorosas, as infra-estruturas serão majestosas e a epidemia
de droga será travada.
De
uma assentada, Trump quer libertar o país dos medos que o sequestram, curar
doenças e oferecer empregos bem-pagos, num novo capítulo de grandeza americana,
sendo para isso vital acabar com as lutas triviais, onde se inclui fazer oposição
ou criticar livremente o Presidente.
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