quarta-feira, 1 de março de 2017

Um Zoológico na cabeça de Trump



O discurso dos animais ao Congresso

Depois da “normalização” do candidato e posteriormente do “presidente-eleito”, ambas derrotadas pela realidade e carácter de Trump, temos agora a “normalização” do primeiro discurso presidencial ao Congresso.
Gente educada, esclarecida e de boas famílias prevê uma nova aurora na mente da criatura que já insultou deficientes, heróis de guerra, minorias étnicas e sexuais, mulheres e jornalistas (elogie-se a diversidade no insulto, pois ninguém escapa).

Surgem, no campo Republicano, comparações com Reagan, o que nos faz temer pela sanidade mental de pessoas estimáveis, anteriormente Conservadoras e agora em profundo estado de demência política.

Já os Democratas, escolheram para proferir o discurso de resposta um irrelevante antigo Governador do insignificante Kentucky, que sentado num “snack-bar” e acompanhado de meia dúzia de pessoas, lançou uma sonolenta mensagem que veio prolongar com pesar o ocaso Democrata, confirmado com a eleição do novo “chair”, Tom Perez.

Como escreveu Cas Mudde, o discurso de Trump teve pedaços que preencheriam “o sonho molhado” de qualquer adepto da direita radical.

O enredo capilar do novo presidente norte-americano dá abrigo a um caleidoscópio ideológico que serve de refúgio às inúmeras facções que disputam o poder na Casa Branca, e que sob a forma de animais vários preencheram o discurso de Trump.

Raposa – Este bicho perspicaz e engenhoso conseguiu articular uma estratégia com duas componentes.

Uma político-militar, onde torpedeou aliados com avisos de que o “chapéu de chuva” nuclear dos EUA custa bom dinheiro e quem o quiser terá que pagar (talvez se chame a isso chantagem), deixando uma nota mental ao planeta: “o meu trabalho é ser presidente dos EUA, não do mundo”, que é como quem diz: “amanhem-se”.
Consta que em Moscovo, Putin sorriu enquanto pousava o cálice na bandeja em que lhe entregavam a Crimeia, pela qual ninguém se quis aborrecer.
Além deste pormenor, Trump relaciona o investimento em operações de “regime change” no Médio Oriente com a decadência interna, o que constitui uma verdadeira lição Realista, se excluirmos o aumento brutal do orçamento militar e o discreto apontamento de que os EUA se chamados a um conflito (estranha ideia para um isolacionista) só podem pensar em ganhar.

A segunda parte da estratégia, de cariz “mercantilista”, liga a entrada da China na OMC com a delapidação económica norte-americana, o que permite antever uma indisposição gradual para com Pequim.
Trump consegue ainda “utilizar” Lincoln para justificar o comércio livre, mas “justo”, sendo que a “justiça” significa os EUA ganharem, com ameaças explicitas a qualquer empresa que ouse sair do país.
Já o programa de reconstrução nacional (que tudo irá resolver) terá dois princípios: comprar e empregar americano.
Parece-nos bem, e adiante-se que esta candura comoveu Keynesianos e Monetaristas ao ponto de se falar em suicídios colectivos à fogueira das múltiplas edições de Samuelson e Nordhaus.

Gorila – O Presidente tem uma capacidade única de articular relações de causa-efeito entre a imigração ilegal e fenómenos como o desemprego, pobreza, criminalidade e o terrorismo, que vão ao arrepio de todos os estudos científicos e qualquer “fact-checking” sóbrio e rigoroso.
Para Trump a erosão e a balda fronteiriça originam e promovem o “radical islam terrorism” (seja isso o que for) que será extirpado da face da Terra, embora não se saiba como, quando, onde ou por quem.

Cordeiro – Trump tentou vestir uma pele que não é a sua.
Iniciou bem o discurso, poupando inclusive no profundo inalar que o caracteriza, e condenou os recentes ataques anti-semitas.
Tentou depois em vários momentos, apelar à conjugação de esforços entre Democratas e Republicanos para se resolver matérias tão díspares como as questões familiares, educativas (os novos “direitos civis”), ecológicas e económicas.
O cordeiro teve alguns esgares intempestivos, descobrindo-se um réptil escondido, sempre que no discurso aparecia a palavra “nós”.

Verme – A criação de um Departamento na esfera da “Homeland Security” que visa quebrar o silêncio dos media e dos “interesses especiais” (que ninguém supõe o que seja) sobre as vítimas (naturalmente, as norte-americanas) do crime violento perpetrado por imigrantes.
Momento particularmente rastejante foi a tentativa de piada (de inusitada grosseria) com o tempo de aplauso à viúva do militar abatido em operação militar recente no Iémen (“quebrou um record”, referiu Trump satisfeito).

Polvo – Constituiu um esbracejar confuso ter que perorar em matéria de Direitos económicos e sociais.
Sobre o Obamacare e o que substituirá a horrenda ideia de Obama (impedir que cidadãos morram à porta de hospitais ou declarar falência por não terem um seguro) Trump enunciou um emaranhado, onde parece sobressair que nada está pensado, como demonstram as suas recentes declarações sobre a inesperada “complexidade” do que é elaborar um sistema de saúde.

Termine-se dizendo que o Presidente conseguiu ainda um magnífico exercício baseado na vetusta ciência da Banha-da-cobra.
O que alguns políticos tentam por vezes, Trump fez questão de prometer, garantir e jurar a pés juntos no maior vazio de pensamento e retórica possível.
A economia, graças à “abençoada” desregulação, criará milhões de empregos, as forças armadas reluzirão esplendorosas, as infra-estruturas serão majestosas e a epidemia de droga será travada.
De uma assentada, Trump quer libertar o país dos medos que o sequestram, curar doenças e oferecer empregos bem-pagos, num novo capítulo de grandeza americana, sendo para isso vital acabar com as lutas triviais, onde se inclui fazer oposição ou criticar livremente o Presidente.

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