quinta-feira, 6 de julho de 2017

Trump e Kim de braço dado





De facto, pouco importa se Kim Jong-Un é um psicopata distópico, tal como se tornam irrelevantes a ignorância e autoritarismo de Trump.

Ambos estão umbilicalmente atados por uma insignificância a que se chama sobrevivência. Se o líder da Coreia do Norte joga a sua vida, Trump aventura-se num desafio que lhe pode custar a reeleição.
Claro que Kim não hesitaria em imolar as criaturas que o idolatram e Trump dispensaria o aborrecimento da Casa Branca em cinco minutos, se pudesse.

Mas aqui uma outra trágica realidade, chamada poder, impõe-se a ambos.
Seja por via dos interesses e burocracias (caso americano) ou da mera defesa do couro (norte-coreano) o poder é algo que se articula, com estratégias que visam a sua conquista, manutenção e ampliação. Trump está impedido de investir num ataque cirúrgico ao complexo nuclear de Pyongyang, por vários motivos:

i. Não interessa ao seu eleitor médio – além de não saber sequer onde fica a Ásia – preocupado com questões culturais e económicas.
ii. A administração de Trump – um pequeno círculo de gente racional – sabe que qualquer acção militar é um potencial desestabilizador regional que atrairá China, Rússia e Japão com consequências imprevisíveis, afastando decisivamente os aliados da NATO e com consequências nefastas na economia global.
iii. A superioridade estratégica militar norte-americana é de tal magnitude que não pode ser desperdiçada com um mosquito.

93 por cento do armamento nuclear global pertence aos EUA e à Rússia, e Washington detém aproximadamente 7 000 armas nucleares, a que se junta um vasto complexo estratégico superior a qualquer conjugação de forças a nível global.

Como disse recentemente Stephen Walt, o arsenal norte-americano conteve e derrotou a URSS e livrou-se de todo e qualquer pequeno empecilho internacional.

Há contudo um dilema para Trump.
Kim belisca a auto-estima do presidente norte-americano e o lançamento constante e impertinente de mísseis é de facto algo que o impacienta, embora Trump se irrite mais facilmente com o seu próprio partido, a imprensa ou o judiciário.

No fundo, Trump sabe que Kim é um sortudo por ser o chefe de um campo de concentração que não tem que lidar com os constrangimentos de viver em democracia, esse pequeno detalhe que tem até ao momento impedido o milionário de dar cabo do mundo em que vivemos.


Links da Semana

China

França
Na época do autoritarismo illiberal, Macron assume-se como o “homem forte” liberal: http://www.politico.eu/article/emmanuel-macron-liberal-strongman-charles-de-gaulle-france-majority-parliament/amp/

Islão
Recensão a dois livros sobre a caminhada Islâmica para o mundo moderno:

Israel-Palestina

Reino Unido
Moravcsik e como o Brexit não altera radicalmente a relação EU-Reino Unido:

Rússia
Relatório prospectivo do Russian Council sobre a política externa russa para 2017-2024: http://russiancouncil.ru/papers/Russian-Foreign-Policy-2017-2024-Report-En.pdf

Terrorismo
Relatório do Washington Institute sobre a capacidade de “sobrevivência” da al-Qaeda:  http://www.washingtoninstitute.org/uploads/Documents/pubs/PolicyFocus153-Zelin.pdf
Relatório do EUISS sobre eventos hipotéticos (ataques do Estado Islâmico ou da extrema-direita) que podem alterar a situação da segurança regional, e a resposta aos mesmos:
Como lidar com o regresso dos Jihadistas (caso suíço) aprendendo com os casos francês e dinamarquês:
Testemunhos no Comité Negócios Estrangeiros da Câmara Representantes sobre terrorismo na Europa:

Trump

Defesa e Política Externa
Hal Brands e Eric Elman sobre a desordem internacional e o papel dos EUA: http://nationalinterest.org/feature/america-the-geopolitics-upheaval-21258
Hal Brands e o debate sobre a política externa que os EUA necessitam de efectuar: https://raddingtonreport.com/foreign-policy-debate-america-needs/
Stephen Walt, Está o mundo mais estável? Os desenvolvimentos globais sob o signo de Sergio Leone (O bom, o mau e o vilão): https://foreignpolicy.com/2017/06/26/the-world-is-even-less-stable-than-it-looks
A imagem dos EUA sofre erosão global desde a eleição de Trump (relatório do Pew Research):

Respostas a Trump

Fareed Zakaria e os actuais problemas do Partido Democrata:

“Trumpismo”
A The Economist elaborou um especial sobre Trump:

União Europeia

TRI/CP
Anatol Lieven traça os perfis dos “Nacionalismos” existentes e aponta e o nacionalismo que não deve ser temido: http://nationalinterest.org/feature/dont-fear-the-new-nationalism-21307
Danish Foreign Policy Yearbook 2017 (Hans Mouritzen et al.): http://pure.diis.dk/ws/files/916094/Yearbook_2017_web.pdf
Um longo artigo do The Guardian sobre os negócios milionários das publicações científicas: https://www.theguardian.com/science/2017/jun/27/profitable-business-scientific-publishing-bad-for-science

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